{"id":5389,"date":"2026-09-26T10:16:07","date_gmt":"2026-09-26T13:16:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5389"},"modified":"2026-09-26T11:22:34","modified_gmt":"2026-09-26T14:22:34","slug":"malu-14-0-o-pensador-de-rodin-e-os-60-anos-que-um-dia-chegarao-por-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/malu-14-0-o-pensador-de-rodin-e-os-60-anos-que-um-dia-chegarao-por-ai\/","title":{"rendered":"Malu 14.0, O Pensador, de Rodin, e os 60 anos que um dia chegar\u00e3o por a\u00ed"},"content":{"rendered":"<p>Na sexta-feira, 25, Malu completou 14 anos. <em>Q.u.a.t.o.r.z.e<\/em>, celebrados como uma vit\u00f3ria no jogo de adedonha. Trata-se de uma idade engra\u00e7ada, onde ela j\u00e1 n\u00e3o cabe inteiramente no colo, mas ainda cabe inteira no cora\u00e7\u00e3o do av\u00f4. Talvez seja esse um dos mist\u00e9rios que nem a matem\u00e1tica, nem a economia, nem a tecnologia conseguiram resolver, como os filhos e netos que crescem, o mundo envelhece mas h\u00e1 pessoas que continuam crian\u00e7as dentro da gente.<\/p>\n<p>Em um caf\u00e9 com biscoitos e torta de morango com suspiro, olhei para Malu. Ela estava diante de mim com os olhos de quem ainda tem praticamente uma vida inteira por estrear. Eu, do outro lado, carregava nos cabelos a prata dos calend\u00e1rios j\u00e1 vencidos.<\/p>\n<p>Levei a m\u00e3o ao queixo e talvez, inconscientemente tenha imitado, O Pensador, de Rodin. Faltavam-me, evidentemente, os m\u00fasculos do sujeito de bronze, mas sobravam pensamentos.<\/p>\n<p>\u2014 Malu, como voc\u00ea se imagina daqui a 60 anos, quando estiver com a minha idade?<\/p>\n<p>Ela me olhou, seguindo-se um pequeno sil\u00eancio. Naquele instante, eu era Rodin. Ou melhor, pretendia ser O Pensador. Imaginava ter colocado diante da minha neta uma dessas perguntas destinadas a atravessar gera\u00e7\u00f5es. Esperava talvez uma resposta sobre cabelos brancos, filhos, netos, profiss\u00e3o, sonhos realizados, uma varanda, uma cadeira de balan\u00e7o ou qualquer outra imagem dessas que n\u00f3s, os velhos, constru\u00edmos quando resolvemos filosofar sobre o tempo.<\/p>\n<p>Malu, por\u00e9m, tem 14 anos, e nessa idade ainda existe a aritm\u00e9tica, uma arma devastadora contra a filosofia dos av\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4, isso \u00e9 uma filosofia abstrata.<\/p>\n<p>Franzi a testa, como Rodin provavelmente tamb\u00e9m faria.<\/p>\n<p>\u2014 Abstrata por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Como eu teria a sua idade daqui a 60 anos? O tempo para voc\u00ea pararia de contar a partir de agora?<\/p>\n<p>E sorriu. Antes que eu encontrasse uma sa\u00edda digna para a armadilha que eu pr\u00f3prio havia preparado, veio a senten\u00e7a da neta:<\/p>\n<p>\u2014 Eu acho que voc\u00ea estaria com 134.<\/p>\n<p>Pronto. O racioc\u00ednio dela fez o Pensador despencar do pedestal, com minha escultura filos\u00f3fica, cuidadosamente constru\u00edda durante alguns segundos, acabava de ser demolida por uma adolescente que simplesmente somou 74 mais 60.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia metaf\u00edsica, e sim, matem\u00e1tica. E contra a matem\u00e1tica de uma menina de 14 anos n\u00e3o existe bronze de Rodin que resista.<\/p>\n<p>Olhei novamente para ela, ainda com a m\u00e3o no queixo.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe, Malu, O Pensador \u00e9 uma escultura figurativa. Rodin fez um homem de bronze para representar o pensamento, uma coisa que ningu\u00e9m consegue tocar.