{"id":4571,"date":"2026-09-19T14:18:47","date_gmt":"2026-09-19T17:18:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4571"},"modified":"2026-09-19T14:21:53","modified_gmt":"2026-09-19T17:21:53","slug":"apostas-em-bets-avancam-entre-jovens-e-ampliam-dependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasil\/apostas-em-bets-avancam-entre-jovens-e-ampliam-dependencia\/","title":{"rendered":"Apostas em bets avan\u00e7am entre jovens e ampliam depend\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Cada vez mais jovens t\u00eam buscado ajuda para largar a depend\u00eancia de bets, avalia Luiz Carlos*, integrante de um grupo de apoio para pessoas com problemas de jogo, a irmandade Jogadores An\u00f4nimos. Segundo ele, j\u00e1 \u00e9 comum encontrar adolescentes na faixa de 14 anos procurando ajuda para conter o v\u00edcio.<\/p>\n<p>\u201cHoje quem chega \u00e0 irmandade \u00e9 muito jovem. J\u00e1 chegou at\u00e9 de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, at\u00e9 30, 35 anos&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p>O jovem Gustavo Pereira \u00e9 um dos que enfrentaram graves problemas financeiros e de sa\u00fade mental por conta da compuls\u00e3o por bets. Atualmente com 24 anos de idade, ele come\u00e7ou a fazer apostas online aos 18 anos. Em um per\u00edodo de seis anos, chegou a perder meio milh\u00e3o de reais por causa do v\u00edcio.<\/p>\n<p>\u201cGanhava muito bem na \u00e9poca, j\u00e1 fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, j\u00e1 fiz bancas inimagin\u00e1veis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Ent\u00e3o o dinheiro come\u00e7ou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimens\u00e3o do dinheiro, na minha conta n\u00e3o tinha todo aquele valor, mas l\u00e1 na bet tinha, e o v\u00edcio faz isso, te enche de gan\u00e2ncia&#8221;, diz o jovem.<\/p>\n<p>Gustavo conta que est\u00e1 h\u00e1 cerca de dois meses sem apostar e tenta recome\u00e7ar a vida vendendo caf\u00e9 nas ruas de Lages (SC). Ele mant\u00e9m um perfil no Instagram onde posta conte\u00fados sobre seu trabalho e sobre como faz para superar o v\u00edcio e evitar reca\u00eddas.<\/p>\n<p>&#8220;Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depress\u00e3o, uma s\u00edndrome do p\u00e2nico, e gra\u00e7as a Deus eu me libertei disso. Hoje vendo caf\u00e9 na rua e, se estou aqui, foi gra\u00e7as a Deus, \u00e0 minha f\u00e9, me apeguei nas pessoas que amo, consegui superar isso, e hoje meu prop\u00f3sito de vida \u00e9 ajudar pessoas\u201d, relata Gustavo.<\/p>\n<p>Especialistas afirmam que a facilidade de acesso \u00e0s plataformas de jogos pelo celular amplia a exposi\u00e7\u00e3o de jovens \u00e0s bets. Dados do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a inf\u00e2ncia (Unicef) mostram que uma em cada cinco pessoas no mundo come\u00e7a a apostar em jogos online at\u00e9 os 11 anos de idade. O n\u00famero chega a 78% a partir de 12 anos. Os dados, de 2021, continuam atuais.<\/p>\n<p>\u00c9 o que indica uma pesquisa deste ano feita no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educa\u00e7\u00e3o. Entre 1.912 estudantes dos ensinos m\u00e9dio e fundamental, 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Quase metade dos entrevistados no 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio fizeram apostas.<\/p>\n<p>Pesquisa do Instituto Brasileiro de Informa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia e Tecnologia (IBICT) mostrou que canais voltados ao p\u00fablico infantil exploram a falta de maturidade financeira de crian\u00e7as e adolescentes para promover apostas ilegais.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o jovem \u00e9 mais vulner\u00e1vel a apelos desse tipo porque o c\u00e9rebro dele ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. Enquanto o n\u00facleo ligado \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de prazer e \u00e0 dopamina funciona em ritmo acelerado, as regi\u00f5es que controlam os impulsos e avaliam riscos s\u00f3 terminam de amadurecer aos 20 e poucos anos.<\/p>\n<p>\u201cO adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda n\u00e3o disp\u00f5e do aparato para frear o impulso da aposta seguinte\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Cassino no bolso<\/strong><br \/>\nLuiz Carlos tem 71 anos e lembra que, quando come\u00e7ou a jogar, na d\u00e9cada de 1980, n\u00e3o existia celular. Na \u00e9poca, o v\u00edcio eram as m\u00e1quinas de videop\u00f4quer. \u201cSa\u00eda do jogo 4h, 5h da manh\u00e3, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava l\u00e1, jogando novamente.