{"id":5187,"date":"2026-09-26T00:45:53","date_gmt":"2026-09-26T03:45:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5187"},"modified":"2026-09-24T16:00:59","modified_gmt":"2026-09-24T19:00:59","slug":"bertoleza-ainda-lava-carros-e-os-tracos-escravistas-continuam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/bertoleza-ainda-lava-carros-e-os-tracos-escravistas-continuam\/","title":{"rendered":"Bertoleza ainda lava carros e os tra\u00e7os escravistas continuam"},"content":{"rendered":"<p>Estudar \u00e9 algo maravilhoso, abre mundos, nos d\u00e1 conhecimento, senso cr\u00edtico, certa liberdade, mas sair da caverna, olhar o mundo por seus pr\u00f3prios olhos e n\u00e3o mais por sombras refletidas nas paredes \u00e9 algo assustador e doloroso. Tentar alertar seus colegas de caverna de que imagens refletidas nas paredes s\u00e3o apenas uma face das outras verdades que existem l\u00e1 fora pode ser at\u00e9 mortal, segundo o mito de Plat\u00e3o.<\/p>\n<p>Recentemente comecei a ler mais sobre escravid\u00e3o e racismo. N\u00e3o s\u00e3o meus temas espec\u00edficos de pesquisa, mas s\u00e3o tem\u00e1ticas importantes na Hist\u00f3ria e, principalmente, na forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira. Somos o pa\u00eds que arrancou mais de 5 milh\u00f5es de africanos provenientes de v\u00e1rias etnias para um sistema racial de escraviza\u00e7\u00e3o, e fomos o \u00faltimo pa\u00eds das Am\u00e9ricas a abolir tal regime. Com a aboli\u00e7\u00e3o veio a liberdade, mas sem dignidade, sem direitos, sem meios para iniciar a corrida no capitalismo liberal. Criou-se um mito da \u201cdemocracia racial\u201d que persiste e que ignora o racismo estrutural que vigora em nosso meio.<\/p>\n<p>Tempos atr\u00e1s eu quis comemorar meu anivers\u00e1rio em um restaurante diferente. Algum a que eu nunca tivesse ido. Acabei escolhendo um de comida italiana que, de fora, parecia ser muito charmoso, mas na pr\u00e1tica tinha mobili\u00e1rio descuidado, pratos pequenos, sabores comuns e um pre\u00e7o digno de Europa que me fez ter arrependimento na hora de ter querido ir a um lugar diferente.<\/p>\n<p>Pode me chamar de pobre ou sem classe, n\u00e3o me importa o que sua ignor\u00e2ncia possa fazer voc\u00ea pensar, mas suburbana que sou, gosto mesmo \u00e9 de lugares que tenham boa comida, com por\u00e7\u00f5es fartas, um bom chope gelado, bom atendimento e pre\u00e7o justo pelo combo completo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o tal restaurante tinha um bom atendimento. O rapaz que nos atendeu era demasiadamente educado e atencioso. Posso dizer que achamos que o ponto alto do lugar foi ele e seu atendimento. O rapaz era um jovem negro com brilho nos olhos, como tantos jovens a quem dou aula e que, espero, tenham um mundo melhor. Ele avisou que a comida iria demorar um pouco, pois o lugar n\u00e3o tinha pratos pra duas pessoas (era estilo europeu, aff) e, para virem todos juntos, seria preciso um pouco mais de tempo.<\/p>\n<p>Enquanto as crian\u00e7as faziam uma s\u00e9rie de atos sem educa\u00e7\u00e3o pra um restaurante fino em plena Zona Norte do RJ que se achava em Paris, resolvi olhar \u00e0 minha volta e, com essa s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que vinha estudando naqueles dias em mente, percebi algo que me entristeceu na hora: todos os atendentes e cozinheiros do restaurante eram negros. E todos os clientes, com exce\u00e7\u00e3o de uma mulher de uns 35 anos, eram brancos. Ali tive uma experi\u00eancia sociol\u00f3gica e antropol\u00f3gica real, um estudo de campo em pleno dia do meu anivers\u00e1rio que me fez atravessar uma s\u00e9rie de questionamentos dirigidos principalmente \u00e0queles que insistem em dizer que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a social e racial no Brasil. Me senti em pleno s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Olha, voc\u00ea pode dizer que estou exagerando. Eu j\u00e1 n\u00e3o estava curtindo muito o restaurante, \u00e9 verdade, mas tive um choque, parecido com o que j\u00e1 sabia desde a inf\u00e2ncia, quando ia aos restaurantes e via que todos os gar\u00e7ons (inclusive meu pai) eram nordestinos e que sempre sofriam com regionalismos xenof\u00f3bicos. Agora, naquele momento, eu me ligava mais uma vez no racismo estrutural, al\u00e9m da j\u00e1 conhecida desigualdade social em que vivemos. Se ainda assim n\u00e3o te convenci, deixa eu te relatar outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aparentemente