{"id":3923,"date":"2026-09-14T14:35:12","date_gmt":"2026-09-14T17:35:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=3923"},"modified":"2026-09-14T14:36:43","modified_gmt":"2026-09-14T17:36:43","slug":"pedro-traz-as-muitas-brasilias-que-o-poder-e-o-povo-que-vota-precisam-conhecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/eleicoes-2026\/pedro-traz-as-muitas-brasilias-que-o-poder-e-o-povo-que-vota-precisam-conhecer\/","title":{"rendered":"Pedro traz as muitas Bras\u00edlias que o Poder e o povo que vota precisam conhecer"},"content":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia n\u00e3o tem prefeitos, vereadores e tampouco possui munic\u00edpios como as demais unidades da Federa\u00e7\u00e3o. Mas tem administradores regionais que, no cotidiano das ruas, acabam funcionando como uma esp\u00e9cie de \u201cprefeito\u201d das comunidades espalhadas pelo territ\u00f3rio do Distrito Federal. Tamb\u00e9m tem governante, legisladores e um Poder Judici\u00e1rio que, mesmo tardando, nunca falha.<\/p>\n<p>\u00c9 para esses gestores e para quem deseja compreender a singular engrenagem administrativa da capital da Rep\u00fablica, que o escritor Pedro Mota acaba de lan\u00e7ar o livro \u201cBras\u00edlia das Regi\u00f5es \u2013 Um mapa vivo do Distrito Federal\u201d, editado pela Book Printer.<\/p>\n<p>A obra nasce com voca\u00e7\u00e3o essencialmente pr\u00e1tica. \u00c9 um Guia Pr\u00e1tico do Administrador Regional, mas sua utilidade vai al\u00e9m dos gabinetes. Ao percorrer as diferentes realidades do DF, ajuda a explicar uma Bras\u00edlia que pouca gente de fora conhece: uma unidade da Federa\u00e7\u00e3o que exerce simultaneamente compet\u00eancias de Estado e de munic\u00edpio e abriga, atualmente, 36 Regi\u00f5es Administrativas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma arquitetura institucional de Bras\u00edlia praticamente \u00fanica no Pa\u00eds, onde fica proibida a exist\u00eancia de cidades dentro do Estado. Essa explica\u00e7\u00e3o come\u00e7a na pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o Federal. onde se l\u00ea, em seu artigo 32, que \u00e9 vedada a divis\u00e3o do Distrito Federal em munic\u00edpios. Ao mesmo tempo, atribui ao &#8220;Quadradinho&#8221; encravado no meio do Cerrado as compet\u00eancias legislativas reservadas tanto aos Estados quanto aos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Est\u00e1 a\u00ed a origem de uma das peculiaridades da vida brasiliense, porque, por exemplo, quem mora em Ceil\u00e2ndia n\u00e3o elege prefeito de Ceil\u00e2ndia, quem vive no Gama n\u00e3o escolhe governante local, como tamb\u00e9m n\u00e3o existe C\u00e2mara Municipal de Taguatinga nem vereadores de Planaltina, Samambaia, Sobradinho ou outras de &#8216;nossas&#8217; cidades-sat\u00e9lites.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o elege governador, vice-governador, senadores e deputados federais e distritais. J\u00e1 a administra\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es locais \u00e9 descentralizada por meio das Regi\u00f5es Administrativas, com cada uma delas possuindo seu administrador. N\u00e3o \u00e9 prefeito do ponto de vista jur\u00eddico, mas \u00e9 frequentemente percebido pela popula\u00e7\u00e3o como a autoridade mais pr\u00f3xima de uma prefeitura.<\/p>\n<p><strong>Eram oito regi\u00f5es<\/strong><br \/>\nEssa organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasceu agora. A Lei n\u00ba 4.545, de 10 de dezembro de 1964, lan\u00e7ou as bases do sistema. Seu artigo 9\u00ba determinou que o Distrito Federal fosse dividido em Regi\u00f5es Administrativas para permitir a descentraliza\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de natureza local. A legisla\u00e7\u00e3o estabelecia ainda que a cada regi\u00e3o corresponderia uma Administra\u00e7\u00e3o Regional.<\/p>\n<p>Naquele momento eram apenas oito: Bras\u00edlia, Gama, Taguatinga, Brazl\u00e2ndia, Sobradinho, Planaltina, Parano\u00e1 e Jardim. A organiza\u00e7\u00e3o foi detalhada no ano seguinte pelo sistema de Administra\u00e7\u00e3o Regional da ent\u00e3o Prefeitura do Distrito Federal. \u00c9 interessante perceber como essa fotografia administrativa tamb\u00e9m registra a transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria capital.