{"id":3919,"date":"2026-09-17T01:15:25","date_gmt":"2026-09-17T04:15:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=3919"},"modified":"2026-09-14T12:54:26","modified_gmt":"2026-09-14T15:54:26","slug":"meus-mortos-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/meus-mortos-dos-outros\/","title":{"rendered":"Meus mortos dos outros"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez me disseram que n\u00f3s somos realmente especiais apenas no dia de nossas n\u00fapcias e nos anivers\u00e1rios.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos eu n\u00e3o me sinto especial no dia dos meus anivers\u00e1rios. Antes sim, quando era menina. Ganhava presentes, minha av\u00f3 me dava sempre um dinheirinho, que eu guardava num cofre no fundo do arm\u00e1rio. \u00c0s vezes, minhas primas iam me visitar e com\u00edamos bolo, beb\u00edamos guaran\u00e1 gelado.<\/p>\n<p>At\u00e9 que eu cresci, minhas primas foram se casando, minha av\u00f3 morreu e ningu\u00e9m mais se animava a comemorar meu anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Eu me casei h\u00e1 muito tempo. O casamento durou pouco, e nem lembro mais direito como foi aquele dia. S\u00f3 me recordo de meu pai reclamando da demora para o in\u00edcio da cerim\u00f4nia, muito simples, na igreja, e do meu noivo cheirando a lo\u00e7\u00e3o ap\u00f3s-barba. Ele sempre tinha esse cheiro.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o o amava tanto, mas ele era bom para mim, at\u00e9 o momento em que optou por outra e me deixou para sempre. Talvez, se eu tivesse me esfor\u00e7ado mais, ele n\u00e3o tivesse me trocado.<\/p>\n<p>Fiquei sozinha, numa cidade distante de minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas venci. Trabalhei muito e at\u00e9 terminei os meus estudos. A \u00faltima parte do ginasial eu fiz de noite, com os adultos, numa escola perto da minha casa.<\/p>\n<p>Ali conheci Rog\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ele era vi\u00favo, tinha os filhos crescidos e regulava em idade comigo. Nos demos sempre muito bem e, quando percebi, ele estava praticamente morando l\u00e1 em casa. Mantinha a casa dele, mas passava a maior parte do tempo comigo, e eu gostava.<\/p>\n<p>Ele eu sei que me amou de verdade.<\/p>\n<p>Era devotado, me tratava bem. Dizia que queria ficar velhinho comigo e aproveitar a vida depois que se aposentasse.<\/p>\n<p>Foi a pessoa que mais amei neste mundo.<\/p>\n<p>Mas ele teve uma doen\u00e7a repentina e n\u00e3o durou um ano. Cuidei dele at\u00e9 o final. Os filhos mal apareciam para v\u00ea-lo, e tive at\u00e9 dificuldade de avis\u00e1-los no dia em que ele fez a passagem. Ele era esp\u00edrita e gostava de dizer assim: \u201cfulano fez a passagem\u201d.<\/p>\n<p>Quando Rog\u00e9rio morreu, eu me vi novamente sozinha.<\/p>\n<p>Mas nunca havia experimentado aquele tipo de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Apavorou-me a ideia de que, se eu morresse sozinha na minha casa, talvez levassem dias para notar.<\/p>\n<p>Eu nunca havia tido rela\u00e7\u00f5es muito fortes depois que fiquei mais velha. Os vizinhos da rua eram apenas conhecidos. Depois que me aposentei, n\u00e3o frequentava nenhum lugar, a n\u00e3o ser a igreja, onde ia eventualmente e ajudava em uma ou outra obra social.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o chegara a fazer amizades.<\/p>\n<p>Era uma solit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Minha vida acabou sendo banal.<\/p>\n<p>Um dia, me peguei pensando que, depois que eu desaparecesse do mundo, minhas coisas teriam um destino incerto.<\/p>\n<p>At\u00e9 o mais \u00ednfimo objeto da minha casa, o menor e mais sem import\u00e2ncia, acabaria esquecido, perdido, dado a algu\u00e9m ou jogado fora. Tudo que era meu, tudo que eu tivesse tocado, iria desaparecer tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Fiquei lembrando da minha inf\u00e2ncia, na cidade do interior onde morava.<\/p>\n<p>Da \u00e9poca em que eu acordava cedo para ver o carro de boi passar cantando debaixo da minha janela.