{"id":5497,"date":"2026-09-29T02:15:21","date_gmt":"2026-09-29T05:15:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5497"},"modified":"2026-09-27T20:19:27","modified_gmt":"2026-09-27T23:19:27","slug":"a-arte-de-nao-parecer-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/a-arte-de-nao-parecer-normal\/","title":{"rendered":"A arte de n\u00e3o parecer normal"},"content":{"rendered":"<p>Passei boa parte da vida tentando entender por que as pessoas se preocupam tanto em parecer normais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma palavra curiosa: normal.<\/p>\n<p>Quem estabeleceu?<\/p>\n<p>Quem fiscaliza?<\/p>\n<p>Existe um Minist\u00e9rio da Normalidade que eu desconhe\u00e7o?<\/p>\n<p>Becker talvez nos lembrasse que aquilo que chamamos de desvio n\u00e3o est\u00e1 apenas no comportamento, mas tamb\u00e9m nos processos sociais que classificam determinadas condutas como aceit\u00e1veis e outras como inadequadas.<\/p>\n<p>E eu acho fascinante como fazemos isso o tempo inteiro.<\/p>\n<p>A pessoa ri alto: exagerada.<\/p>\n<p>Fala demais: inconveniente.<\/p>\n<p>Sente demais: intensa.<\/p>\n<p>Demonstra carinho: carente.<\/p>\n<p>N\u00e3o demonstra: fria.<\/p>\n<p>Muda de ideia: indecisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o muda: teimosa.<\/p>\n<p>Trabalha muito: obcecada.<\/p>\n<p>Descansa: pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>Viaja sozinha: corajosa.<\/p>\n<p>Viaja acompanhada: dependente.<\/p>\n<p>No fundo, talvez a sociedade tenha uma esp\u00e9cie de formul\u00e1rio invis\u00edvel para classificar pessoas.<\/p>\n<p>E eu confesso: nunca fui boa em preencher formul\u00e1rio.<\/p>\n<p>Talvez por isso tenha aprendido, com o tempo, que existe uma diferen\u00e7a enorme entre ser inadequada e simplesmente n\u00e3o caber na expectativa de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Goffman explicaria muito bem esse teatro cotidiano.<\/p>\n<p>N\u00f3s aprendemos a administrar impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Vestimos determinadas roupas, usamos determinadas palavras, controlamos gestos, escolhemos o que mostrar e escondemos aquilo que acreditamos que pode comprometer a nossa imagem.<\/p>\n<p>Mas existe um problema: quanto mais tempo passamos administrando a fachada, menos tempo sobra para descobrir quem est\u00e1 nos bastidores.<br \/>\nE talvez seja por isso que tanta gente esteja cansada.<\/p>\n<p>N\u00e3o necessariamente da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Mas da personagem que precisou interpretar para ser aceita nela.<\/p>\n<p>Le Breton nos ajuda a pensar o corpo como experi\u00eancia social. O corpo n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que carregamos. \u00c9 tamb\u00e9m aquilo que os outros olham, interpretam, julgam e disciplinam.<\/p>\n<p>E talvez seja por isso que, depois de tantos anos tentando parecer adequada, eu tenha chegado a uma conclus\u00e3o muito simples: eu n\u00e3o quero mais ser adequada para todo mundo.<\/p>\n<p>Quero ser coerente comigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o significa fazer qualquer coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o significa n\u00e3o ouvir cr\u00edticas.<\/p>\n<p>N\u00e3o significa transformar autenticidade em desculpa para grosseria.<\/p>\n<p>Significa apenas n\u00e3o passar a vida inteira tentando caber numa forma que nunca foi feita para mim.<\/p>\n<p>Se isso me torna um pouco estranha, tudo bem.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, considerando a quantidade de gente completamente normal que eu conhe\u00e7o, come\u00e7o a achar que ser um pouco estranha pode ser uma excelente estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>E, convenhamos, rende hist\u00f3rias muito melhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passei boa parte da vida tentando entender por que as pessoas se preocupam tanto em parecer normais. \u00c9 uma palavra curiosa: normal. Quem estabeleceu? Quem fiscaliza? Existe um Minist\u00e9rio da Normalidade que eu desconhe\u00e7o? Becker talvez nos lembrasse que aquilo que chamamos de desvio n\u00e3o est\u00e1 apenas no comportamento, mas tamb\u00e9m nos processos sociais que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5498,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"tmauthors":[30],"class_list":["post-5497","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-leitura-vip"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5497"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5501,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5497\/revisions\/5501"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5497"},{"taxonomy":"tmauthors","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tmauthors?post=5497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}