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia havia sido inaugurada em 1960, embora Taguatinga j\u00e1 existisse desde 1958. Planaltina e Brazl\u00e2ndia possu\u00edam n\u00facleos anteriores \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da nova capital e o N\u00facleo Bandeirante carregava a mem\u00f3ria da Cidade Livre. Ao redor do projeto monumental come\u00e7ava a crescer uma Bras\u00edlia que Lucio Costa n\u00e3o poderia conter apenas dentro das asas de seu avi\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, a popula\u00e7\u00e3o cresceu, as dist\u00e2ncias aumentaram, novas cidades surgiram e o mapa administrativo precisou acompanhar a vida, com o mapa mudando de oito para 36 Bras\u00edlias. Com o tempo, as oito Regi\u00f5es Administrativas de 1964 tornaram-se 12 em 1989. Depois vieram novas divis\u00f5es e desmembramentos, com a cria\u00e7\u00e3o de Ceil\u00e2ndia, Guar\u00e1, Samambaia, Santa Maria, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, Recanto das Emas, Lago Sul, Lago Norte, \u00c1guas Claras, Itapo\u00e3, Vicente Pires, Fercal e tantas outras passando a compor oficialmente esse mosaico territorial.<\/p>\n<p>Mais recentemente nasceram Arapoanga e \u00c1gua Quente, ambas transformadas em RAs em 2022. \u00c1gua Quente recebeu o n\u00famero XXXV e o mapa voltou a mudar em 2026, quando a Lei n\u00ba 7.918, de 3 de julho deste ano, criou oficialmente a Regi\u00e3o Administrativa de 26 de Setembro \u2013 RA XXXVI. O Distrito Federal passou, portanto, a contar legalmente com 36 Regi\u00f5es Administrativas.<\/p>\n<p>Esse crescimento, sozinho, j\u00e1 conta boa parte da hist\u00f3ria da expans\u00e3o urbana da capital, porque \u00e9 exatamente a\u00ed que a \u201cBras\u00edlia das Regi\u00f5es\u201d ganha dimens\u00e3o maior que a de um simples manual administrativo. Tanto, que n\u00e3o existem duas Regi\u00f5es Administrativas iguais.<\/p>\n<p>Em uma ponta est\u00e1 o Lago Sul, territ\u00f3rio de mans\u00f5es, embaixadas, grandes \u00e1reas verdes e infraestrutura consolidada. Na outra est\u00e3o regi\u00f5es formadas por ocupa\u00e7\u00f5es populares, urbaniza\u00e7\u00e3o recente e demandas hist\u00f3ricas por infraestrutura e presen\u00e7a efetiva do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Entre esses extremos existem dezenas de outras realidades. Ceil\u00e2ndia n\u00e3o \u00e9 Taguatinga, que n\u00e3o \u00e9 Planaltina, que fica do outro lado do Gama, que por sua vez n\u00e3o \u00e9 Samambaia nem Brazl\u00e2ndia. Ao mesmo tempo, \u00c1guas Claras n\u00e3o \u00e9 Sol Nascente\/P\u00f4r do Sol e nenhuma de todas administra\u00e7\u00f5es \u00e9 o Plano Piloto.<\/p>\n<p>Cada uma nasceu de determinada circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica. Cada uma possui sua economia, suas lideran\u00e7as comunit\u00e1rias, seus problemas urbanos, suas festas, seus s\u00edmbolos, suas necessidades e at\u00e9 uma maneira pr\u00f3pria de se relacionar com Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Administr\u00e1-las com a mesma r\u00e9gua seria desconhecer o pr\u00f3prio Distrito Federal, porque \u00e9 aqui que temos prefeito sem munic\u00edpio. Precisamente por isso, compreende-se, a partir da leitura do livro de Pedro Mota, que a figura do administrador regional \u00e9 t\u00e3o peculiar.<\/p>\n<p>Legalmente, ele n\u00e3o \u00e9 prefeito. Politicamente, n\u00e3o possui o mandato popular de um prefeito, mas, na porta da Administra\u00e7\u00e3o Regional, essas distin\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas perdem import\u00e2ncia para quem chega carregando um problema debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 na Administra\u00e7\u00e3o que o cidad\u00e3o bate na porta quando quer solu\u00e7\u00e3o para o buraco na rua, quando a pra\u00e7a est\u00e1 abandonada, quando falta manuten\u00e7\u00e3o urbana, quando uma feira precisa ser organizada, quando uma \u00e1rvore oferece risco ou quando alguma interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica altera a rotina da comunidade.