{"id":4642,"date":"2026-09-20T04:50:50","date_gmt":"2026-09-20T07:50:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4642"},"modified":"2026-09-20T04:50:29","modified_gmt":"2026-09-20T07:50:29","slug":"iliada-de-aniversariantes-prova-que-a-noite-e-mesmo-uma-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/iliada-de-aniversariantes-prova-que-a-noite-e-mesmo-uma-crianca\/","title":{"rendered":"Il\u00edada de aniversariantes prova que a noite \u00e9 mesmo uma crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>A vida, definitivamente, \u00e9 feita de aprendizado, como noites que come\u00e7am no rel\u00f3gio e outras que afloram na alma. O s\u00e1bado, 19, registrou as duas formas. Por volta das nove, quando Bras\u00edlia j\u00e1 havia recolhido o Sol atr\u00e1s dos pr\u00e9dios e \u00c1guas Claras acendia suas janelas como estrelas particulares, veio o primeiro parab\u00e9ns. Era para Dilma.<\/p>\n<p>Mas o tempo, esse velho malandro que nunca pede licen\u00e7a para passar, ainda guardava uma surpresa. Bastaria esperar que os ponteiros cumprissem sua caminhada silenciosa at\u00e9 a meia-noite. Quando o s\u00e1bado entregou as armas e o domingo, 20, respirou seu primeiro segundo, houve novo parab\u00e9ns. Agora era Mari.<\/p>\n<p>Duas mulheres, duas hist\u00f3rias, dois anivers\u00e1rios separados apenas por algumas horas e unidos pela mesma noite. Se Homero tivesse aparecido por essas bandas, por certo teria guardado a Guerra de Troia para outra ocasi\u00e3o, porque havia uma epopeia muito mais pac\u00edfica acontecendo em \u00c1guas Claras.<\/p>\n<p>N\u00e3o existiam Aquiles nem Heitor. O cen\u00e1rio era de Leandro empunhando a voz, e Djalma, o viol\u00e3o. E isso bastava para provar que existem batalhas que se vencem cantando. Primeiro, o bar. Depois, a Pra\u00e7a Jandaia. E assim a pequena confraria atravessou a madrugada carregando alegria de um lugar para outro, como antigos viajantes levando fogo para que a chama n\u00e3o se apagasse.<\/p>\n<p>Se havia parentes, mesmo que de passagem para um beijo, um abra\u00e7o, por certo sim. Mas n\u00e3o apareceriam na foto, porque chega determinado momento da vida em que descobrimos que parentesco n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que o sangue escreve. H\u00e1 irm\u00e3os escolhidos pelo acaso, pela mesa de bar, pela conversa comprida, pelo copo compartilhado, pela m\u00fasica que algu\u00e9m come\u00e7a e todos terminam.<\/p>\n<p>\u00c9 uma fam\u00edlia sem invent\u00e1rio, certid\u00e3o ou obriga\u00e7\u00e3o, onde a \u00fanica escritura \u00e9 o afeto. Dilma e Mari estavam radiantes, protagonizando os pap\u00e9is de duas Helenas de uma Troia sem guerra, embora ningu\u00e9m pretendesse sequestr\u00e1-las. Muito pelo contr\u00e1rio, porque todos queriam mant\u00ea-las ali, cercadas pela m\u00fasica e pela amizade, protegidas do avan\u00e7o impiedoso das horas.<\/p>\n<p>Mas Cronos n\u00e3o perdoa nem aniversariante. Uma da manh\u00e3, duas, tr\u00eas. E somente por volta das tr\u00eas e meia, o pequeno ex\u00e9rcito come\u00e7ou a dispersar. Um abra\u00e7o aqui, outro acol\u00e1, e mesmo um \u201cat\u00e9 amanh\u00e3\u201d que, tecnicamente, j\u00e1 deveria ser \u201cat\u00e9 mais tarde\u201d.<\/p>\n<p>Alguns partiram com destino a seus apartamentos, camas, travesseiros e o merecido sil\u00eancio depois de uma noite inteira de celebra\u00e7\u00e3o. Mas houve resistentes, pois esses sempre existir\u00e3o. \u00c9 gente que considera a madrugada um territ\u00f3rio sagrado e acha quase uma heresia abandon\u00e1-la antes que o Sol apare\u00e7a.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lan\u00e7ou a sugest\u00e3o de ficar at\u00e9 o amanhecer. A Lua ouviu, testemunhou, e l\u00e1 do alto, sorriu daquele bando de homens e mulheres maduros brincando com as horas como adolescentes que ainda acreditam ser poss\u00edvel negociar com o tempo.<\/p>\n<p>Talvez seja isso mesmo, a ponto de, nesta madrugada, ter nascido a decis\u00e3o de que, a partir de agora, os aniversariantes de cada m\u00eas ter\u00e3o sua noite especial, mesmo que sem sal\u00e3o de festas, lustres de cristal ou convites impressos em papel caro.<\/p>\n<p>Bastar\u00e3o os amigos, uma pra\u00e7a, um viol\u00e3o, uma voz, algumas hist\u00f3rias e principalmente a Lua, que ficar\u00e1 respons\u00e1vel por iluminar cada nova celebra\u00e7\u00e3o, como testemunha silenciosa dessa confraria que descobriu como comemorar a passagem dos anos sem medo da soma.<\/p>\n<p>Em momentos assim, v\u00ea-se que envelhecer significa apenas acumular anivers\u00e1rios suficientes para compreender que a juventude nunca morou exatamente no corpo. Ela mora na vontade de ficar, na disposi\u00e7\u00e3o para cantar mais uma m\u00fasica, no desejo de pedir outra rodada e na coragem de atravessar as tr\u00eas da manh\u00e3 e ainda discutir se vale a pena esperar pelo Sol.<\/p>\n<p>Dilma ganhou seus parab\u00e9ns e Mari os dela. Leandro deixou a voz pela madrugada, enquanto Djalma fez seis cordas parecerem uma orquestra. Depois do bar, a Pra\u00e7a Jandaia ganhou personagens, e \u00c1guas Claras foi presenteada com uma pequena Il\u00edada sem cavalos de madeira, espadas ou mortos; apenas sobreviventes do tempo reunidos sob o luar.<\/p>\n<p>E quando os \u00faltimos acordes se perderam entre os edif\u00edcios e a madrugada come\u00e7ou lentamente a clarear, ficou a certeza que podem passar os s\u00e1bados, os domingos, os anivers\u00e1rios e os anos que embranquecem os cabelos e fazem surgir rugas, como pode, tamb\u00e9m, acontecer de os ponteiros correrem cada vez mais depressa. Contudo, nada disso cabe neste espa\u00e7o, porque enquanto houver amigos dispostos a cantar sob a Lua e esperar juntos pelo nascimento do Sol, haver\u00e1 juventude. E descobre-se, enfim, que o tempo envelhece a carne, mas a noite continua sendo uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida, definitivamente, \u00e9 feita de aprendizado, como noites que come\u00e7am no rel\u00f3gio e outras que afloram na alma. O s\u00e1bado, 19, registrou as duas formas. Por volta das nove, quando Bras\u00edlia j\u00e1 havia recolhido o Sol atr\u00e1s dos pr\u00e9dios e \u00c1guas Claras acendia suas janelas como estrelas particulares, veio o primeiro parab\u00e9ns. 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