{"id":5088,"date":"2026-09-25T00:15:18","date_gmt":"2026-09-25T03:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5088"},"modified":"2026-09-24T05:23:17","modified_gmt":"2026-09-24T08:23:17","slug":"dona-iaia-do-bexiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/dona-iaia-do-bexiga\/","title":{"rendered":"Dona Iai\u00e1 do Bexiga"},"content":{"rendered":"<p class=\"v1MsoNormal\">Morei muitas vezes na cidade de S\u00e3o Paulo. Tempos alternados.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Fui parar por l\u00e1 no meio dos anos 70. Fiz cursinho para o Vestibular e depois cursei jornalismo na C\u00e1sper L\u00edbero. S\u00e3o Paulo s\u00e3o muitas cidades e universos.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Adorava sair vagando pela cidade, assim, sem rumo certo. Pegava um \u00f4nibus sem saber para onde; descia ao metr\u00f4 e z\u00e1s&#8230; mais sem rumo ainda!<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Nas andan\u00e7as, fui garimpando hist\u00f3rias e causos contados pelos an\u00f4nimos que eu encontrava pelas ruas, pra\u00e7as, caf\u00e9s e bares. A lenda de Dona Iai\u00e1 do Bixiga \u00e9 uma delas. Prontos a\u00ed?<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Ent\u00e3o vamos l\u00e1:<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\"><i>&#8220;Ela aparece l\u00e1 na varanda do Casar\u00e3o todas as noites. Vestida de branco e acalentando um bebe no colo que n\u00e3o existe. Juro! Eu j\u00e1 vi ela, sim!&#8221;\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 (Matilde, moradora do bairro do Bexiga SP)<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">A primeira vez que passei em frente ao casar\u00e3o, na rua Major Diogo, o cora\u00e7\u00e3o do velho Bixiga \u2013 hoje Bela Vista -, o bairro italiano e bo\u00eamio da capital paulista, n\u00e3o dei muita bola. Casar\u00e3o antigo, preservado, onde, hoje, funciona um instituto cultural da USP.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Parei no botequim do portugu\u00eas, na esquina da rua com a pracinha central e algu\u00e9m me serviu uma cerveja. E logo me perguntou:<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 daqui, n\u00e9? Veio ver o casar\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Olhei meio sem saber o que dizer e respondi:<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">\u2014 Sim&#8230;N\u00e3o! N\u00e3o sou daqui, moro na Liberdade, o bairro japon\u00eas. Casar\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Em alguns minutos, Daniel, o gar\u00e7om, contou-me a hist\u00f3ria do Casar\u00e3o Mal Assombrado de Dona Iai\u00e1 do Bexiga. Bastou para que aquela descri\u00e7\u00e3o viraria uma fa\u00edsca a incendiar a minha imagina\u00e7\u00e3o do jovem rep\u00f3rter come\u00e7ando a cursar jornalismo na melhor faculdade de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a C\u00e1sper L\u00edbero, ali pertinho, na Avenida Paulista.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Iai\u00e1, filha de fazendeiros ricos paulistas, passou por trag\u00e9dias ainda menina. Perdeu tr\u00eas irm\u00e3os mortos por doen\u00e7as contagiosas. Os pais morreram logo depois. Ela, sozinha, herdou a fortuna e o casar\u00e3o. Com o tempo e a solid\u00e3o, Iai\u00e1 foi pirando e a Justi\u00e7a a rotulou como incapaz: loucura. Por 40 anos viveu trancada dentro do casar\u00e3o, cuidada por servi\u00e7ais impessoais. Morreu em 1961. Desde ent\u00e3o, o que era hist\u00f3ria familiar virou lenda urbana.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Os meus olhos de jovem rep\u00f3rter em forma\u00e7\u00e3o brilharam. &#8220;Ta\u00e1 a\u00ed&#8230; uma hist\u00f3ria que eu tenho que pesquisar e contar!&#8221;<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Voltei v\u00e1rias vezes ao Bexiga. Ouvi pessoas, depoimentos e causos, por\u00e9m tudo j\u00e1 dentro das narrativas de lendas urbanas. Aquelas que um conta para o outro e v\u00e3o se perpetuando como fatos, mas s\u00e3o lendas.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Tr\u00eas meses ap\u00f3s, escrevi um pequeno ensaio aprovado na cadeira de Grandes Reportagens, do inesquec\u00edvel professor Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro.\u00a0 Ficou um gosto de quero mais. Dona Iai\u00e1 foi v\u00edtima do preconceito da \u00e9poca \u2013 e ainda de agora \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a mental. Loucura! E ponto: confina. Presidi\u00e1ria \u00fanica em seu pr\u00f3prio casar\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Quaisquer dias desses, eu prometo, escreverei aqui a hist\u00f3ria completa.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Dona Iai\u00e1 jamais saiu de minha cabe\u00e7a. Personagem incr\u00edvel que, mesmo depois de morta, ainda embala no colo o bebe que nunca teve.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Voltei l\u00e1 ao Casar\u00e3o nas madrugadas do Bexiga, mas nunca vi a mulher de branco na varanda. Hoje, vivendo bem longe de Sampa, sinto vontade de retornar \u00e0 rua Major Diogo no Bexiga para observar.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\">Sei \u2013 sinto mesmo! \u2013 que ainda a verei embalando o bebe e ela me jogar\u00e1 um terno beijo.<\/p>\n<p class=\"v1MsoNormal\"><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Acredita nas lendas urbanas e em todas as narrativas. Vive na Guarda do Emba\u00fa, vilarejo de pescadores no Sul de SC.\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morei muitas vezes na cidade de S\u00e3o Paulo. Tempos alternados. Fui parar por l\u00e1 no meio dos anos 70. Fiz cursinho para o Vestibular e depois cursei jornalismo na C\u00e1sper L\u00edbero. S\u00e3o Paulo s\u00e3o muitas cidades e universos. Adorava sair vagando pela cidade, assim, sem rumo certo. 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