{"id":4084,"date":"2026-09-15T15:41:58","date_gmt":"2026-09-15T18:41:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4084"},"modified":"2026-09-15T16:08:54","modified_gmt":"2026-09-15T19:08:54","slug":"otavia-imperatriz-de-aguas-claras-com-lobo-e-lua-na-alma-e-no-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/otavia-imperatriz-de-aguas-claras-com-lobo-e-lua-na-alma-e-no-corpo\/","title":{"rendered":"Ot\u00e1via, imperatriz de \u00c1guas Claras com lobo e Lua na alma e no corpo"},"content":{"rendered":"<p>Roma conheceu uma Ot\u00e1via. Bras\u00edlia ganhou outra. Entre elas h\u00e1 mais de dois mil anos, alguns imp\u00e9rios destru\u00eddos, milh\u00f5es de hist\u00f3rias de amor terminadas antes da hora e uma certeza, que atravessou intacta os s\u00e9culos, de que existem mulheres que n\u00e3o precisam levantar a voz para alterar a temperatura de uma sala.<\/p>\n<p>Ot\u00e1via Kilvia \u00e9 uma delas. Se a primeira Ot\u00e1via caminhava entre colunas de m\u00e1rmore, senadores, generais e conspiradores, esta prefere \u00c1guas Claras, onde torres de vidro e concreto parecem disputar espa\u00e7o com o c\u00e9u de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas, conhecendo-a, desconfio que houve algum engano mitol\u00f3gico em sua chegada. Ot\u00e1via, a nossa Tat\u00e1, n\u00e3o nasceu para ser apenas personagem da paisagem brasiliense, porque mostra na voz, do brilho dos olhos e no corpo, ter qualquer coisa de semideusa desgarrada do Olimpo.<\/p>\n<p>Talvez Afrodite tenha cochilado, ou, quem sabe, Nefertiti tenha deixado escapar algum segredo. Porque h\u00e1 em nossa amiga aquela beleza que primeiro chama o olhar e depois o obriga a permanecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso sequer explicar demasiadamente a sensualidade, porque isso seria perder metade do encanto. O lado sensual de Ot\u00e1via mora justamente naquilo que n\u00e3o se revela por inteiro. Seja no movimento distra\u00eddo dos cabelos, na seguran\u00e7a do passo, na maneira de cruzar uma sala, no sorriso que surge sem aviso e, principalmente, naquele instante em que uma mulher percebe que est\u00e1 sendo observada \u2014 e simplesmente continua caminhando.<\/p>\n<p>Ot\u00e1via aprendeu sozinha a caminhar. E, avalio, esteja exatamente a\u00ed sua maior sedu\u00e7\u00e3o. Em uma de suas pernas vive um lobo tatuado, uivando para a Lua. Poderia, mas n\u00e3o \u00e9, ser apenas um belo desenho. Esse lobo \u00e9 quase uma autobiografia clandestina, porque, diz Tat\u00e1, representa a mulher que aprendeu a caminhar sozinha, a ouvir a pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o e seguir adiante sem perder a ess\u00eancia.<\/p>\n<p>A Lua representa suas fases. Tudo aquilo que passou e sobreviveu. E h\u00e1 ainda toda a luz que ainda guarda para resplandecer.<\/p>\n<p>Quando ouvi sua explica\u00e7\u00e3o, pensei imediatamente na outra Ot\u00e1via. A romana, que tamb\u00e9m conheceu a solid\u00e3o. Ot\u00e1via, irm\u00e3 de Augusto, foi entregue em casamento a Marco Ant\u00f4nio quando casamentos entre poderosos serviam menos ao cora\u00e7\u00e3o do que aos mapas. Sua uni\u00e3o deveria costurar a paz entre homens que desejavam possuir Roma. Ela tentou ser ponte, e terminou atravessando sozinha, porque surgiu Cle\u00f3patra. E contra a rainha do Egito n\u00e3o competia apenas uma mulher. Competiam Roma e Alexandria, Ocidente e Oriente, dever e desejo, casamento e paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Marco Ant\u00f4nio escolheu o inc\u00eandio. Ot\u00e1via ficou com as cinzas, sem se ajoelhar diante delas. \u00c9 aqui que as duas Ot\u00e1vias se encontram atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. A romana descobriu que podia sobreviver sem o homem que preferiu outra mulher e outro reino. J\u00e1 a brasiliense, descobriu que caminhar sozinha n\u00e3o significa estar abandonada.