{"id":5428,"date":"2026-09-27T01:15:47","date_gmt":"2026-09-27T04:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5428"},"modified":"2026-09-27T01:48:23","modified_gmt":"2026-09-27T04:48:23","slug":"lado-b-da-literatura-f-assis-o-escritor-que-fez-reis-de-cabo-de-vassoura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/lado-b-da-literatura-f-assis-o-escritor-que-fez-reis-de-cabo-de-vassoura\/","title":{"rendered":"Lado B da Literatura: F. Assis, o escritor que fez reis de cabo de vassoura"},"content":{"rendered":"<p>Antes de escrever hist\u00f3rias, Fernando de Assis, que assina F. Assis, precisou fabricar seus pr\u00f3prios reis. Desenhou o tabuleiro em papel, fez as pe\u00e7as com peda\u00e7os de cabo de vassoura e as identificou a caneta. Era menino, gostava de xadrez e aquele era o jeito poss\u00edvel de ter um jogo. As diferen\u00e7as entre um pe\u00e3o e um rei dependiam, ali, de alguns riscos sobre a madeira.<\/p>\n<p>O xadrez o acompanharia por bastante tempo. Mais tarde, frequentou um clube no Humait\u00e1 e guardou hist\u00f3rias das partidas que disputava. Faz anos que n\u00e3o joga, mas se lembra bem daquele primeiro tabuleiro. A madeira, por sua vez, continua por perto.<\/p>\n<p>No quintal de sua casa, no Rio da Prata, em Campo Grande, Fernando mant\u00e9m uma pequena marcenaria e um laborat\u00f3rio de eletr\u00f4nica. J\u00e1 fez cabideiros retr\u00e1teis, uma espregui\u00e7adeira para a piscina, uma bancada de lavabo em angelim-pedra com detalhes em resina. Recuperou uma cadeira de balan\u00e7o. Tamb\u00e9m construiu um cubo de luzes infinitas, desses objetos que parecem guardar um espa\u00e7o maior do que aquele que ocupam.<\/p>\n<p>N\u00e3o se apresenta como marceneiro. O gosto pelo form\u00e3o e pelo serrote veio do padrinho, irm\u00e3o de sua m\u00e3e, homem de quem fala com afeto e que tinha opini\u00f5es bastante particulares sobre seus estudos de viol\u00e3o. Ao ouvi-lo tocar, sentenciava:<\/p>\n<p>\u2014 Assim como as pessoas, tem instrumentos que nascem para sofrer.<\/p>\n<p>Fernando estudou tamb\u00e9m um pouco de piano e \u00e9 severo com o resultado das duas experi\u00eancias. Ficou, contudo, o prazer de ouvir. Z\u00e9 Ramalho, Alceu Valen\u00e7a, Jo\u00e3o Bosco e Luiz Melodia est\u00e3o entre suas escolhas. Cartola, Ataulfo Alves e Nelson Gon\u00e7alves chegam acompanhados das lembran\u00e7as do pai e do padrinho. H\u00e1 can\u00e7\u00f5es que, mesmo quando tocadas para ningu\u00e9m mais na sala, trazem companhia.<\/p>\n<p>Os livros entraram cedo na casa dos pais, que tinham poucos estudos e gostavam muito de ler. Vieram as edi\u00e7\u00f5es ilustradas de Esopo, de Hans Christian Andersen, dos irm\u00e3os Grimm. Depois, Monteiro Lobato. O menino nascido e criado em Bento Ribeiro cresceu entre essas hist\u00f3rias e foi encontrando outras: Alice, J\u00falio Verne, Cervantes, Saint-Exup\u00e9ry. Na adolesc\u00eancia, ensaiou escrever. A vontade ficou \u00e0 espera enquanto a vida lhe apresentava tarefas mais urgentes.<\/p>\n<p>Sua forma\u00e7\u00e3o foi em eletr\u00f4nica e instrumenta\u00e7\u00e3o. Trabalhou durante anos em plataformas de petr\u00f3leo e teve uma assist\u00eancia t\u00e9cnica de celulares no Leblon. A escrita voltou por um pedido do filho. Fernando costumava ler com ele antes de dormir. Quando terminaram um dos livros, o menino pediu uma hist\u00f3ria que sa\u00edsse da imagina\u00e7\u00e3o do pai. A leitura em fam\u00edlia havia produzido um ouvinte que agora queria conhecer tamb\u00e9m as hist\u00f3rias de Fernando. Dessa experi\u00eancia nasceu o primeiro livro de Os filhos de Wigand, A caixa.<\/p>\n<p>Na oficina do Leblon, as hist\u00f3rias costumavam chegar com defeito no aparelho. Luiz Melodia foi seu cliente. Nuno Leal Maia apareceu certa vez aflito com um Motorola que n\u00e3o ligava. A agenda estava toda l\u00e1 dentro. Para quem dependia dos n\u00fameros guardados naquele telefone, a pequena tela apagada tinha o tamanho de um desastre.<\/p>\n<p>Fernando o convidou a sentar-se ao lado da bancada. Examinou o aparelho, identificou o problema, refez algumas soldas. Em menos de dez minutos, devolveu o celular funcionando. Ainda se diverte ao lembrar a alegria de Nuno. O reparo era simples; dif\u00edcil seria explicar isso a quem, minutos antes, temia perder a agenda inteira.<\/p>\n<p>Com os pr\u00f3prios livros, Fernando teve menos sorte. N\u00e3o gosta de se desfazer deles e empresta com o cora\u00e7\u00e3o apertado. Durante um tratamento dent\u00e1rio, soube que o dentista procurava um t\u00edtulo da Livraria Freitas Bastos, j\u00e1 fora das prateleiras. Ele tinha o exemplar e o levou. Na consulta seguinte, a recepcionista informou que o profissional n\u00e3o trabalhava mais ali. N\u00e3o sabia dizer para onde tinha ido. Fernando nunca mais viu o livro.