{"id":5286,"date":"2026-09-27T00:30:10","date_gmt":"2026-09-27T03:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5286"},"modified":"2026-09-25T15:06:19","modified_gmt":"2026-09-25T18:06:19","slug":"campos-de-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/campos-de-sonho\/","title":{"rendered":"Campos de sonho"},"content":{"rendered":"<p>\u201cTodo anjo \u00e9 terr\u00edvel\u201d<br \/>\n(Rainer Maria Rilke, Segunda Elegia de Du\u00edno)<\/p>\n<p>Silenciosos, eles vagam pelos campos de sonho. O sonhador, inquieto, os acompanha, os olhos fechados.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma profus\u00e3o de seres fant\u00e1sticos e entidades das mais diversas egr\u00e9goras. Oxal\u00e1, Xang\u00f4, Iemanj\u00e1 e outros orix\u00e1s; poderosos exus (sem chifres, que exus do candombl\u00e9 n\u00e3o os t\u00eam); sedutoras pombagiras; Z\u00e9 Pelintra e outros encantados, pequenos deuses do povo brasileiro; divindades do Olimpo e da mitologia celta; musas, em especial as ligadas \u00e0 poesia; ninfas e s\u00e1tiros, muitos; demoninhos e seus primos, os querubins rechonchudos; vampiros e lobisomens; iaras, sacis, curupiras e outros integrante das lendas amaz\u00f4nicas; matintas paraenses; sereias; elfos de aspecto glorioso; bruxos e bruxinhos; fantasmas e fantasminhas; gatos e outros bichinhos; e um sem-n\u00famero de monstros: trolls, mant\u00edcoras, grifos, boitat\u00e1s e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>O sonhador os reconhece, escreveu acerca de todos eles. Percebe tamb\u00e9m a aus\u00eancia de deuses e seres de mitologias com as quais n\u00e3o tem grandes afinidades eletivas. Assim, da infinidade de deuses do Egito, apenas a deusa-gata, Tabet, protetora das ferinhas que ele tanto ama, est\u00e1 presente. N\u00e3o h\u00e1 deuses mesopot\u00e2micos nem seres vindos das estrelas, os innunakis mencionados nos textos sum\u00e9rios. Dos santos cat\u00f3licos, somente S\u00e3o Judas Tadeu pode ser visto \u2013 afinal, \u00e9 o protetor de seu querido Flamengo.<\/p>\n<p>O sonhador sente falta de um enredo que articule todos esses personagens e lhes d\u00ea voz, mas n\u00e3o se atreve a escrev\u00ea-lo. A trama poderia escapar de seu controle, antigas rivalidades virem \u00e0 tona, e tudo resultar em uma mortandade brutal. N\u00e3o, mais prudente deix\u00e1-los vagar em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Seus olhos cerrados movem-se para o alto e vislumbram um anjo que desliza sobre os campos de sonho. Fixam-se no seu rosto, belo e terr\u00edvel. N\u00e3o pelo motivo expressado no poema de Rilke, para quem a presen\u00e7a da perfei\u00e7\u00e3o celestial seria demasiado forte para os homens e os destruiria.<\/p>\n<p>\u00c9 que o anjo de seu sonho n\u00e3o \u00e9 o de Rilke, e sim o anjo da hist\u00f3ria, mencionado nos textos do pensador alem\u00e3o Walter Benjamin. E isso, em uma vis\u00e3o subjetiva, n\u00e3o filos\u00f3fica, por parte do sonhador. De sua perspectiva, o terr\u00edvel \u00e9 a mescla de impassividade e inexorabilidade nas fei\u00e7\u00f5es perfeitas do anjo da hist\u00f3ria. \u00c9 como se ele dissesse: \u201cos homens sofrer\u00e3o desgra\u00e7as indiz\u00edveis, e n\u00e3o me comoverei com elas, n\u00e3o os ajudarei, nem moverei uma palha para alterar o curso dos acontecimentos. Pouco importa que, atr\u00e1s de mim, se acumulem escombros, n\u00e3o subsista pedra sobre pedra\u201d.<\/p>\n<p>Nesse momento, suando frio, cheio de medo, o sonhador acorda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTodo anjo \u00e9 terr\u00edvel\u201d (Rainer Maria Rilke, Segunda Elegia de Du\u00edno) Silenciosos, eles vagam pelos campos de sonho. O sonhador, inquieto, os acompanha, os olhos fechados. H\u00e1 uma profus\u00e3o de seres fant\u00e1sticos e entidades das mais diversas egr\u00e9goras. 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