{"id":5741,"date":"2026-10-02T02:00:24","date_gmt":"2026-10-02T05:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5741"},"modified":"2026-09-30T16:58:17","modified_gmt":"2026-09-30T19:58:17","slug":"a-noite-de-estreia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasilia\/a-noite-de-estreia\/","title":{"rendered":"A noite de estreia"},"content":{"rendered":"<p>Isolada. Isolda se sentia isolada desde que o c\u00e2ncer lhe arrancara um seio. Afastou-se, talvez por culpa, talvez envergonhada, de familiares, amigos, conhecidos. Sobraram-lhe apenas os conflitos internos que travava especialmente durante as ins\u00f4nias.<\/p>\n<p>Certa feita, de volta do trabalho, Isolda caminhava alheia aos sonhos da rua quando murmurinhos chamaram a sua aten\u00e7\u00e3o. Virou o rosto e descobriu um boteco. Pela fachada, constatou que aquele estabelecimento estava por ali h\u00e1 tempos: <em>Bar do Bosco \u2014 Aqui o fregu\u00eas (quase) sempre tem raz\u00e3o desde 1983<\/em>.<\/p>\n<p>Um estranho sentimento se fez presente. Quis se enturmar. Aquela gente lhe pareceu flertar com a felicidade. A cerveja? O samba? Tantos sorrisos e at\u00e9 algumas gargalhadas que ecoavam.<\/p>\n<p>Abriu a porta do quarto e sala, um mundar\u00e9u que conhecia cada canto, cada fresta, cada mofo, cada de tudo, cada de nada. Decidida, tentou convencer qualquer des\u00e2nimo de que j\u00e1 passara da hora de se enturmar. Que aquela gente no bar era divertida. Que a vida precisava lhe sorrir.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3. Sim, amanh\u00e3. De amanh\u00e3 n\u00e3o passava. Iria direito da reparti\u00e7\u00e3o para o Bar do Bosco. Retocaria a maquiagem antes de se despedir dos colegas no servi\u00e7o. Que era necess\u00e1rio chegar apresent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Amanheceu. Lavou o rosto. Escovou os dentes, passou os dedos nos cabelos grisalhos, tintas estavam proibidas. Sorriu. Sorriu de novo. A voz saiu como deu:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 hoje, Isolda! Quem sabe at\u00e9 um namorado. Nem precisa ser gal\u00e3, mas que seja cheiroso.<\/p>\n<p>Tomou caf\u00e9, entrou debaixo do chuveiro, enxugou-se suavemente com a toalha mais felpuda. Arrumou-se para a noite de estreia. Retorno que fosse. Foi trabalhar.<\/p>\n<p>Manh\u00e3, tarde, quase hora de terminar o expediente. Foi ao banheiro, retocou a maquiagem. Linda! Bela! Apresent\u00e1vel. Era o que tinha. Que se dane!<\/p>\n<p>Isolda, como de costume, se despediu dos companheiros de labuta. Ningu\u00e9m pareceu notar nem sequer um risco de diferen\u00e7a. Se tinha, nem mesmo ela acreditava existir.<\/p>\n<p>Do outro lado da cal\u00e7ada, observou o movimento no Bar do Bosco. Tudo indicava que o ambiente estava ainda mais animado. Os olhos brilharam por um instante. Voltou para o quarto e sala.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3. Sim, amanh\u00e3. De amanh\u00e3 n\u00e3o passava!<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isolada. Isolda se sentia isolada desde que o c\u00e2ncer lhe arrancara um seio. Afastou-se, talvez por culpa, talvez envergonhada, de familiares, amigos, conhecidos. Sobraram-lhe apenas os conflitos internos que travava especialmente durante as ins\u00f4nias. 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