{"id":5528,"date":"2026-09-28T08:18:33","date_gmt":"2026-09-28T11:18:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5528"},"modified":"2026-09-28T09:01:47","modified_gmt":"2026-09-28T12:01:47","slug":"canto-da-cigarra-anuncia-chegada-da-temporada-de-chuvas-em-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasilia\/canto-da-cigarra-anuncia-chegada-da-temporada-de-chuvas-em-brasilia\/","title":{"rendered":"Canto da cigarra anuncia chegada da temporada de chuvas em Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>Antes que a primeira grande chuva desabe sobre Bras\u00edlia, a natureza costuma mandar seus pr\u00f3prios mensageiros. N\u00e3o carregam guarda-chuvas, n\u00e3o consultam sat\u00e9lites nem acompanham mapas meteorol\u00f3gicos. Surgem das profundezas da terra, escalam \u00e1rvores e transformam o sil\u00eancio da seca numa verdadeira sinfonia.<\/p>\n<p>S\u00e3o as cigarras. Seu canto estridente come\u00e7a a ocupar parques, jardins, \u00e1reas residenciais e as \u00e1rvores espalhadas pelo Plano Piloto justamente quando setembro caminha para o fim e o brasiliense, depois de meses respirando poeira e enfrentando \u00edndices baix\u00edssimos de umidade, passa a olhar para o c\u00e9u em busca das primeiras nuvens carregadas.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio popular, quando a cigarra canta, a chuva est\u00e1 chegando, mas a\u00a0ci\u00eancia recomenda apenas uma pequena corre\u00e7\u00e3o nessa frase. A cigarra n\u00e3o prev\u00ea a chuva como um min\u00fasculo meteorologista escondido entre as folhas. Seu aparecimento est\u00e1 relacionado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais que tamb\u00e9m acompanham a transi\u00e7\u00e3o entre a seca e o per\u00edodo chuvoso: temperatura, umidade do solo e precipita\u00e7\u00f5es ajudam a determinar o momento em que os insetos deixam a vida subterr\u00e2nea e aparecem na superf\u00edcie.<\/p>\n<p>No Cerrado, essa associa\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente marcante. Estudos da Embrapa sobre diferentes insetos subterr\u00e2neos mostram como as primeiras chuvas podem funcionar como gatilho para a emerg\u00eancia de adultos depois de longos per\u00edodos protegidos no solo.<\/p>\n<p>O cantor \u00e9 o macho, onde reside uma curiosidade que talvez passe despercebida por quem escuta aquela algazarra nas \u00e1rvores. Ele n\u00e3o est\u00e1 celebrando a chuva, mas\u00a0procurando namorada.<\/p>\n<p>O som que atravessa quarteir\u00f5es \u00e9 fundamentalmente um chamado reprodutivo. Os machos possuem estruturas especializadas no abd\u00f4men, chamadas t\u00edmbalos, capazes de produzir aquele ru\u00eddo intenso e caracter\u00edstico. A vibra\u00e7\u00e3o \u00e9 amplificada pelo pr\u00f3prio corpo do inseto.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, uma serenata. Barulhenta, insistente e, dependendo da quantidade de pretendentes reunidos numa mesma \u00e1rvore, ensurdecedora.<\/p>\n<p>A f\u00eamea n\u00e3o produz o mesmo canto potente. Ela escuta os pretendentes e responde aos est\u00edmulos de corte de maneira muito mais discreta. Depois do encontro e do acasalamento, come\u00e7a outra etapa da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A f\u00eamea procura ramos de \u00e1rvores e outros tecidos vegetais apropriados para depositar os ovos. Faz pequenas incis\u00f5es e ali deixa a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Algum tempo depois, os ovos eclodem. As pequenas ninfas caem no ch\u00e3o e fazem exatamente o contr\u00e1rio do que seria esperado de um animal que acabou de nascer: em vez de procurar o c\u00e9u, come\u00e7am a cavar e desaparecem, vivendo uma inf\u00e2ncia debaixo da terra<\/p>\n<p>\u00c9 sob nossos p\u00e9s que acontece a maior parte da vida de uma cigarra. As ninfas instalam-se no solo e alimentam-se de l\u00edquidos obtidos das ra\u00edzes das plantas. Dependendo da esp\u00e9cie, essa exist\u00eancia subterr\u00e2nea pode durar anos. A literatura cient\u00edfica registra justamente esse longo ciclo juvenil em contraste com a relativamente curta fase adulta das cigarras.<\/p>\n<p>Durante todo esse per\u00edodo n\u00e3o h\u00e1 canto, nem asas ou aquela cigarra que conhecemos agarrada ao tronco de uma \u00e1rvore. Existe apenas uma ninfa vivendo silenciosamente no escuro, alimentando-se e passando por diferentes est\u00e1gios de desenvolvimento, at\u00e9 chegar o momento da subida.