{"id":3592,"date":"2026-09-13T01:00:07","date_gmt":"2026-09-13T04:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=3592"},"modified":"2026-09-12T23:28:31","modified_gmt":"2026-09-13T02:28:31","slug":"a-boleia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/a-boleia\/","title":{"rendered":"A boleia"},"content":{"rendered":"<p>Deserto. Secura imensa, vegeta\u00e7\u00e3o nula. O carro avariado na berma da estrada.<\/p>\n<p>Levantou o polegar calmamente debaixo de uma brisa andr\u00f3gina que arrastava pequenos peda\u00e7os de nuvens espectrais. O sol alto l\u00e1 em cima a queimar-se, a<br \/>\nqueimar tudo. Zzzz passou o carro, a luz intermitente da direita, parou&#8230;<\/p>\n<p>Ele caminha em sereno sobressalto, nervoso como uma folha a tremer esquecida em \u00e1rvore morta de jardim. Abre-se o vidro do passageiro, o condutor pergunta-lhe para onde, ele, ele diz que sim e j\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea nada, apenas o carro a arrancar diluindo-se num horizonte azul indefinido.<\/p>\n<p>O sol queima as escamas de um lagarto frio.<\/p>\n<p>H\u00e1 um frio vindo da janela, o r\u00e1dio a gritar uma m\u00fasica fm sem mente, um crucifixo a balou\u00e7ar no espelho retrovisor, um sil\u00eancio comprometedor como se n\u00e3o houvesse gente, nada absoluto, s\u00f3 dor&#8230;<\/p>\n<p>Os pneus sugavam pela borracha o asfalto brilhante rolando, humidamente, as rodas rolando, sem mente, atravessando a dist\u00e2ncia que era o\u00e1sis de sede e vapor de \u00e1gua esfumando, rolando e rolando as rodas na estrada, o condutor, dentro de si, o condutor, dentro de si, era uma am\u00e1lgama colorida de ter que chegar ao destino e de \u00f3dio pelo calor, estes sentimentos cruzavam-se durante a longa viagem e mutavam-se numa cor azul, de um sentir azul, de um guiar azul sob o c\u00e9u azul, tremendo, o motor e o passageiro sorriem em segredo, o r\u00e1dio a gritar uma m\u00fasica fm sem mente, o condutor decidido avan\u00e7a pela estrada manipulando a caixa de velocidades decidido, abre os olhos e RRRRRRRRRRRRRRRR, de repente algo se passa:<\/p>\n<p>\u201cAcabou?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, \u00e9 o que parece, est\u00e1 sem gasolina&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cEstamos perto de uma esta\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cBem, acho que&#8230; Tem um cigarro? Estou \u00e1 tanto tempo sem fumar um cigarro&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O condutor tira uma m\u00e3o do volante, vai ao bolso da camisa, tira um pacote vermelho e branco, abrindo a caixa sorriem enfileirados cigarros novos prontos a fumar. D\u00e1-lhe um.<\/p>\n<p>\u201cAh, obrigado&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E ao redor ouve-se o som do carro parado, o motor a rosnar enquanto se tenta ligar a igni\u00e7\u00e3o, a tentar e a tentar, o r\u00e1dio a gritar uma m\u00fasica fm sem mente, o som do vento a entrar na janela aberta como se dissesse NUNCA!, o som natural do espa\u00e7o em redor vasto e desolado, um momento em suspenso, o carro, o r\u00e1dio a gritar uma m\u00fasica fm sem mente, o vento, o crucifixo a balou\u00e7ar no espelho retrovisor&#8230;<\/p>\n<p>\u201cPenso que h\u00e1 uma esta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o n\u00e3o muito longe daqui. Vou at\u00e9 l\u00e1!\u201d<\/p>\n<p>\u201cPode dar-me lume? Estou h\u00e1 tanto tempo sem fumar um cigarro!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O r\u00e1dio a gritar uma m\u00fasica fm sem mente, o motor parado, o vento, a mente ao vento, a paisagem desvanecendo-se gradualmente em humidade que se sente intimamente por dentro, e j\u00e1 n\u00e3o sei quem \u00e9 que pensa isto, se eu, esta vis\u00e3o ou\u2026 O Sil\u00eancio em que existo\u2026<\/p>\n<p>O rosnar do motor do carro, uma vis\u00e3o enorme recuando, v\u00ea-se agora o globo Terra azul, manchado de nuvens, o fundo do espa\u00e7o num v\u00e1cuo negro, imenso, infindo, a vis\u00e3o focando a pupila negra no olho azul, nuvens, Terra, deserto, estrada, carro cinzento, crucifixo a balou\u00e7ar, a balou\u00e7ar, o r\u00e1dio a gritar, o r\u00e1dio a gritar uma m\u00fasica FM sem mente, a janela do passageiro aberta, uma travagem brusca, RINCH!<\/p>\n<p>Poeira a levantar-se cobrindo o carro.<\/p>\n<p>A porta do passageiro abre-se, ele sai, puxa a navalha para dentro, sorri, caminha de volta para o s\u00edtio onde estava, ouvem-se os passos das botas pesadas, o c\u00e9u \u00e9 um filme aberto \u00e0 claridade revelando-se e deslizando em raios puros de gritos de luz, dos negativos saem imagens estampadas de azul, definitivamente azul, uma placa junto \u00e0 estrada:<\/p>\n<p>\u201cEsta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o 6 km&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O passageiro sorri com malicia e marca com a navalha mais um risco no sinal, sorri com malicia e sai de cena.<\/p>\n<p>Toda a paisagem \u00e9 um falc\u00e3o negro que voa desvanecendo-se no sol&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deserto. 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