{"id":5458,"date":"2026-09-27T12:09:00","date_gmt":"2026-09-27T15:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5458"},"modified":"2026-09-27T12:53:57","modified_gmt":"2026-09-27T15:53:57","slug":"voto-e-lingua-sugerem-que-em-politica-quem-fala-muito-cumprimenta-cavalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/eleicoes-2026\/voto-e-lingua-sugerem-que-em-politica-quem-fala-muito-cumprimenta-cavalo\/","title":{"rendered":"Voto e l\u00edngua sugerem que em pol\u00edtica quem fala muito cumprimenta cavalo"},"content":{"rendered":"<p>Quem acompanha elei\u00e7\u00e3o h\u00e1 algum tempo aprende uma coisa meio inc\u00f4moda: campanha nenhuma est\u00e1 protegida de si mesma. Pode estar bem montada, com pesquisa favor\u00e1vel, discurso ajustado, equipe afinada, televis\u00e3o funcionando e candidato embalado. Ainda assim, basta uma frase torta, um gesto mal calculado ou uma gra\u00e7a fora de hora para mudar o ambiente.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que eu sempre desconfiei dessa ideia de que elei\u00e7\u00e3o se ganha apenas no grande movimento. Claro que existem a economia, as alian\u00e7as, a rejei\u00e7\u00e3o, o desempenho do governo, a qualidade do advers\u00e1rio, tudo isso pesa muito mais. Mas, quando a disputa aperta, o pequeno cresce. E cresce depressa. O que parecia apenas um detalhe passa a ter tamanho de acontecimento.<br \/>\nPernambuco acaba de oferecer um bom exemplo.<\/p>\n<p>Raquel Lyra disputa com Jo\u00e3o Campos uma elei\u00e7\u00e3o que chegou \u00e0 reta final muito equilibrada. N\u00e3o pretendo entrar nas min\u00facias da pol\u00edtica pernambucana atual, at\u00e9 porque sa\u00ed do Recife h\u00e1 quase 35 anos e seria uma pretens\u00e3o desnecess\u00e1ria me apresentar como int\u00e9rprete de uma cena que hoje acompanho \u00e0 dist\u00e2ncia. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso conhecer cada corredor da pol\u00edtica pernambucana para perceber o risco que existe quando, numa disputa dessa natureza, aparece uma frase com capacidade de andar sozinha.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu com Raquel. Numa conversa gravada anteriormente sobre uma mulher com v\u00e1rios filhos, ao falar sobre laqueadura, ela usou a express\u00e3o \u201cfaz sem ela saber\u201d. Depois vieram as explica\u00e7\u00f5es, os pedidos de desculpas, as alega\u00e7\u00f5es de descontextualiza\u00e7\u00e3o, todo o ritual que normalmente vem depois de uma frase que escapou. O problema \u00e9 que existem frases que sobrevivem \u00e0 explica\u00e7\u00e3o porque carregam uma imagem muito mais poderosa do que qualquer esclarecimento posterior. A ideia de uma mulher ser submetida a um procedimento definitivo sem saber dispensa media\u00e7\u00e3o. A frase chega pronta ao ouvido do eleitor.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo que Raquel Lyra perder\u00e1 a elei\u00e7\u00e3o por causa disso, nem sequer que perder\u00e1. Seria transformar an\u00e1lise em adivinha\u00e7\u00e3o, esporte muito praticado durante campanhas e rapidamente esquecido depois da apura\u00e7\u00e3o. O que me interessa \u00e9 outra coisa: \u00e0s vezes, um candidato oferece involuntariamente ao advers\u00e1rio a imagem capaz de organizar tudo aquilo que a campanha contr\u00e1ria gostaria de dizer contra ele.<\/p>\n<p>J\u00e1 vi isso acontecer. No Recife de 2000, Roberto Magalh\u00e3es disputava a reelei\u00e7\u00e3o para prefeito contra Jo\u00e3o Paulo. Durante uma carreata, provocado por advers\u00e1rios, respondeu com o gesto conhecido como banana. A fotografia foi registrada, explorada politicamente e ficou associada \u00e0 campanha. Roberto perdeu aquela elei\u00e7\u00e3o por uma diferen\u00e7a pequena.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que n\u00e3o perdeu por causa de uma banana. Nenhuma elei\u00e7\u00e3o s\u00e9ria pode ser explicada dessa maneira. Havia desgaste, desejo de mudan\u00e7a, campanha advers\u00e1ria, movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e uma s\u00e9rie de outros fatores. Mas o gesto ficou. E a pol\u00edtica, depois que tudo termina, tem uma enorme capacidade de escolher uma imagem para resumir hist\u00f3rias muito mais complicadas.