<\/p>\n<p>Quando as condi\u00e7\u00f5es ambientais s\u00e3o adequadas, a ninfa abandona o subterr\u00e2neo, escala um tronco, uma parede, uma cerca ou qualquer superf\u00edcie vertical que encontre pela frente. Ent\u00e3o acontece uma das transforma\u00e7\u00f5es mais impressionantes do Cerrado, com a pele externa se rompendo e de dentro dela surge o adulto.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, nesta \u00e9poca do ano, aparecem tantas &#8220;cascas de cigarra&#8221; agarradas \u00e0s \u00e1rvores. Aquilo n\u00e3o \u00e9 uma cigarra morta, como muita gente imagina. \u00c9 o exoesqueleto abandonado pela ninfa durante sua transforma\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>A cigarra adulta abre as asas, espera que elas adquiram resist\u00eancia e parte para a etapa mais breve e decisiva de sua exist\u00eancia de reproduzir-se, com anos de espera para algumas semanas ao Sol. Nesse ciclo existe uma ironia.<\/p>\n<p>Elas podem passar anos debaixo da terra preparando-se para uma vida adulta que, em compara\u00e7\u00e3o, \u00e9 extremamente curta. A dura\u00e7\u00e3o exata varia muito conforme a esp\u00e9cie e as condi\u00e7\u00f5es ambientais, mas a regra geral \u00e9 a mesma, onde a fase subterr\u00e2nea domina o ciclo, enquanto a exist\u00eancia alada representa apenas sua etapa final.<\/p>\n<p>Nesse pequeno intervalo machos e f\u00eameas precisam encontrar-se, com o macho cantando, a f\u00eamea escolhendo, o casal acasalando, a f\u00eamea depositando os ovos e o ciclo recome\u00e7ando.<\/p>\n<p>Estudo publicado pela Embrapa em 2026 sobre a Quesada gigas, conhecida como cigarra-gigante, descreve exatamente esse contraste entre o longo per\u00edodo subterr\u00e2neo das ninfas e a curta fase adulta.<\/p>\n<p>Assim, aquela cantoria que para algumas pessoas pode parecer apenas um ru\u00eddo inc\u00f4modo \u00e9, biologicamente, uma corrida contra o rel\u00f3gio. Cada macho est\u00e1 anunciando sua presen\u00e7a e cada f\u00eamea carrega a possibilidade de uma nova gera\u00e7\u00e3o, onde\u00a0cada ovo deixado nos galhos representa uma futura ninfa que voltar\u00e1 ao ch\u00e3o para permanecer escondida at\u00e9 que chegue sua pr\u00f3pria primavera.<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, por\u00e9m, a cigarra ganhou significado adicional. Depois de maio, junho, julho e agosto praticamente sem chuva, o brasiliense aprende a reconhecer pequenos sinais de que o castigo da seca est\u00e1 chegando ao fim. O cheiro da terra muda, as nuvens reaparecem, o vento deixa de carregar apenas poeira, os ip\u00eas encerram seu espet\u00e1culo e as cigarras ligam seus instrumentos.<\/p>\n<p>De repente, \u00e1rvores que passaram meses silenciosas transformam-se em caixas de resson\u00e2ncia. \u00c9 o Cerrado mudando de esta\u00e7\u00e3o diante dos nossos olhos \u2014 e, sobretudo, dos nossos ouvidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe contrato assinado entre cigarras e S\u00e3o Pedro. Nem garantia cient\u00edfica de que uma tempestade cair\u00e1 amanh\u00e3 simplesmente porque dezenas delas resolveram cantar hoje. Mas a sabedoria popular nasceu da observa\u00e7\u00e3o repetida da natureza.<\/p>\n<p>Ano ap\u00f3s ano, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, os moradores do Planalto Central perceberam que a sinfonia das cigarras costuma coincidir com aquele per\u00edodo em que a atmosfera come\u00e7a a abandonar a longa estiagem e Bras\u00edlia se aproxima novamente das \u00e1guas.<\/p>\n<p>Por isso, quando setembro chega aos \u00faltimos dias e o som come\u00e7a a ecoar entre \u00e1rvores, pr\u00e9dios e tesourinhas, muita gente j\u00e1 sabe o que fazer. Olhar para cima. Talvez as cigarras estejam apenas procurando amor. Para o brasiliense, contudo, aquele canto parece dizer outra coisa, porque \u00e9 hora de preparar o guarda-chuva que a seca est\u00e1 arrumando as malas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Carolina Paiva \u00e9 Editora de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes que a primeira grande chuva desabe sobre Bras\u00edlia, a natureza costuma mandar seus pr\u00f3prios mensageiros. N\u00e3o carregam guarda-chuvas, n\u00e3o consultam sat\u00e9lites nem acompanham mapas meteorol\u00f3gicos. Surgem das profundezas da terra, escalam \u00e1rvores e transformam o sil\u00eancio da seca numa verdadeira sinfonia. S\u00e3o as cigarras. 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