<\/p>\n<p>Do meu tio \u00c2ngelo, dono da mercearia da esquina, alisando a barba na porta do estabelecimento, com aquele cigarrinho fino na piteira que ele sempre trazia na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Da Josefa, que era meio irm\u00e3 de cria\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e, tinha uma perna mais curta que a outra e tossia muito.<\/p>\n<p>E at\u00e9 do padre Amaro, que fazia bonitos serm\u00f5es nas missas de domingo.<\/p>\n<p>Como essa gente havia desaparecido, eu iria desaparecer tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E n\u00e3o havia quase nada que lembrasse essas pessoas.<\/p>\n<p>Talvez ningu\u00e9m al\u00e9m de mim.<\/p>\n<p>Estou exagerando.<\/p>\n<p>Tio \u00c2ngelo teve seis filhos, o padre Amaro virou at\u00e9 nome de rua na minha antiga cidade, e a Josefa&#8230; Bem, da Josefa sobrou um retrato ao lado de minha m\u00e3e e minhas tias, que eu acho que minha prima Dorinha deve ter guardado. Al\u00e9m da cruz de ferro na campa do cemit\u00e9rio onde foi enterrada.<\/p>\n<p>Essas pessoas, e mais outras que haviam passado por minha vida, eram, de certa forma, eternas.<\/p>\n<p>Viviam na minha lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>E me davam muitas saudades.<\/p>\n<p>O que eu queria, na verdade, era ter uma coisa f\u00edsica para lembrar de cada uma delas.<\/p>\n<p>Quem me dera ter a piteira do tio \u00c2ngelo. O livro de rezas da Josefa. Um crucifixo qualquer que tivesse pertencido ao padre Amaro.<\/p>\n<p>Onde andariam os objetos que foram deles?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que algum ainda existia?<\/p>\n<p>Andei indo a uma feira aqui perto de casa. Uma feira que n\u00e3o vende s\u00f3 coisas de feira, mas onde acontece aquele com\u00e9rcio geral de objetos, uma variedade t\u00e3o grande que nem d\u00e1 para listar.<\/p>\n<p>Fiquei andando ao acaso, prestando aten\u00e7\u00e3o nas barracas, nos preg\u00f5es dos vendedores, nas pessoas que paravam para negociar uma compra.<\/p>\n<p>Um r\u00e1dio quase novo, uns discos antigos, uma ferramenta qualquer ainda na caixa.<\/p>\n<p>Numa das esquinas, sobre uma lona azul estendida no ch\u00e3o, um homem dispunha v\u00e1rios objetos pela cal\u00e7ada e ficava em p\u00e9, ao lado, esperando que algum fregu\u00eas se interessasse.<\/p>\n<p>Ali, junto \u00e0s coisas espalhadas sem formar qualquer conjunto, reparei numa piteira.<\/p>\n<p>Bem parecida com aquela que meu tio \u00c2ngelo sempre trazia entre os dedos.<\/p>\n<p>Ele deixava o cigarro nela mais queimando do que sendo tragado. De vez em quando levava a piteira \u00e0 boca, baforava e tornava a co\u00e7ar a barba bonita, bem aparada.<\/p>\n<p>Perguntei:<\/p>\n<p>\u2014 Quanto \u00e9 essa piteira, mo\u00e7o?<\/p>\n<p>\u2014 A senhora leva por 25 reais.<\/p>\n<p>Ofereci 15 e acabei levando por 20.<\/p>\n<p>Achei cara.<\/p>\n<p>Mas peguei aquela piteira como se fosse uma rel\u00edquia. Como se eu a estivesse recebendo das m\u00e3os do meu pr\u00f3prio tio, que era t\u00e3o bom para n\u00f3s e sempre vendia fiado para meu pai nas \u00e9pocas de dureza, e depois se esquecia de cobrar.<\/p>\n<p>Coloquei a piteira na bolsa.<\/p>\n<p>Quando voltei para casa, pus num lugar de destaque na estante.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m iria perguntar, mas, se perguntasse, eu diria que aquela piteira era uma rel\u00edquia de fam\u00edlia. Uma lembran\u00e7a de um bom tio.<\/p>\n<p>Voltei outras vezes \u00e0 feira com a ideia de comprar objetos que se tornariam lembran\u00e7as daquelas pessoas amadas.<\/p>\n<p>Comprei, depois de muito negociar, um rel\u00f3gio de bolso que atribu\u00ed ao padre Amaro. Cheguei a imaginar o velho sacerdote regulando naquele rel\u00f3gio a hora em que ia come\u00e7ar a se paramentar para a santa missa, ou olhando os ponteiros antes de sair para dar algum sacramento.<\/p>\n<p>Achei tamb\u00e9m um ros\u00e1rio de lindas contas de vidro, que brilhavam sob a luz do sol.