{"id":4986,"date":"2026-09-23T02:00:31","date_gmt":"2026-09-23T05:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=4986"},"modified":"2026-09-22T22:38:07","modified_gmt":"2026-09-23T01:38:07","slug":"a-redencao-dos-cafonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasilia\/a-redencao-dos-cafonas\/","title":{"rendered":"A reden\u00e7\u00e3o dos cafonas"},"content":{"rendered":"<p>Euclides sempre me pareceu um tipo incomum. Andava com um caderninho e uma caneta no bolso da camisa. Vez ou outra, eu o peguei escrevendo algo. Nesses momentos, ele parecia compenetrado e, logo ap\u00f3s, devolvia os objetos ao bolso, cofiava o fino bigode e lan\u00e7ava um breve e quase impercept\u00edvel sorriso em dire\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios sapatos, sempre impecavelmente engraxados.<\/p>\n<p>Certa feita, a rua inteira resolveu fazer uma grande fogueira de S\u00e3o Jo\u00e3o. Cada um contribuiu com o que p\u00f4de. Euclides apareceu com dois bolos de milho e uma garrafa de quent\u00e3o. Colocou as iguarias sobre a vasta mesa e foi se sentar junto \u00e0 velha guarda. Ficou por ali at\u00e9 que dona Lourdes, com aquele jeitinho de convencer a todos n\u00f3s, puxou o sujeito para um arrasta-p\u00e9.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava aquele casal improv\u00e1vel bailando ao som de Luiz Gonzaga. Pasmei. Pasmei aos quinze anos. N\u00e3o imaginava que gente daquela idade pudesse ter aquela desenvoltura. Que o <em>rock and roll<\/em> ainda me parecia o \u00fanico caminho para confrontar o mundo. Que mundo? Forr\u00f3? Bai\u00e3o? Que coisa mais cafona! Cafona era eu, no auge da arrog\u00e2ncia adolescente.<\/p>\n<p>Outro choque foi ouvir aplausos e elogios ao velho Euclides e \u00e0 gorducha da dona Lourdes. Na minha cabecinha, aquela gente nem deveria sair de casa, ainda mais tomar conta de todos os olhares. Uma afronta aos donos da rua, a minha galera da pesada. Vest\u00edamos cal\u00e7as Lee, jaquetas ornadas com broches que deveriam chocar. Que nada! Ultrapassados \u00e9ramos n\u00f3s, coisa da juventude que copia seus \u00eddolos e fecha os olhos para o que acontece ao redor.<\/p>\n<p>Passei o resto do ano encucado com o Euclides at\u00e9 que, do nada, eu me peguei batucando Martinho da Vila. Tentei conter meus impulsos, escondi essa descoberta da minha turma. N\u00e3o deu outra, todos j\u00e1 est\u00e1vamos contaminados. Criamos at\u00e9 um grupo musical. O nome? Os Euclides.<\/p>\n<p>Nosso sucesso nunca foi al\u00e9m da nossa rua. Todos j\u00e1 estamos calejados pelo andar da carruagem implac\u00e1vel do tempo. H\u00e1 tempos o Euclides n\u00e3o est\u00e1 entre n\u00f3s. A dona Lourdes continua gordinha e adora dan\u00e7ar. J\u00e1 dan\u00e7ou com todos os m\u00fasicos do nosso grupo. E vida que segue. Qualquer dia desses vou perguntar para a dona Lourdes se ela sabe o que o Euclides anotava naquele caderninho.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Euclides sempre me pareceu um tipo incomum. Andava com um caderninho e uma caneta no bolso da camisa. Vez ou outra, eu o peguei escrevendo algo. 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