<\/p>\n<p>Ela me olhou com aquela express\u00e3o que os adolescentes reservam aos adultos quando suspeitam que vem a\u00ed mais uma palestra, e prossegui mesmo assim:<\/p>\n<p>\u2014 Ele conseguiu transformar uma coisa abstrata numa figura concreta.<\/p>\n<p>Malu sorriu, eu imaginando os pensamentos dela, do tipo \u201cL\u00e1 vem o V\u00f4 de novo\u201d. E veio.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea fez exatamente o contr\u00e1rio comigo. Pegou minha filosofia abstrata e transformou em conta de somar.<\/p>\n<p>Ela sorriu mais uma vez, e foi ent\u00e3o que percebi que, naquela conversa, estavam reunidas tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es e algumas ci\u00eancias.<\/p>\n<p>O pai de Malu \u00e9 profissional de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o, vivendo em um universo em que comandos precisam fazer sentido, c\u00f3digos precisam funcionar e erros de l\u00f3gica costumam cobrar sua conta. A m\u00e3e, como economista, aprendeu a conversar com n\u00fameros, proje\u00e7\u00f5es, vari\u00e1veis, resultados e aquelas equa\u00e7\u00f5es que tentam explicar por que o dinheiro entra por uma porta e, misteriosamente, encontra tantas outras para sair.<\/p>\n<p>Malu ficou no meio, por provavelmente ter herdado um pouco dos dois. Do pai, talvez a l\u00f3gica. Da m\u00e3e, quem sabe, a intimidade com os n\u00fameros. J\u00e1 do av\u00f4, espero que tenha herdado ao menos o direito de desconfiar das certezas. Porque, no resultado final, pouco importa de que lado vieram as parcelas.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que a ordem dos fatores n\u00e3o altera o produto, que, neste caso, chama-se Malu do alto dos seus 14 anos. Olhei mais uma vez para minha neta e compreendi que talvez Rodin estivesse certo em deixar O Pensador im\u00f3vel, porque pensar exige tempo. O problema \u00e9 que o tempo n\u00e3o fica im\u00f3vel, e n\u00f3s, sim, \u00e9 que gostar\u00edamos que ficasse, principalmente quando olhamos para uma crian\u00e7a que vimos nascer e descobrimos, quase de repente, uma adolescente diante de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ontem cabia nos bra\u00e7os e hoje corrige a matem\u00e1tica do av\u00f4. Amanh\u00e3 talvez esteja explicando aos pr\u00f3prios filhos que houve um tempo remoto em que seu av\u00f4 acreditou que poderia congelar o rel\u00f3gio apenas para encontr\u00e1-la, sessenta anos depois, exatamente onde ele estava.<\/p>\n<p>Mas ela estava certa. Se Malu chegar aos 74, eu teria 134, num c\u00e1lculo matematicamente irretoc\u00e1vel. Filosoficamente, por\u00e9m, pe\u00e7o licen\u00e7a \u00e0 minha pequena economista da vida para apresentar um recurso, com um habeas corpus garantindo que eu hora eu n\u00e3o tenha mais 134, como resultado da conta dela. Avalio mesmo que talvez n\u00e3o tenha idade alguma, porque existem pessoas que continuam vivendo numa hist\u00f3ria contada \u00e0 mesa, numa fotografia guardada, numa frase repetida pela fam\u00edlia, numa mania herdada, numa gargalhada que algu\u00e9m reconhece no rosto de um descendente.<\/p>\n<p>Mas, suponho, estarei em algum cantinho da mem\u00f3ria dela. E se for assim, ser\u00e1 como na sexta-feira, com a m\u00e3o no queixo, imitando O Pensador de Rodin, fazendo uma pergunta pretensamente profunda enquanto uma menina de 14 anos sorri para mim e demonstra que, diante do tempo, o av\u00f4 pode at\u00e9 filosofar. Malu, contudo, faz as contas. E vence.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sexta-feira, 25, Malu completou 14 anos. Q.u.a.t.o.r.z.e, celebrados como uma vit\u00f3ria no jogo de adedonha. 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