{"id":5420,"date":"2026-09-30T01:00:11","date_gmt":"2026-09-30T04:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5420"},"modified":"2026-09-26T21:17:44","modified_gmt":"2026-09-27T00:17:44","slug":"a-vida-propria-das-leis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/a-vida-propria-das-leis\/","title":{"rendered":"A vida pr\u00f3pria das leis"},"content":{"rendered":"<div dir=\"auto\">A vida pr\u00f3pria dos opressores \u00e9 um mar de queixas impr\u00f3prias sobre os oprimidos. Como os pol\u00edticos de partidos de extrema direita lotam o Congresso Nacional Brasileiro atual, pode-se dizer que as leis s\u00e3o queixas pr\u00f3prias \/impr\u00f3prias dos abastados.\u00a0 Esses reivindicam mais e mais poder e oceanos de riquezas. Ou\u00e7a o barulho dessa onda:<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">\u00a0Esta hist\u00f3ria come\u00e7a assim: queixei-me da minha mulher. O pastor ouviu-me a queixa. Sugeriu-me a receita de como control\u00e1-la. Que usasse em partes iguais: Viagra, dinheiro e proibi\u00e7\u00f5es. O Viagra e o dinheiro a atrairiam. As proibi\u00e7\u00f5es esturricariam o de dentro dela. Assim fiz. Contraiu uma doen\u00e7a. Morreu.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Continuando a observar o maremoto social acompanhe mais cinco ondas:<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Queixei-me de t\u00e9dio. Um colega do col\u00e9gio ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matar o t\u00e9dio&#8230; Que usasse o tempo em partes desproporcionais: passar muitas horas nas redes sociais, escolher dentre os desafios de coragem, praticar um dos atos sugeridos. Assim fiz.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">A outra hist\u00f3ria \u00e9 como a primeira, mas se chama &#8220;Apropria\u00e7\u00e3o&#8221;. Come\u00e7a dizendo que eu me queixara de t\u00e9dio. Um colega me ouviu. Segue-se a receita. E ent\u00e3o entra o inusitado. A verdade \u00e9 que s\u00f3 em abstrato me havia queixado de t\u00e9dio, que nem meu era: pertencia a um grupo de amigos da escola. S\u00f3 na hora de consumar o livramento do t\u00e9dio \u00e9 que se tornou meu tamb\u00e9m. Em nosso nome, ent\u00e3o, comecei a sentir a adrenalina numa concentra\u00e7\u00e3o mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Eu aviava o elixir do livramento. Um medo excitado e meu pr\u00f3prio lado mal secreto me guiavam. Agora eu s\u00f3 queria gelidamente uma coisa: matar cada cachorro d\u00f3cil que os babacas do parque alimentavam. A calada da noite ouviu nosso primeiro ato comunit\u00e1rio de coragem.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Durante a noite eu matara. Em nosso nome amanhecia. Pr\u00f3ximo ao parque, um galo cantou.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">A terceira hist\u00f3ria que ora se inicia \u00e9 a da &#8220;Viraliza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">Come\u00e7a dizendo que eu me queixara de t\u00e9dio. Depois vem a mesma sequ\u00eancia receitada: passar muitas horas nas redes sociais, narrar o enfrentamento do desafio de coragem, e pormenores da pr\u00e1tica do ato heroico realizado. Vai indo at\u00e9 o ponto em que, de madrugada, nosso ato tinha viralizado. De minha fria altura de gente que \u00e9 dona, olho a derrocada dos cachorros sem dono, mundo a fora. Amanhece. Da hist\u00f3ria anterior canta o galo.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">A quarta narrativa inaugura nova era. Come\u00e7a como se sabe: queixei-me de t\u00e9dio. Vai at\u00e9 o momento em que vejo a repercuss\u00e3o nas redes sociais e televisiva. &#8221;Orelha&#8221; \u2013 fora morto, sim. Mas penso nos parques e pra\u00e7as, por onde nessa mesma noite renovar-se-\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o lenta e viva de c\u00e3es d\u00f3ceis na fila do osso. Eu iria ent\u00e3o renovar o estoque letal como quem j\u00e1 n\u00e3o dorme sem a avidez de um rito? E todas as madrugadas me conduziria son\u00e2mbulo at\u00e9 o v\u00edcio de ir ao encontro da est\u00e1tua que o meu livramento do t\u00e9dio a\u00a0mim mesmo erguia? Estremeci de mau prazer \u00e0 vis\u00e3o daquela sensa\u00e7\u00e3o trapaceira. E tamb\u00e9m ao aviso sobre o v\u00edcio de viver de modo t\u00e3o trabalhoso. \u00c1spero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certo de que qualquer escolha seria a do sacrif\u00edcio: eu ou meu conforto. Escolhi. E hoje ostento secretamente no cora\u00e7\u00e3o uma placa de virtude: &#8220;Provei minha coragem&#8221;.<\/div>\n<div dir=\"auto\">A quinta hist\u00f3ria chama-se &#8220;A perversidade do topo da pir\u00e2mide social, o personalismo, e a pervertida coragem&#8221;. Come\u00e7a assim: queixei-me de t\u00e9dio.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>&#8220;A voz dos vencidos e a procura da coisa, em Lispector &#8211; Notibras&#8221; <a href=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-voz-dos-vencidos-e-a-procura-da-coisa-em-lispector\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-voz-dos-vencidos-e-a-procura-da-coisa-em-lispector\/<\/a><\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>\u00a0LISPECTOR, Clarice. A Quinta Hist\u00f3ria. In Felicidade Clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Dispon\u00edvel em<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/nesgadeterra.blogspot.com.br\/2013\/12\/a-quinta-historia-clarice-lispector.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/nesgadeterra.blogspot.com.br\/2013\/12\/a-quinta-historia-clarice-lispector.html<\/a><\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>MEROLA, E Domenica. Os narradores em A Quinta Hist\u00f3ria. Blog<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>Aquecendo a escrita. Postado em 04\/12\/2017.<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong><a href=\"https:\/\/aquecendoaescrita.blogspot.com\/2017\/12\/os-narradores-em-quinta-historia-e.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/aquecendoaescrita.blogspot.com\/2017\/12\/os-narradores-em-quinta-historia-e.html<\/a><\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>Este texto faz parte da Trilogia &#8220;Pr\u00f3pria ou impr\u00f3pria? &#8221; que abarca:<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>1- A vida pr\u00f3pria das coisas<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>\u00a02- A vida pr\u00f3pria do acaso,\u00a0<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>3- A vida pr\u00f3pria das leis .<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>A trilogia referida resulta de reflex\u00f5es sobre viv\u00eancias e releituras de Clarice Lispector.\u00a0<\/strong><\/div>\n<div dir=\"auto\"><strong>Edna Domenica \u00e9 autora de &#8220;O Set\u00eanio&#8221; (T\u00e3o livros, 2024) e co-autora de &#8220;Raps\u00f3dia da Rua da Mooca&#8221; (T\u00e3o livros, 2026).<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida pr\u00f3pria dos opressores \u00e9 um mar de queixas impr\u00f3prias sobre os oprimidos. 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