\u201d<\/p>\n<p>\u201dGra\u00e7as a Deus eu n\u00e3o jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha \u00e9poca, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje n\u00e3o precisa mais, voc\u00ea carrega um cassino dentro do seu bolso&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia de Luiz Carlos \u00e9 a mesma de quem aposta online, como Rog\u00e9rio* (53 anos), Rodrigo* (47) e Carla Xavier* (41), tamb\u00e9m frequentadores do Jogadores An\u00f4nimos.<\/p>\n<p>Luiz Carlos est\u00e1 h\u00e1 15 sem jogar. Carla e Rog\u00e9rio est\u00e3o h\u00e1 mais de um ano longe do v\u00edcio, enquanto Rodrigo est\u00e1 h\u00e1 seis meses sem apostar. A abstin\u00eancia foi conquistada gra\u00e7as \u00e0 irmandade Jogadores An\u00f4nimos.<\/p>\n<p>Segundo Carla, o grupo tem recebido principalmente pessoas que j\u00e1 perderam tudo por causa de apostas. &#8220;[Elas] j\u00e1 n\u00e3o tem mais onde pedir ajuda. Ent\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o desacreditadas da vida, j\u00e1 est\u00e3o pensando em suic\u00eddio, est\u00e3o devendo para um monte de gente. Essas s\u00e3o as pessoas que procuram o grupo. E, com as apostas online, isso cresceu demais, porque est\u00e1 tudo na palma da m\u00e3o hoje.\u201d<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os relatos de quem passou pelo problema, como Rog\u00e9rio, que frequenta a irmandade Jogadores An\u00f4nimos. Ele diz que no come\u00e7o as apostas pareciam inofensivas. Percep\u00e7\u00e3o que mudou quando elas come\u00e7aram a controlar a vida dele de forma negativa.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7aram a comprometer o meu or\u00e7amento, dificultar o pagamento das minhas contas, comecei a comprometer a minha renda.\u201d<\/p>\n<p>Segundo o diretor do IBICT, Tiago Braga, as apostas online n\u00e3o s\u00e3o um investimento, mas um gasto. O descontrole aumenta o risco.<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais voc\u00ea aposta ou quanto mais voc\u00ea gasta recursos com a aposta, menos voc\u00ea ter\u00e1 recursos para o seu futuro. E isso a gente est\u00e1 falando de quest\u00f5es do cotidiano como aluguel, comida, vestu\u00e1rio, educa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Ele aponta ainda o risco de \u201cde idea\u00e7\u00e3o suicida associada ao endividamento por jogo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Endividamento e ensino superior<\/strong><br \/>\nPesquisa da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma gradua\u00e7\u00e3o em 2026.<\/p>\n<p>Entre aqueles que j\u00e1 est\u00e3o no ensino superior, 14% relataram ter atrasado as mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets.<\/p>\n<p>Para o diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados s\u00e3o um alerta importante, mas n\u00e3o se pode generalizar o comportamento dos jovens. O que \u00e9 poss\u00edvel afirmar, segundo ele, \u00e9 que, para uma parcela relevante deles, o dinheiro destinado \u00e0s apostas interfere diretamente em decis\u00f5es relacionadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, o que cria uma barreira adicional ao acesso e \u00e0 perman\u00eancia no ensino superior.<\/p>\n<p>A pesquisa mostra ainda que 34% afirmaram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado por causa dos gastos com apostas. Outro dado: 33% deixaram de investir em academia ou atividades f\u00edsicas.<\/p>\n<p>Segundo Paulo Chanan, as institui\u00e7\u00f5es de ensino podem contribuir com informa\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o, acolhimento e encaminhamento adequado quando necess\u00e1rio, j\u00e1 que o tema passou a fazer parte de uma realidade social que tamb\u00e9m chega ao ambiente acad\u00eamico.<\/p>\n<p>O diretor-geral frisa que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser responsabilizadas sozinhas pelo enfrentamento do problema. Para ele, deve haver uma atua\u00e7\u00e3o conjunta que envolva educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, comportamento, regula\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O estudo da ABMES n\u00e3o avaliou indicadores de desempenho acad\u00eamico nem de sa\u00fade mental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada vez mais jovens t\u00eam buscado ajuda para largar a depend\u00eancia de bets, avalia Luiz Carlos*, integrante de um grupo de apoio para pessoas com problemas de jogo, a irmandade Jogadores An\u00f4nimos. 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