{"id":4155,"date":"2026-09-16T06:01:41","date_gmt":"2026-09-16T09:01:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4155"},"modified":"2026-09-16T01:57:42","modified_gmt":"2026-09-16T04:57:42","slug":"breno-a-musica-o-distintivo-e-o-ato-de-dar-as-maos-a-quem-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/breno-a-musica-o-distintivo-e-o-ato-de-dar-as-maos-a-quem-precisa\/","title":{"rendered":"Breno, a m\u00fasica, o distintivo e o ato de dar as m\u00e3os a quem precisa"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\">Quem sobreviveu 35 anos desde que entrou na casa das &#8216;enta&#8217;, sabe muito bem as maneiras diferentes de como meninos passam pela inf\u00e2ncia, como muitos deles vivem carregando a adolesc\u00eancia pela vida inteira. Breno Duarte pertence \u00e0 essa categoria, mesmo que s\u00f3 agora esteja entrando nos quarenta.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Para contar sua hist\u00f3ria, por\u00e9m, talvez seja necess\u00e1rio inventar dois meninos. Dois garotos humildes, nascidos em cidades diferentes, separados pela geografia, mas unidos pela vontade de vencer, uma coisa que n\u00e3o cabe nos mapas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O primeiro poderia ser o menino da porteira. Mas um menino da porteira diferente daquele eternizado na can\u00e7\u00e3o que atravessou gera\u00e7\u00f5es na voz de S\u00e9rgio Reis. O nosso menino enganou o destino, porque n\u00e3o ficou esperando o boiadeiro passar e n\u00e3o permaneceu sob a cruz da estrada de Ouro Fino. Simplesmente abriu a porteira, atravessou-a e foi embora atr\u00e1s daquilo que existia do outro lado.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O segundo menino parece ter escapado de uma can\u00e7\u00e3o de Ataulfo Alves. Tamb\u00e9m olhou para o Natal com os olhos enormes de quem ainda acredita que Papai Noel consegue carregar sonhos dentro de um saco vermelho. E, se pudesse fazer seu pedido, talvez n\u00e3o quisesse brinquedo caro, apenas um pandeiro e uma cu\u00edca, porque havia m\u00fasica dentro dele.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Curiosamente, os dois meninos s\u00e3o um s\u00f3. Diria at\u00e9 que s\u00e3o clones perfeitos um do outro. E podemos dar a ambos o mesmo nome de Breno Duarte, justamente o menino que nasceu em Abaet\u00e9, n\u00e3o a escura lagoa cantada pela Bahia de Dorival Caymmi, mas a pequena cidade mineira, dessas onde as ruas parecem guardar os passos das crian\u00e7as e onde quase todo mundo sabe de quem \u00e9 o filho que passa correndo pela pra\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi ali que, aos 10 anos, ele come\u00e7ou a crescer junto com a m\u00fasica. Talvez n\u00e3o soubesse ainda, mas cada nota aprendida era tamb\u00e9m uma li\u00e7\u00e3o para a vida. A m\u00fasica ensina disciplina, que existe hora de entrar, hora de silenciar e, sobretudo, hora de ouvir. E quem aprende a ouvir um instrumento acaba, muitas vezes, aprendendo tamb\u00e9m a ouvir gente.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Breno cresceu assim e a porteira ficou para tr\u00e1s, co destino a\u00a0Belo Horizonte, os livros, as madrugadas de estudo, as d\u00favidas que acompanham qualquer jovem que deixa a seguran\u00e7a do lugar onde nasceu para enfrentar um mundo muito maior.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Aos 23 anos, estava formado e p\u00f3s-graduado em Direito. Poderia mesmo ter considerado aquilo uma chegada, mas preferiu entender como come\u00e7o. Foi ent\u00e3o que voltou para Abaet\u00e9, onde, contudo, n\u00e3o regressou derrotado, mas carregando diplomas e um novo sonho debaixo do bra\u00e7o. Sentou-se outra vez diante dos livros e decidiu estudar para concurso p\u00fablico. enfrentando uma das mais solit\u00e1rias maratonas da vida adulta.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Passou em um, depois em outro e por fim a terceira aprova\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem chame isso de sorte, mas quem conhece o caminho percorrido sabe que sorte costuma ser apenas o nome elegante que algumas pessoas d\u00e3o ao suor alheio.