era uma fam\u00edlia que trabalhava unida, em um lava-jato improvisado na esquina da rua. At\u00e9 que um dia pude conhec\u00ea-los um pouco melhor e perceber qu\u00e3o complicadas s\u00e3o as tais rela\u00e7\u00f5es sociais existentes ainda hoje em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A m\u00e3e tinha cinco filhos. Dois de relacionamento anterior e tr\u00eas com o atual marido. Pele negra, mulher pobre, trabalhava incansavelmente na fun\u00e7\u00e3o de lavar ve\u00edculos: carros, vans e at\u00e9 micro-\u00f4nibus. Muitas vezes fazia isso sozinha, com o marido branco comandando os neg\u00f3cios e o trabalho. S\u00f3 comandando mesmo, porque foram raros os momentos em que o vi botando a m\u00e3o na massa.<\/p>\n<p>O filho mais velho do casal tamb\u00e9m trabalhava. Cursava o Ensino M\u00e9dio \u00e0 noite. Dizia que o sonho dele era ser policial para ter dinheiro. As outras duas filhas estudavam \u00e0 tarde. N\u00e3o costumavam lavar os carros. Mas, \u00e0s vezes, ficavam ali com a m\u00e3e. J\u00e1 tinham passado por situa\u00e7\u00f5es constrangedoras por causa do pai, que era conhecido no bairro por ser malandro, m\u00e3o leve na juventude, praticando furtos nas adjac\u00eancias. \u00c9 viciado e usa o dinheiro do trabalho familiar na compra de drogas, deixando tamb\u00e9m de comprar alimentos para dentro de casa.<\/p>\n<p>Ouvi da pr\u00f3pria esposa que ele tinha surtos por causa do v\u00edcio. A chave Pix do pai ficava dispon\u00edvel apenas no celular do filho mais velho, para que todo o dinheiro eletr\u00f4nico fosse pra conta do pai. Dinheiro nas m\u00e3os da fam\u00edlia s\u00f3 quando algu\u00e9m pagava em notas e sem a presen\u00e7a dele no local. Todos ficavam dependentes, presos.<\/p>\n<p>As meninas s\u00e3o t\u00e3o jovens. Bonitas. Mas, obviamente, com o psicol\u00f3gico bem abalado. Acham que s\u00e3o s\u00e3s, mas n\u00e3o externam t\u00e3o bem assim a sanidade. O pai j\u00e1 fez at\u00e9 esc\u00e2ndalo na porta da escola delas quando a m\u00e3e saiu de casa uma das vezes.<\/p>\n<p>A m\u00e3e disse ter sido \u201cporra-louca\u201d quando jovem. Subia morro, falava com chefes do tr\u00e1fico, curtia bailes de corredor e entrava no tapa quando preciso. Hoje, da igreja, n\u00e3o fazia mais essas coisas. Resistia instruindo os filhos no ambiente atormentado pelo v\u00edcio, pelo machismo e outros preconceitos do pai de seus filhos. Tem of\u00edcio, mas n\u00e3o pode trabalhar fora. O marido n\u00e3o deixa. Quando ela sai de casa, ele a amea\u00e7a psicologicamente, pro\u00edbe a sa\u00edda das filhas menores e ela acaba voltando. E acaba trabalhando pra ele novamente.<\/p>\n<p>Ver aquela cena quase que diariamente, com ela lavando os carros e ele comandando, ela negra e ele branco, me remete \u00e0 obra \u201cO corti\u00e7o\u201d. Bertoleza, a mulher escravizada que achava que o marido Jo\u00e3o Rom\u00e3o, dono da venda e do corti\u00e7o, tinha lhe comprado a alforria e descobre no fim que nunca havia deixado de ser escravizada.<\/p>\n<p>Os encontros entre mim e essa fam\u00edlia, que j\u00e1 eram poucos, deixaram de acontecer. N\u00e3o frequentamos mais o mesmo lugar, mas a \u00faltima hist\u00f3ria que eu soube foi que o filho mais velho, que um dia me disse que \u201cqueria ser caveira\u201d, est\u00e1 seguindo os passos do pai, praticando pequenos furtos e golpes pelas redondezas.<\/p>\n<p>A m\u00e3e e as filhas sa\u00edram de casa umas duas vezes depois disso e voltaram. H\u00e1 pouco tempo, percebi que desapareceram. Acredito que tenham conseguido, de alguma forma, se libertar dele, mas tor\u00e7o mesmo \u00e9 que tenham conseguido sobreviver \u00e0 luta contra toda a estrutura que nos envolve e que os prejudica de forma \u201cnoc\u00e1utica\u201d: o racismo pela cor da pele, o machismo e o tom de superioridade sobre a mulher, e a pobreza que poda direitos considerados humanos e universais.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><br \/>\n<strong>Rachel Gomes de Lima (@rachel.lima.prof), escritora, \u00e9 doutora em Hist\u00f3ria e professora universit\u00e1ria carioca.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudar \u00e9 algo maravilhoso, abre mundos, nos d\u00e1 conhecimento, senso cr\u00edtico, certa liberdade, mas sair da caverna, olhar o mundo por seus pr\u00f3prios olhos e n\u00e3o mais por sombras refletidas nas paredes \u00e9 algo assustador e doloroso. 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