<\/p>\n<p>Era certinho o gosto de Josefa.<\/p>\n<p>Um dia, vi um \u00e1lbum de retratos perto de uma mala velha de couro e fiquei folheando suas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Era uma gente antiga, bem vestida. Via-se que eram gente de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O dono da barraca disse que vendia o \u00e1lbum inteiro ou alguma fotografia solta de que eu gostasse, por poucos reais.<\/p>\n<p>Acabei levando o \u00e1lbum inteiro.<\/p>\n<p>Em casa, passei muito tempo olhando aquelas pessoas.<\/p>\n<p>O homem de bigode enorme, de roupa militar e sentado numa cadeira de espaldar alto seria meu av\u00f4 Francisco, que, segundo eu soubera, fora soldado em algum lugar no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>A mulher velha com leque seria minha av\u00f3 Benedita, que tinha muitas terras em Minas.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a de tra\u00e7os finos, com vestido leve, fotografada ao lado de um abajur, seria minha tia Dorot\u00e9a, que morreu nova, embora a mo\u00e7a da fotografia tivesse os tra\u00e7os mais delicados e a pele bem mais clara do que minha tia, que era quase uma \u00edndia.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m um menino de roupa de marinheiro que eu n\u00e3o sabia quem poderia ser.<\/p>\n<p>Fiquei olhando para ele por algum tempo.<\/p>\n<p>Resolvi que seria um primo de minha m\u00e3e, morto ainda crian\u00e7a. Ningu\u00e9m nunca tinha me falado de primo nenhum, mas achei que toda fam\u00edlia podia ter uma crian\u00e7a morta de quem, depois de tantos anos, ningu\u00e9m mais se lembrava.<\/p>\n<p>E fui fazendo isso com os outros.<\/p>\n<p>Dando nomes.<\/p>\n<p>Inventando parentescos.<\/p>\n<p>Lembrando hist\u00f3rias que nunca tinham acontecido.<\/p>\n<p>Depois coloquei o \u00e1lbum na estante, perto do rel\u00f3gio do padre Amaro, do ros\u00e1rio de Josefa e da piteira do tio \u00c2ngelo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes sento diante da estante e fico olhando para aquelas coisas.<\/p>\n<p>Sei que nada daquilo pertenceu a eles.<\/p>\n<p>Mas, quando olho a piteira, lembro do meu tio.<\/p>\n<p>Quando pego o ros\u00e1rio, vejo Josefa andando devagar, por causa da perna mais curta.<\/p>\n<p>Quando abro o \u00e1lbum, meu av\u00f4 Francisco est\u00e1 novamente sentado, muito s\u00e9rio, com sua roupa de soldado.<\/p>\n<p>Talvez seja assim que as pessoas continuem existindo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Outro dia pensei no homem que vendeu aquele \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Talvez aquelas pessoas tamb\u00e9m tivessem sido parentes de algu\u00e9m. Talvez algu\u00e9m as tivesse conhecido pelo nome, soubesse onde moravam, do que gostavam, quem amaram, quem enterraram.<\/p>\n<p>Agora estavam comigo.<\/p>\n<p>E eu tinha dado a elas outros nomes.<\/p>\n<p>Pensei ent\u00e3o nas minhas coisas.<\/p>\n<p>Um dia, minha piteira, meu ros\u00e1rio, minhas fotografias e tudo o que existe dentro desta casa talvez tamb\u00e9m v\u00e1 parar numa feira.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poder\u00e1 pegar uma fotografia minha, olhar bem para o meu rosto e dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Essa aqui vai ser a tia Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>E achei que n\u00e3o seria t\u00e3o ruim.<\/p>\n<p>Pelo menos eu ainda seria tia de algu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio e fundador da Editora Fava, \u00e9 autor de\u00a0<em>A Verdade nos Seres<\/em>\u00a0(poesia, 2024) e\u00a0<em>Territ\u00f3rio do Sonho<\/em>\u00a0(contos, 2026). <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/prof.danielmarchi\/\">@prof.danielmarchi<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez me disseram que n\u00f3s somos realmente especiais apenas no dia de nossas n\u00fapcias e nos anivers\u00e1rios. H\u00e1 muitos anos eu n\u00e3o me sinto especial no dia dos meus anivers\u00e1rios. Antes sim, quando era menina. 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