<\/p>\n<p>Contudo, nem sempre a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os do administrador. Muitas vezes depende de Novacap, DER, SLU, Caesb, Secretaria de Obras, DF Legal, Detran, Seguran\u00e7a P\u00fablica ou outros bra\u00e7os do Governo. Mas \u00e9 o administrador regional que frequentemente recebe primeiro a cobran\u00e7a. Sua principal ferramenta, portanto, n\u00e3o deveria ser apenas a caneta, mas o conhecimento da regi\u00e3o que ir\u00e1 (ou est\u00e1) sob seus cuidados.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00e1 que est\u00e1 a principal contribui\u00e7\u00e3o do livro de Pedro Mota, porque antes de administrar uma Regi\u00e3o Administrativa \u00e9 preciso conhec\u00ea-la. N\u00e3o apenas saber onde come\u00e7am e terminam suas poligonais. \u00c9 necess\u00e1rio compreender quem mora ali, como nasceu aquela comunidade, quais s\u00e3o suas atividades econ\u00f4micas, onde est\u00e3o suas \u00e1reas de expans\u00e3o, quais servi\u00e7os p\u00fablicos possui, quais lhe faltam e quais problemas atravessaram d\u00e9cadas sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe sinalizar que um administrador que conhece apenas seu gabinete conhece muito pouco da regi\u00e3o que administra. Ele precisa andar, ouvir, observar, conversar com comerciantes, feirantes, professores, empres\u00e1rios, lideran\u00e7as comunit\u00e1rias, trabalhadores, idosos e jovens. Em s\u00edntese, precisa descobrir onde a cidade pulsa e onde d\u00f3i mais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u201cBras\u00edlia das Regi\u00f5es \u2013 Um mapa vivo do Distrito Federal\u201d pode ser lido como manual de administra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como um convite para enxergar Bras\u00edlia para al\u00e9m do concreto branco de Oscar Niemeyer e das linhas perfeitas de Lucio Costa.<\/p>\n<p>Mas existe outra Bras\u00edlia que acorda \u00e0s quatro ou cinco da manh\u00e3, pega \u00f4nibus, abre com\u00e9rcio, constr\u00f3i casas, cria filhos, procura escola, espera atendimento m\u00e9dico e cobra do Estado aquilo que lhe foi prometido. \u00c9 essa Bras\u00edlia que dificilmente aparece nos cart\u00f5es-postais; trata-se, sim, de um mapa que nunca termina.<\/p>\n<p>Talvez Pedro Mota tenha acertado especialmente ao definir seu trabalho como um \u201cmapa vivo\u201d, revelando que o mapa pol\u00edtico e urbano do Distrito Federal nunca ficou pronto.<\/p>\n<p>Em 1964 eram oito Regi\u00f5es Administrativas; em 2022, chegaram a 35; em julho \u00faltimo passaram oficialmente a 36, com a cria\u00e7\u00e3o da 26 de Setembro. E amanh\u00e3 poder\u00e3o ser mais, porque a Capital da Rep\u00fablica cresce, ocupa novos espa\u00e7os, cria centralidades, consolida comunidades e for\u00e7a o poder p\u00fablico a redesenhar seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n<p>Por isso, talvez a primeira li\u00e7\u00e3o para qualquer administrador regional esteja antes mesmo da primeira p\u00e1gina de um manual. \u00c9 preciso descobrir que n\u00e3o existe uma Bras\u00edlia, mas muitas.<\/p>\n<p>Do Lago Sul ao Sol Nascente. Do Plano Piloto a Ceil\u00e2ndia. De Planaltina a Brazl\u00e2ndia. Do Gama a Sobradinho. De Arapoanga a \u00c1gua Quente. E, agora, tamb\u00e9m a 26 de Setembro. S\u00e3o 36 peda\u00e7os de um mesmo Distrito Federal, unidos politicamente, mas profundamente diferentes social, econ\u00f4mica, hist\u00f3rica e urbanisticamente.<\/p>\n<p>Pedro Mota procura colocar essas muitas Bras\u00edlias nas m\u00e3os de quem tem a responsabilidade de administr\u00e1-las. Porque mapa de papel mostra onde come\u00e7a e onde termina uma regi\u00e3o, enquanto um mapa vivo, lembra o autor, precisa mostrar quem mora dentro dela.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Carolina Paiva \u00e9 Editora de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bras\u00edlia n\u00e3o tem prefeitos, vereadores e tampouco possui munic\u00edpios como as demais unidades da Federa\u00e7\u00e3o. Mas tem administradores regionais que, no cotidiano das ruas, acabam funcionando como uma esp\u00e9cie de \u201cprefeito\u201d das comunidades espalhadas pelo territ\u00f3rio do Distrito Federal. 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