{"id":5092,"date":"2026-09-25T00:30:14","date_gmt":"2026-09-25T03:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5092"},"modified":"2026-09-24T05:32:10","modified_gmt":"2026-09-24T08:32:10","slug":"a-rebeliao-das-especies","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/a-rebeliao-das-especies\/","title":{"rendered":"A rebeli\u00e3o das esp\u00e9cies"},"content":{"rendered":"<p>O naturalista ingl\u00eas Charles Darwin publicou em 1859 seu livro A origem das esp\u00e9cies, obra fundamental para o entendimento da evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos. Quanto a mim, escrevi e postei esta f\u00e1bula despretensiosa sobre a rebeli\u00e3o das esp\u00e9cies, no caso a esp\u00e9cie felina e a minha, a esp\u00e9cie humana \u2013 que, unidas, jamais ser\u00e3o vencidas. Pelo menos no meu muquifo.<\/p>\n<p>Mencionei, no conto A pessoinha, que minha neta descolou um gato novo que recebeu dois nomes: Bruce Wayne, dado por ela, e Ponciano ou Ponci, nome gatal entusiasticamente aprovado por mim. Acrescentei que \u201co que o faz babar de prazer \u00e9 quando o cumprimento parafraseando as palavras que Z\u00e9 C\u00e2ndido (autor do romance O coronel e o lobisomem) colocou na boca do coronel Ponciano para dar bom dia a seu adorado galo de briga, o capit\u00e3o Vermelhinho P\u00e9 de P\u00ecl\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, seu Ponci (ou seu Ponciano). Como vai sua pessoinha?\u201d<\/p>\n<p>Pois bem, a pessoinha cresceu, est\u00e1 virando uma pessoona. Outro nome me parece hoje bem mais adequado: \u00c1tila, o flagelo dos gatos. E do escravo humano.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que Bruce\/Ponci\/\u00c1tila \u00e9 um gato cartesiano, sua m\u00e1xima, parafraseada do \u201cPenso, logo existo\u201d de Descartes, \u00e9 \u201cComo, logo existo\u201d. Enquanto os demais gatos da casa rodeiam o pote de ra\u00e7\u00e3o, imaginando ser uma presa abatida, a ser saboreada com vagar, Ponci vai direto \u00e0 vasilha e manda ver. As outras ferinhas, escandalizadas, davam-lhe patadas para ensinar boas maneiras, mas hoje n\u00e3o se atrevem.<\/p>\n<p>Outra m\u00e1xima cartesiana do monstrinho \u00e9 \u201cMe exercito, logo existo\u201d. Na hora de dormir, ele ficava me dando lambidinhas, eu n\u00e3o conseguia repousar. Ent\u00e3o lan\u00e7ava-o longe \u2013 e ele adorava, voltava para mais exerc\u00edcios de arremesso de gato. A f\u00f3rmula muita ra\u00e7\u00e3o + exerc\u00edcios noturnos o tornou bem forte, e ele passou a baixar a porrada na gataiada.<\/p>\n<p>Certo dia, Pantera, que havia se tornado uma das v\u00edtimas preferenciais de Ponci \u2013 ambos s\u00e3o negros, ela parece m\u00e3e dele, refer\u00eancias freudianas a \u00c9dipo talvez fossem esclarecedoras \u2013 procurou-me e desabafou:<\/p>\n<p>\u2014 Escravo, nenhum de n\u00f3s aguenta mais. Vamos acabar com ele!<\/p>\n<p>\u2014 Nada de matar \u2013 argumentei. \u2013 Mas uma boa surra com certeza ajudaria&#8230;<\/p>\n<p>Foi esse o primeiro lance da uni\u00e3o das esp\u00e9cies rebeladas contra \u00c1tila, o flagelo dos gatos e do escravo humano.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo movimento, recorrendo a minhas experi\u00eancias de luta contra a ditadura e milit\u00e2ncia em partidos clandestinos, atribu\u00ed nomes de guerra \u00e0 gataiada. Nomes que homenageavam luminares do movimento oper\u00e1rio. As ferinhas adoraram.<\/p>\n<p>\u2014 Agora sou Rosa Luxemburgo! \u2013 proclamava Pantera, toda pimpona.<\/p>\n<p>\u2014 E eu, Karl Marx! \u2013 declarava Prince, todo pimp\u00e3o.<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer que o objetivo do codinome, resguardar a identidade do(a) militante, foi solenemente ignorado.<\/p>\n<p>Como, entre os conspiradores, eu era o \u00fanico a ter polegares opositores, coube-me a parte decisiva do projeto. Na hora prevista, os gatos, como quem n\u00e3o quer nada, rodearam o flagelinho. Peguei um pano preto e o lancei sobre ele, segurando firme as pontas; imediatamente os oprimidos deram uma surra de criar bicho no opressor, temporariamente indefeso.<\/p>\n<p>Quando acabou, Bruce\/Ponci\/\u00c1tila passou um dia inteiro bufando de \u00f3dio, esgueirando-se junto \u00e0s paredes do apartamento. Mas parafraseou outra m\u00e1xima cartesiana, \u201cEles s\u00e3o muitos, logo desisto\u201d, e melhorou seu comportamento. No fundo, n\u00e3o era mau, apenas jovem, e a vida, um brinquedo pra ele. E era t\u00e3o divertido bater na gataiada&#8230;<\/p>\n<p>O comportamento dos conspiradores vitoriosos para comigo tamb\u00e9m mudou. De in\u00edcio, fui tratado, respeitosamente, de \u201ccompanheiro humano\u201d; mas o respeito subiu no telhado, chamaram-me, em r\u00e1pida sucess\u00e3o, de \u201ccompanheiro\u201d, \u201ccompanheiro escravo\u201d e, por fim, \u201cescravo\u201d, no tom autorit\u00e1rio de sempre. Nem mesmo \u201co de sempre, ao molho\u201d. Sem molho. Em sete dias, tudo havia voltado ao normal.<\/p>\n<p>Fazer o qu\u00ea? Revolu\u00e7\u00f5es podem ser tra\u00eddas, como ensinou Leon Trotsky. E velhos h\u00e1bitos custam a morrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O naturalista ingl\u00eas Charles Darwin publicou em 1859 seu livro A origem das esp\u00e9cies, obra fundamental para o entendimento da evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos. 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