{"id":5084,"date":"2026-09-25T00:00:58","date_gmt":"2026-09-25T03:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5084"},"modified":"2026-09-24T05:18:07","modified_gmt":"2026-09-24T08:18:07","slug":"a-mulher-do-espelho-dagua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/a-mulher-do-espelho-dagua\/","title":{"rendered":"A Mulher do Espelho d&#8217;\u00c1gua"},"content":{"rendered":"<p>A fazenda ficava escondida entre morros, no interior de Minas Gerais. Tinha uma sede antiga de paredes grossas, um curral de madeira escura e, atr\u00e1s de tudo, um lago pequeno e fundo, cercado por \u00e1rvores que nunca pareciam crescer direito. A \u00e1gua era quieta demais. Nem vento, nem p\u00e1ssaro ousavam perturbar a superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Clara era a \u00fanica filha do coronel Augusto. Mo\u00e7a alta, de cabelos longos e pretos, voz baixa e um jeito de olhar que fazia as pessoas desviarem o rosto. O pai a tratava como propriedade: falava pouco, exigia muito e j\u00e1 havia combinado seu casamento com o filho de outro fazendeiro da regi\u00e3o. O noivo se chamava Vicente. Era bonito, vaidoso e covarde.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do casamento, Vicente apareceu na fazenda b\u00eabado e disse, na frente de todos, que n\u00e3o queria mais a noiva. Que Clara tinha &#8220;olhos de gente triste&#8221; e que ele preferia uma mulher que risse. O coronel ficou vermelho de vergonha. Gritou com a filha, como se a culpa fosse dela. Clara n\u00e3o respondeu. Apenas saiu pela porta dos fundos e caminhou at\u00e9 o lago.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m a viu entrar na \u00e1gua.<\/p>\n<p>No dia seguinte, encontraram o vestido branco boiando perto da margem. O corpo nunca apareceu. O coronel proibiu que se falasse o nome da filha. Mandou tapar o caminho que levava ao lago e amea\u00e7ou a\u00e7oitar quem desobedecesse. Com o tempo, a fazenda foi ficando vazia. Os pe\u00f5es pediam as contas. As mulheres da casa cochichavam e faziam o sinal da cruz. O coronel envelheceu r\u00e1pido, sozinho, bebendo cacha\u00e7a na varanda at\u00e9 cair no sono.<\/p>\n<p>Anos se passaram.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que os primeiros relatos come\u00e7aram.<\/p>\n<p>Um vaqueiro chamado Tadeu jurou ter visto, certa noite, uma mulher parada na beira do lago. Cabelos longos, vestido claro, penteando os fios com os dedos como se estivesse diante de um espelho. Quando ele se aproximou, ela ergueu o rosto. Tadeu disse que os olhos dela n\u00e3o tinham cor. Eram s\u00f3 reflexo da \u00e1gua. Ele correu. Na manh\u00e3 seguinte, encontrou pegadas molhadas subindo o barranco at\u00e9 a sede.<\/p>\n<p>Outro pe\u00e3o, mais novo, chamado L\u00facio, escutou uma voz cantarolando. Era uma can\u00e7\u00e3o antiga, sem letra clara, s\u00f3 melodia. Ele respondeu, achando que era brincadeira de algu\u00e9m. A voz parou. Depois voltou, mais perto:<br \/>\nVem&#8230;<\/p>\n<p>L\u00facio deu um passo. A \u00e1gua se moveu sozinha. Ele s\u00f3 n\u00e3o entrou no lago porque o cavalo empacou e relinchou de medo.<br \/>\nO coronel, j\u00e1 velho e doente, mandou chamar um padre. O padre aben\u00e7oou a casa, jogou \u00e1gua benta no terreiro e se recusou a chegar perto do lago. Disse apenas:<\/p>\n<p>Tem coisa aqui que n\u00e3o quer descanso.<\/p>\n<p>Na \u00faltima noite de vida do coronel Augusto, a casa inteira escutou o canto. Era mais alto. Mais claro. Vinha do lago e entrava pelas frestas das janelas. O velho se levantou da cama, cambaleando, e foi at\u00e9 a porta dos fundos. Ningu\u00e9m teve coragem de segur\u00e1-lo. Ele caminhou at\u00e9 a beira da \u00e1gua, descal\u00e7o, e parou.<\/p>\n<p>Alguns dizem que ele falou o nome da filha.<\/p>\n<p>Outros juram que apenas estendeu a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3, encontraram o corpo do coronel flutuando no meio do lago, de bru\u00e7os, como se tivesse sido puxado. O vestido branco de Clara nunca mais foi visto boiando. Mas a mulher continua aparecendo.<\/p>\n<p>Os mais antigos da regi\u00e3o ensinam:<\/p>\n<p>Nunca olhe diretamente para o reflexo da \u00e1gua depois que o sol se p\u00f5e.<\/p>\n<p>Nunca responda se escutar algu\u00e9m cantar.<\/p>\n<p>E, se por acaso uma mulher de cabelos longos estender a m\u00e3o para voc\u00ea&#8230; n\u00e3o aceite.<\/p>\n<p>Porque o espelho d&#8217;\u00e1gua n\u00e3o devolve o que engole.<\/p>\n<p>Apenas espera o pr\u00f3ximo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fazenda ficava escondida entre morros, no interior de Minas Gerais. Tinha uma sede antiga de paredes grossas, um curral de madeira escura e, atr\u00e1s de tudo, um lago pequeno e fundo, cercado por \u00e1rvores que nunca pareciam crescer direito. A \u00e1gua era quieta demais. Nem vento, nem p\u00e1ssaro ousavam perturbar a superf\u00edcie. 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