{"id":4286,"date":"2026-09-17T13:34:57","date_gmt":"2026-09-17T16:34:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4286"},"modified":"2026-09-17T13:41:37","modified_gmt":"2026-09-17T16:41:37","slug":"lula-confunde-sertao-com-cerrado-e-pode-ser-engolido-como-cabrito-por-uma-leoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/eleicoes-2026\/lula-confunde-sertao-com-cerrado-e-pode-ser-engolido-como-cabrito-por-uma-leoa\/","title":{"rendered":"Lula confunde Sert\u00e3o com Cerrado e pode ser engolido como cabrito por uma Leoa"},"content":{"rendered":"<p>Lula conhece o palanque como pouca gente na pol\u00edtica brasileira e conhece, sobretudo, o valor de escolher um advers\u00e1rio. Em 2010, no auge de sua popularidade, n\u00e3o escondia o desejo de reduzir o espa\u00e7o daqueles que haviam passado anos fazendo oposi\u00e7\u00e3o ao seu governo e chegou a dizer que era preciso \u201cextirpar o DEM da pol\u00edtica brasileira\u201d. Naquela elei\u00e7\u00e3o, nomes importantes da oposi\u00e7\u00e3o acabaram derrotados, entre eles Her\u00e1clito Fortes, no Piau\u00ed, e Marco Maciel, em Pernambuco. O DEM j\u00e1 nem existe com aquele nome, a pol\u00edtica brasileira mudou bastante desde ent\u00e3o, mas alguma coisa daquele Lula reapareceu na noite de quarta-feira, 16, em Ceil\u00e2ndia.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas o presidente que desembarcou para pedir votos a Leandro Grass. Apareceu tamb\u00e9m o velho Lula de campanha, aquele que escolhe o terreno, identifica a fragilidade do advers\u00e1rio e n\u00e3o costuma economizar quando decide entrar numa briga. Desta vez encontrou o BRB, provavelmente a ferida mais exposta do grupo pol\u00edtico de Celina Le\u00e3o, e foi diretamente nela ao chamar a governadora de c\u00ednica e mentirosa, responsabilizar Ibaneis Rocha pela crise do banco, associar o ex-governador a Daniel Vorcaro e avan\u00e7ar para refer\u00eancias a pris\u00e3o e dinheiro roubado. Tudo isso dito num palanque, no calor de uma elei\u00e7\u00e3o, embora Ibaneis n\u00e3o responda a a\u00e7\u00e3o relacionada ao caso BRB-Master.<\/p>\n<p>Nem precisava ir t\u00e3o longe. O esc\u00e2ndalo do BRB j\u00e1 oferece material suficiente para qualquer oposi\u00e7\u00e3o trabalhar durante uma campanha inteira sem antecipar condena\u00e7\u00f5es. H\u00e1 opera\u00e7\u00f5es bilion\u00e1rias sob investiga\u00e7\u00e3o, funcion\u00e1rios afastados, relat\u00f3rio do Banco Central indicando perdas potenciais que podem chegar a R$ 11,4 bilh\u00f5es, balan\u00e7os ainda n\u00e3o publicados e uma opera\u00e7\u00e3o de at\u00e9 R$ 6,6 bilh\u00f5es sendo buscada para refor\u00e7ar o banco. Sobram perguntas, faltam respostas e, no meio disso, surgiram ainda mensagens atribu\u00eddas a Vorcaro que colocaram sob discuss\u00e3o a vers\u00e3o de Celina de que teria permanecido fora das negocia\u00e7\u00f5es envolvendo a tentativa de aquisi\u00e7\u00e3o do Master.<\/p>\n<p>Lula encontrou, portanto, terreno f\u00e9rtil. Celina lidera a disputa pelo Buriti, Grass precisa ampliar seu espa\u00e7o e o BRB \u00e9 justamente o ponto em que a candidata governista encontra maior dificuldade para separar a continuidade administrativa que reivindica da heran\u00e7a pol\u00edtica que preferiria n\u00e3o carregar por inteiro. N\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio nisso: qualquer campanha de oposi\u00e7\u00e3o tentaria explorar a mesma vulnerabilidade e seria estranho se Lula fosse a Ceil\u00e2ndia pedir votos para Grass e fingisse que o maior problema do governo local n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o come\u00e7a a ficar mais interessante quando Lula deixa de falar apenas como cabo eleitoral e entra, mesmo que por alguns minutos, no terreno reservado ao presidente da Rep\u00fablica. Ao afirmar que o governo federal n\u00e3o dar\u00e1 dinheiro ao BRB, ele ofereceu a Celina uma sa\u00edda que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o estava t\u00e3o dispon\u00edvel. A governadora