{"id":5346,"date":"2026-09-26T02:00:54","date_gmt":"2026-09-26T05:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5346"},"modified":"2026-09-25T22:35:37","modified_gmt":"2026-09-26T01:35:37","slug":"o-pacto-do-colarinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasilia\/o-pacto-do-colarinho\/","title":{"rendered":"O pacto do colarinho"},"content":{"rendered":"<p>Saraiva, tipo de palavras rar\u00edssimas, era afeito \u00e0 conversa gourmet. Frequentava semanalmente o Bar do Bosco, onde pedia uma cerveja e, quando a disposi\u00e7\u00e3o se fazia presente, aquela branquinha de alambique. E se a fome rondasse a barriga magra, meia por\u00e7\u00e3o de fritas era mais do que suficiente.<\/p>\n<p>Boa de prosa era a Judite. E tinha hist\u00f3rias para todos os tamanhos e sabores. Se o sujeito pedisse um causo de assombra\u00e7\u00e3o, a mulher retirava da cartola algo de arrepiar o cabra mais metido a valente. Se fosse divers\u00e3o, j\u00e1 sa\u00eda uma piada de sal\u00e3o ou de tapar os ouvidos de vergonha.<\/p>\n<p>Por coincid\u00eancia de destinos, vez ou outra, Judite e Saraiva compartilhavam uma ter\u00e7a ou quarta-feira na mesa mais ao fundo. Camilo, o gar\u00e7om mais tarimbado do boteco, parecia entender por telepatia o pedido daqueles dois. E, assim, uma garrafa de cerveja e dois copos limpos eram enchidos. Colarinho sim, por\u00e9m sem exageros.<\/p>\n<p>Breves cumprimentos de cabe\u00e7a, sorrisos discretos. Camilo se virava e ia atender outros clientes. Em seguida, Judite e Saraiva, copos erguidos, brindavam.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9 porreta, Judite.<\/p>\n<p>\u2014 Tu tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dos mais fracos.<\/p>\n<p>Camaradas que eram, trocavam farpas sem pontas durante horas. Raramente convidavam algu\u00e9m para se sentar. Em vez de prosa ruim, fingiam \u00e9brios. N\u00e3o seriam eles que trocariam mais um gole por gente chata.<\/p>\n<p>Havia uma fofoca que corria no local, mas que a maioria nem levava a s\u00e9rio. Crendice boba, diziam. Como se fosse coisa inventada por algu\u00e9m sem-no\u00e7\u00e3o. Judite e Saraiva teriam sido amantes? Os dois n\u00e3o diziam que sim nem faziam quest\u00e3o de desmentir. Que fofocassem! De certo modo, at\u00e9 alimentavam o bochicho.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, Saraiva?<\/p>\n<p>O homem fitava o curioso, mas nada dizia. Judite, por sua vez, apertava a m\u00e3o do parceiro de copo e gargalhava. A mulher gostava de provocar. E como provocava!<\/p>\n<p>Entre o que era ver\u00eddico e boato, todos ficavam na d\u00favida. Ou melhor, quase todos. Certeza mesmo era algo que apenas os alvos conheciam.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saraiva, tipo de palavras rar\u00edssimas, era afeito \u00e0 conversa gourmet. Frequentava semanalmente o Bar do Bosco, onde pedia uma cerveja e, quando a disposi\u00e7\u00e3o se fazia presente, aquela branquinha de alambique. E se a fome rondasse a barriga magra, meia por\u00e7\u00e3o de fritas era mais do que suficiente. 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