<\/p>\n<p>O caso poderia ter ficado sozinho, mas ganhou companhia nos anos de trabalho embarcado. No camarote da plataforma, sua distra\u00e7\u00e3o era ler. Dividia o espa\u00e7o com um colega que, assim como ele, voltava sempre \u00e0quela unidade. Conviveram durante anos. Um dia, o homem pediu que lhe emprestasse o livro quando terminasse a leitura. Fernando emprestou. No embarque seguinte, soube que o colega n\u00e3o retornaria. Tamb\u00e9m dessa vez ningu\u00e9m conseguiu lhe dar um destino certo.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que um leitor, depois disso, pense duas vezes antes de entregar um exemplar. Fernando considera tamb\u00e9m escrever uma fic\u00e7\u00e3o com aqueles desaparecimentos. N\u00e3o se recorda do t\u00edtulo emprestado ao dentista, mas a hist\u00f3ria do empr\u00e9stimo continua inteira.<\/p>\n<p>Aposentou-se no in\u00edcio da pandemia. H\u00e1 mais de quinze anos mora no Rio da Prata, numa casa com plantas, jardim e grama para cortar. Fala das montanhas verdes e dos animais que aparecem por l\u00e1. Macacos s\u00e3o presen\u00e7a conhecida; cobras andando pelos fios dos postes ainda lhe parecem uma cena dif\u00edcil de acreditar. Pensa em ambientar uma fic\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. Por enquanto, h\u00e1 o jardim para cuidar e os projetos da oficina.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o almo\u00e7o. \u00c9 ele quem cozinha em casa, com gosto por comida simples. Um ensopado de quiabo com jil\u00f3 ou uma costela com batatas e agri\u00e3o o satisfariam muito, n\u00e3o fosse um pequeno contratempo: a esposa e o filho n\u00e3o comem esses pratos. Se os preparar, ter\u00e1 de com\u00ea-los sozinho. A conviv\u00eancia familiar imp\u00f5e ao cozinheiro negocia\u00e7\u00f5es que o escritor pode dispensar quando decide o jantar de seus personagens.<\/p>\n<p>Fernando se sente bem na pr\u00f3pria companhia. N\u00e3o tem entusiasmo pelo futebol nem gosta de ambientes barulhentos. Numa festa de anivers\u00e1rio, estava sentado, conversando com um amigo, quando um grupo come\u00e7ou a tocar. A m\u00fasica tornou a conversa imposs\u00edvel. Ficou em sil\u00eancio pelo resto daquele encontro. O volume havia tomado o lugar da pessoa com quem falava.<\/p>\n<p>Nem sempre, por\u00e9m, o sossego resolve a vida do leitor. Quatro livros aguardam sua iniciativa. Pega um, passa a outro e n\u00e3o avan\u00e7a como gostaria. Diz que precisa ir at\u00e9 o espelho e dar em si mesmo um belo esporro. Para algu\u00e9m que n\u00e3o gosta de autoajuda, a provid\u00eancia tem a vantagem de dispensar mais um livro.<\/p>\n<p>Com a poesia, sua rela\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. L\u00ea pouco, sente dificuldade, mas vez ou outra se arrisca a escrever. Tamb\u00e9m admite que algumas leituras da adolesc\u00eancia ficaram al\u00e9m do que podia compreender naquele tempo. A experi\u00eancia lhe deu acesso a coisas que estavam impressas desde o come\u00e7o, mas ainda n\u00e3o encontravam nele quem as entendesse.<\/p>\n<p>No jardim, h\u00e1 um ip\u00ea-amarelo que produz pouca flor e muita vagem. Fernando observa as plantas em torno, as regas, a chuva. Tem suas hip\u00f3teses sobre a flora\u00e7\u00e3o discreta e se ocupa delas com o interesse de quem acompanha a \u00e1rvore para al\u00e9m da \u00e9poca em que ela deveria ficar bonita.<\/p>\n<p>Um jardim tamb\u00e9m aparece em Vaidade de flor, texto seu publicado recentemente no <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/strong>. Ali, Fragr\u00e2ncia se ressente da admira\u00e7\u00e3o que as flores recebem e s\u00f3 se d\u00e1 por satisfeita quando uma jovem cega se demora apreciando os aromas. Enquanto o perfume reclama reconhecimento, as abelhas fazem seu trabalho. Depois, as flores murcham. A narrativa \u00e9 breve e deixa uma pequena disputa humana acontecendo entre os canteiros.<\/p>\n<p>Quando a conversa chega \u00e0s pessoas que o marcaram, Fernando volta ao pai e ao padrinho. Chama os dois de espelhos nos quais gostaria de se ver. Ao lembrar o pai, confessa: \u201cGostaria muito de ter sido como ele.\u201d<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><br \/>\n<strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio e fundador da Editora Fava, \u00e9 autor de <em>A Verdade nos Seres<\/em> (poesia, 2024) e <em>Territ\u00f3rio do Sonho<\/em> (contos, 2026). @prof.danielmarchi.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de escrever hist\u00f3rias, Fernando de Assis, que assina F. Assis, precisou fabricar seus pr\u00f3prios reis. 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