p\u00f4de deixar momentaneamente a posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel de quem precisa explicar a crise e assumir a defesa de uma institui\u00e7\u00e3o do Distrito Federal diante do que apresentou como uma amea\u00e7a do governo da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma rea\u00e7\u00e3o politicamente conveniente, claro, e n\u00e3o apaga uma \u00fanica pergunta sobre o Master, mas toca num ponto que merece ser separado da espuma eleitoral. O BRB n\u00e3o pertence a Celina, n\u00e3o pertence a Ibaneis e muito menos a Leandro Grass. \u00c9 patrim\u00f4nio do Distrito Federal, e qualquer agravamento de sua situa\u00e7\u00e3o ultrapassa o destino dos personagens que hoje disputam a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que a Uni\u00e3o tenha obriga\u00e7\u00e3o de aparecer com um cheque nem que deva avalizar qualquer engenharia imaginada pelo governo local para capitalizar o banco. Dinheiro p\u00fablico n\u00e3o pode ser movimentado por camaradagem federativa, muito menos para poupar um governo do custo de decis\u00f5es tomadas sob sua responsabilidade. Se houver participa\u00e7\u00e3o federal numa solu\u00e7\u00e3o, ela precisa passar por n\u00fameros, garantias, condi\u00e7\u00f5es e pela seguran\u00e7a de que preservar o BRB n\u00e3o significar\u00e1 simplesmente distribuir o preju\u00edzo entre contribuintes que n\u00e3o participaram das decis\u00f5es que o produziram.<\/p>\n<p>Mas existe uma diferen\u00e7a entre exigir tudo isso e incorporar a sobreviv\u00eancia do banco \u00e0 guerra contra quem hoje ocupa o Buriti. Foi nesse ponto que o palanque de Ceil\u00e2ndia deixou uma pergunta que talvez acompanhe a campanha daqui para a frente: at\u00e9 onde Lula estava falando como l\u00edder pol\u00edtico interessado em ajudar Grass a derrotar Celina e em que momento come\u00e7ou a falar como presidente da Rep\u00fablica sobre uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica que continuar\u00e1 existindo depois que a elei\u00e7\u00e3o terminar?<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a daquele Lula de 2010 ajuda a entender por que a pergunta n\u00e3o \u00e9 gratuita. Ele nunca foi um pol\u00edtico contemplativo diante dos advers\u00e1rios e, quando identifica quem considera inimigo pol\u00edtico e disp\u00f5e de for\u00e7a para enfrent\u00e1-lo, costuma ocupar o terreno inteiro. Fez isso em outras campanhas, \u00e0s vezes com enorme efici\u00eancia, e mostrou em Ceil\u00e2ndia que a disposi\u00e7\u00e3o para o confronto continua intacta. O modo guerra reapareceu, talvez porque a pr\u00f3pria elei\u00e7\u00e3o esteja come\u00e7ando a pedir isso dele.<\/p>\n<p>S\u00f3 que desta vez existe um detalhe que n\u00e3o cabe muito bem na velha l\u00f3gica de eliminar advers\u00e1rios do caminho. Celina pode ser derrotada, Ibaneis pode ser responsabilizado politicamente pelo eleitor e Grass pode tentar transformar o BRB no assunto capaz de mexer numa disputa que at\u00e9 aqui lhe tem sido dif\u00edcil. Tudo isso pertence \u00e0 elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O BRB, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as urnas forem guardadas, algu\u00e9m ainda ter\u00e1 de apresentar os balan\u00e7os, explicar as opera\u00e7\u00f5es, recuperar o que puder ser recuperado, identificar responsabilidades e descobrir quanto dessa conta terminar\u00e1 efetivamente nas costas do Distrito Federal. A guerra pol\u00edtica ter\u00e1 seus vencedores e derrotados, como sempre acontece, mas o banco continuar\u00e1 no mesmo lugar. E talvez seja justamente por isso que, quando um presidente decide voltar ao modo guerra, conv\u00e9m escolher com algum cuidado quem \u00e9 o advers\u00e1rio e quem apenas teve o azar de estar no meio do campo de batalha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula conhece o palanque como pouca gente na pol\u00edtica brasileira e conhece, sobretudo, o valor de escolher um advers\u00e1rio. 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