{"id":4063,"date":"2026-09-16T00:15:33","date_gmt":"2026-09-16T03:15:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4063"},"modified":"2026-09-15T11:41:12","modified_gmt":"2026-09-15T14:41:12","slug":"necromantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/necromantes\/","title":{"rendered":"Necromantes"},"content":{"rendered":"<p>Ele se definia como um necromante, isto \u00e9, algu\u00e9m capaz de se comunicar com os esp\u00edritos dos mortos. Tamb\u00e9m poderia se declarar, com motivos de sobra, um mago, bruxo ou feiticeiro, mas dava prioridade ao talento inato de ver e se comunicar com os falecidos, e n\u00e3o a habilidades laboriosamente adquiridas ou pelo menos refinadas em escolas para bruxos ou sociedades inici\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Fisicamente, ele parecia o protagonista humano (n\u00e3o o monstro, vampiro ou coisas desse tipo) de um filme de terror de baixo or\u00e7amento: alto, magro, rosto de caveira, olhos fundos. Um esqueleto, n\u00e3o fosse o nariz adunco, de \u00e1guia, que desaparece ap\u00f3s a morte, juntamente com as demais cartilagens (a prop\u00f3sito, tinha orelhas pontudas, semelhantes \u00e0s de um lince ou, v\u00e1 l\u00e1, de um elfo). N\u00e3o lhe faltavam clientes, que pagavam caro para assistir \u00e0 materializa\u00e7\u00e3o de seus entes queridos, saber de suas pr\u00f3prias bocas de segredos que estes haviam levado para o t\u00famulo, coisas assim. Ele garantia uma comunica\u00e7\u00e3o genu\u00edna, bem diferente daquela dos falsos m\u00e9diuns que enganam os ot\u00e1rios.<\/p>\n<p>Certo dia, fixou-se na cidade um segundo necromante. Talvez os dotes ps\u00edquicos moldassem o corpo f\u00edsico, o fato \u00e9 que era outro esqueleto ambulante. Na verdade, o rec\u00e9m-chegado poderia ser irm\u00e3o g\u00eameo do primeiro. E necromantes s\u00e3o piores que os imortais do filme Highlander: s\u00f3 pode haver um. Tremendo de raiva, contataram-se no plano ps\u00edquico e marcaram o dia para o arranca-rabo.<\/p>\n<p>A batalha \u00e9pica entre os necromantes estendeu-se a v\u00e1rios planos espirituais. Num deles, confrontaram-se zumbis mobilizados por ambos; foi um embate n\u00e3o sangrento, mas de membros dilacerados e que, como previs\u00edvel, terminou sem vencedores.<\/p>\n<p>O mesmo equil\u00edbrio de for\u00e7as ocorreu em outras dimens\u00f5es. Mant\u00edcoras, grifos e outros monstros arregimentados pelos dois necromantes neutralizaram-se reciprocamente. Isso tamb\u00e9m aconteceu entre vampiros, trolls e outras entidades de pesadelo. Houve at\u00e9 mesmo embates entre fantasmas, incapazes de ferir-se. Todos eram pe\u00e7as trocadas num jogo de xadrez c\u00f3smico, destinado a apontar o \u00fanico sobrevivente.<\/p>\n<p>Afinal, em determinado plano, um deles obteve uma leve supremacia. Qual, imposs\u00edvel dizer, ambos tinham os rostos desfigurados pelo \u00f3dio rec\u00edproco e pela tens\u00e3o ps\u00edquica resultante da manipula\u00e7\u00e3o de tantos seres sobrenaturais. Tampouco posso informar em qual plano, e qual movimento garantiu a hegemonia. De qualquer modo, foi o bastante para definir o vencedor.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve cabe\u00e7as cortadas, como em Highlander, que necromantes se confrontam apenas nos planos ps\u00edquicos. Sei apenas que desolado, depois de recuperar as for\u00e7as, um dos necromantes deixou para sempre a cidade. N\u00e3o me perguntem qual deles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele se definia como um necromante, isto \u00e9, algu\u00e9m capaz de se comunicar com os esp\u00edritos dos mortos. 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