<\/p>\n<p>Significa conhecer o pr\u00f3prio caminho, e nisso h\u00e1 uma diferen\u00e7a gigantesca. O lobo tatuado na perna sabe disso. Ele permanece im\u00f3vel como um guardi\u00e3o silencioso, mas segue, exposto na pele, cada passo de Ot\u00e1via. Quando ela caminha, ele caminha. Quando ela dan\u00e7a, imagino que dance tamb\u00e9m. Quando a noite chega, procura sua velha companheira no c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u00c9 quando surge a Lua. H\u00e1 algo inevitavelmente sensual nessa imagem. N\u00e3o porque seja necess\u00e1rio despir Ot\u00e1via para enxerg\u00e1-la. Muito pelo contr\u00e1rio. At\u00e9 porque, o tempo fez-me acreditar que algumas mulheres ficam mais nuas quando revelam aquilo que carregam na alma. E o corpo, como o de uma deusa dos mais m\u00edsticos or\u00e1culos, apenas conta parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Entendo que seja esse o mist\u00e9rio de Ot\u00e1via, onde a beleza abre a porta, mas \u00e9 a personalidade que impede a sa\u00edda. Para isso, Nefertiti emprestou o perfil e Afrodite reconheceu a feminilidade. A Lua, por sua vez. reivindica o brilho. Mas nenhuma delas pode reivindicar completamente Tat\u00e1.<\/p>\n<p>Porque Ot\u00e1via pertence a si mesma. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a fundamental entre a romana e a brasiliense. A Ot\u00e1via do tempo do Imp\u00e9rio Romano viveu num mundo em que mulheres eram frequentemente transformadas em instrumentos das alian\u00e7as masculinas. Seu casamento ajudou a adiar uma guerra. Seu abandono ajudou Augusto a justificar outra.<\/p>\n<p>Mas a Ot\u00e1via de Bras\u00edlia nasceu num tempo em que pode escrever a pr\u00f3pria narrativa, sem precisar reconciliar C\u00e9sar algum. Ela, inclusive, n\u00e3o precisa esperar Marco Ant\u00f4nio regressar de Alexandria e muito menos disputar com Cle\u00f3patra o cora\u00e7\u00e3o de um homem indeciso.<\/p>\n<p>Se algum Marco Ant\u00f4nio contempor\u00e2neo resolver partir atr\u00e1s de sua rainha do Egito, que v\u00e1. \u00c9 s\u00f3 embarcar no metr\u00f4 de \u00c1guas Claras, que continua funcionando, enquanto a Lua continua nascendo e o lobo estar\u00e1 sempre uivando.<\/p>\n<p>Imagino ent\u00e3o Ot\u00e1via numa dessas noites quentes de Bras\u00edlia, quando o vento resolve desaparecer e a Lua surge enorme entre os edif\u00edcios.<\/p>\n<p>Ela caminha, quem sabe usando um vestido que acompanhe discretamente o movimento do corpo, com o tecido permitindo que, entre um passo e outro, apare\u00e7a por alguns segundos o lobo tatuado na perna. Quem passar poder\u00e1 olhar. Alguns olhar\u00e3o duas vezes, e isso \u00e9 compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas provavelmente n\u00e3o perceber\u00e3o o essencial. Pensar\u00e3o estar olhando apenas para uma mulher bonita, sem saber que est\u00e3o diante de uma pequena mitologia particular. Ali caminham Nefertiti, Afrodite, a antiga matrona romana e uma loba que decidiu n\u00e3o aceitar coleira. Todas dentro da mesma mulher.<\/p>\n<p>E quando Ot\u00e1via desaparecer na pr\u00f3xima esquina, deixando atr\u00e1s de si apenas perfume, mem\u00f3ria e alguma imagina\u00e7\u00e3o inquieta, a Lua continuar\u00e1 sobre \u00c1guas Claras, iluminando a cidade, o caminho, o lobo.<\/p>\n<p>Porque a primeira Ot\u00e1via precisou aprender a sobreviver aos homens que disputavam um imp\u00e9rio, enquanto a nossa Tat\u00e1 aprendeu algo ainda mais sedutor. Trata-se de uma mulher verdadeiramente livre, daquelas n\u00e3o espera que algu\u00e9m lhe ofere\u00e7a um imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ot\u00e1via Kilvia escolhe seus caminhos, atravessa suas noites, guarda seus mist\u00e9rios e governa a si pr\u00f3pria. E o resto? Ah, quem desejar, que aprenda a acompanhar seus passos.<\/p>\n<p>Fosse eu poeta, e n\u00e3o jornalista que avan\u00e7a tateando pelo emaranhado e admir\u00e1vel mundo das cr\u00f4nicas, me associaria a Pedrinho Rodrigues e diria que &#8220;(&#8230;) a loira \u00e9 minha, ningu\u00e9m tasca eu vi primeiro.&#8221;<\/p>\n<p>Mas isso, Tat\u00e1 sabe, \u00e9 apenas um gesto de carinho, respeito e considera\u00e7\u00e3o, embora possa valer um Panam\u00e1 aut\u00eantico que acabou inadvertidamente em minhas m\u00e3os. N\u00e3o \u00e9, Mari?. Quanto ao Djalma, se ele insistir no tema, poderei at\u00e9 dizer que o chap\u00e9u sumiu como as fores da Ana.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma conheceu uma Ot\u00e1via. Bras\u00edlia ganhou outra. 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