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Breno acabou chegando a Bras\u00edlia, onde se tornou policial civil. E aqui a hist\u00f3ria poderia terminar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O menino pobre venceu. Estudou. Formou-se. Passou em concursos. Tornou-se servidor p\u00fablico. Construiu sua vida. Final feliz, eu diria, ap\u00f3s conhecer sua hist\u00f3ria, mas seria pouco. Porque a parte mais bonita come\u00e7a justamente depois da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Breno decidiu voltar a conversar com aquele garoto de 10 anos. N\u00e3o atrav\u00e9s de fotografias antigas nem pela melancolia dos adultos que suspiram dizendo que eram felizes e n\u00e3o sabiam. Ele encontrou outra maneira de regressar ao passado, ao olhar para as crian\u00e7as de hoje.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 quando incentiva um menino a estudar, que Breno conversa com o Breno que um dia foi. Quando diz a uma crian\u00e7a que ela pode prosperar, est\u00e1 talvez repetindo aquilo que gostaria de ter ouvido muitas vezes. E quando mostra que origem humilde n\u00e3o precisa ser senten\u00e7a, abre uma porteira.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E talvez esteja a\u00ed a grandeza de sua caminhada. Subir na vida \u00e9 importante. Mais bonito, por\u00e9m, \u00e9 subir e estender a m\u00e3o para quem ainda est\u00e1 l\u00e1 embaixo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Criado em uma fam\u00edlia conservadora, cercado por princ\u00edpios e valores crist\u00e3os-kardecistas, Breno carregou nos ombros, n amente e no cora\u00e7\u00e3o uma compreens\u00e3o simples, mas cada vez mais rara. Justamente porque n\u00e3o basta tornar-se algu\u00e9m na vida; \u00e9 preciso tornar-se algu\u00e9m para a vida dos outros.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">N\u00e3o se trata apenas de caridade, mas fraternidade. \u00c9 compreender que diplomas, cargos, sal\u00e1rios e conquistas s\u00e3o passageiros se n\u00e3o produzirem alguma coisa al\u00e9m de conforto pessoal.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso, talvez o policial seja apenas uma das muitas fardas invis\u00edveis que Breno veste. Nele existe o m\u00fasico, o bacharel em Direito, o concurseiro que conheceu a solid\u00e3o dos livros, o menino de Abaet\u00e9 e h\u00e1, sobretudo, o homem que descobriu que prosperar n\u00e3o significa simplesmente chegar mais alto. Significa ter condi\u00e7\u00f5es de olhar para baixo sem arrog\u00e2ncia, para os lados sem inveja e para cima sem esquecer de agradecer.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">No fundo, continuo vendo em Breno aqueles dois meninos. Um deles est\u00e1 diante de uma porteira. O outro segura imaginariamente um pandeiro e uma cu\u00edca. Um quer conhecer a estrada, enquanto o outro quer descobrir a m\u00fasica.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Os dois crescem e estudam, mesmo que eventualmente caiam algumas vezes. Mas, resilientes, se poem de p\u00e9. At\u00e9 que, muitos anos depois, se encontram em Bras\u00edlia. Olham um para o outro e percebem que jamais foram dois. Eram apenas as duas metades de uma mesma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A hist\u00f3ria de Breno Duarte, o menino n\u00e3o ficou esperando o boiadeiro e abriu a porteira. O menino do pandeiro n\u00e3o esperou Papai Noel, e foi buscar sozinho o seu presente.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E hoje, quando Breno se aproxima de uma crian\u00e7a e diz \u201cestude, acredite, voc\u00ea pode chegar l\u00e1\u201d, talvez nem perceba o tamanho do que est\u00e1 fazendo. No fundo, ele est\u00e1 abrindo outra porteira para que o outro menino atravesse. E esse novo menino, quem sabe, muitos anos depois, volte para abri-la para algu\u00e9m tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem sobreviveu 35 anos desde que entrou na casa das &#8216;enta&#8217;, sabe muito bem as maneiras diferentes de como meninos passam pela inf\u00e2ncia, como muitos deles vivem carregando a adolesc\u00eancia pela vida inteira. Breno Duarte pertence \u00e0 essa categoria, mesmo que s\u00f3 agora esteja entrando nos quarenta. 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