<\/p>\n<p>Outro epis\u00f3dio que sempre me volta \u00e0 mem\u00f3ria aconteceu no Distrito Federal, em 1998. Cristovam Buarque disputava a reelei\u00e7\u00e3o para governador contra Joaquim Roriz. Cristovam era o professor universit\u00e1rio, o intelectual, o homem da palavra sofisticada. Roriz falava de outro jeito, trope\u00e7ava na concord\u00e2ncia, pronunciava algumas palavras \u00e0 sua maneira e carregava uma fala que muita gente mais escolarizada considerava pouco elegante, mas que uma parcela enorme da popula\u00e7\u00e3o entendia perfeitamente e reconhecia como pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Em um dos debates, Cristovam resolveu ironizar essa diferen\u00e7a. Pode at\u00e9 ter parecido espirituoso naquele instante. S\u00f3 que existe uma fronteira muito fina entre rir do advers\u00e1rio e fazer o eleitor imaginar que voc\u00ea est\u00e1 rindo dele tamb\u00e9m. O professor pretendia diminuir Roriz, mas a ironia erudita podia soar como desd\u00e9m por quem falava daquele mesmo jeito. Cristovam venceu o primeiro turno e perdeu o segundo.<\/p>\n<p>Mais uma vez, seria simplista afirmar que alguns segundos de debate decidiram a elei\u00e7\u00e3o. Roriz tinha enorme for\u00e7a popular e aquela disputa tinha raz\u00f5es muito maiores. Mas a cena ficou, justamente porque elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o arquivadas na mem\u00f3ria como trabalhos acad\u00eamicos. O eleitor n\u00e3o monta uma planilha para ponderar programa de governo, desempenho administrativo, alian\u00e7as, economia, seguran\u00e7a, sa\u00fade e comportamento em debates. Ele guarda tamb\u00e9m impress\u00f5es, inc\u00f4modos e cenas.<\/p>\n<p>Uma banana. Uma ironia. Uma frase sobre laqueadura. Talvez por isso o detalhe seja t\u00e3o precioso numa elei\u00e7\u00e3o. Os grandes problemas costumam ser percebidos, pesquisados e trabalhados com anteced\u00eancia. O detalhe n\u00e3o. Ele aparece de repente, num improviso, numa resposta atravessada, numa gracinha que parecia boa, numa palavra desnecess\u00e1ria. E s\u00f3 revela seu tamanho depois que j\u00e1 saiu da boca.<\/p>\n<p>Este texto est\u00e1 sendo publicado propositalmente a uma semana da vota\u00e7\u00e3o. N\u00e3o porque pretenda oferecer conselho a quem j\u00e1 atravessou meses de campanha, mas porque \u00e9 justamente agora que candidatos e marqueteiros deveriam desconfiar do excesso. A esta altura, quase tudo j\u00e1 foi dito, as alian\u00e7as est\u00e3o feitas, os programas est\u00e3o no ar, as pesquisas se sucedem e o eleitor come\u00e7a a fechar suas \u00faltimas impress\u00f5es. Talvez a tarefa mais importante destes sete dias n\u00e3o seja inventar uma novidade, mas evitar produzir um problema.<\/p>\n<p>Candidato cansado fala demais. Candidato empolgado fala demais. Candidato que acredita ter encontrado a frase definitiva costuma avan\u00e7ar uma frase al\u00e9m dela. Marqueteiro ansioso pede mais uma entrevista, mais um v\u00eddeo, mais uma provoca\u00e7\u00e3o, quando talvez o melhor movimento fosse simplesmente saber a hora de parar.<\/p>\n<p>Minha av\u00f3 usava uma express\u00e3o que vale mais do que muito manual de campanha: quem fala muito d\u00e1 bom-dia a cavalo. Na \u00faltima semana, isso deveria estar escrito em letras grandes na parede de todo comit\u00ea eleitoral. Porque uma campanha pode atravessar meses de dificuldades, sobreviver a advers\u00e1rios fortes, recuperar terreno, acertar estrat\u00e9gia e chegar competitiva aos \u00faltimos dias. A partir da\u00ed, muitas vezes, a primeira obriga\u00e7\u00e3o deixa de ser conquistar alguma coisa e passa a ser n\u00e3o perder aquilo que j\u00e1 conquistou.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que acontecer\u00e1 em Pernambuco, e n\u00e3o quero fingir que sei. Raquel Lyra pode vencer, Jo\u00e3o Campos pode vencer, e qualquer um desses resultados ter\u00e1 explica\u00e7\u00f5es muito maiores do que uma \u00fanica frase. Mas, se Raquel perder uma elei\u00e7\u00e3o que chegou t\u00e3o apertada \u00e0 reta final, ser\u00e1 dif\u00edcil impedir que aquele \u201cfaz sem ela saber\u201d ocupe um lugar especial na mem\u00f3ria da campanha.<br \/>\nTalvez injustamente. Talvez com exagero. Como quase sempre acontece quando tentamos resumir elei\u00e7\u00f5es depois que elas terminam.<\/p>\n<p>S\u00f3 que pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 feita disso. Meses de campanha desaparecem. O detalhe fica. E, faltando uma semana para a urna, talvez seja uma boa hora para todos os candidatos se lembrarem de que falar \u00e9 necess\u00e1rio, mas saber a hora de parar tamb\u00e9m \u00e9 uma virtude eleitoral. Porque quem fala muito d\u00e1 bom-dia a cavalo. E, numa elei\u00e7\u00e3o apertada, \u00e0s vezes basta um bom-dia errado para esterilizar uma reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem acompanha elei\u00e7\u00e3o h\u00e1 algum tempo aprende uma coisa meio inc\u00f4moda: campanha nenhuma est\u00e1 protegida de si mesma. Pode estar bem montada, com pesquisa favor\u00e1vel, discurso ajustado, equipe afinada, televis\u00e3o funcionando e candidato embalado. 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