{"id":5957,"date":"2026-10-03T01:15:56","date_gmt":"2026-10-03T04:15:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=5957"},"modified":"2026-10-02T19:48:24","modified_gmt":"2026-10-02T22:48:24","slug":"o-principe-encantado-tambem-constroi-gaiolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/o-principe-encantado-tambem-constroi-gaiolas\/","title":{"rendered":"O pr\u00edncipe encantado tamb\u00e9m constr\u00f3i gaiolas"},"content":{"rendered":"<p>Chovia muito na ter\u00e7a-feira \u00e0 noite, e Sara ligou para seu noivo e disse que n\u00e3o precisava busc\u00e1-la na faculdade, como sempre fazia. \u201cDe forma alguma, Sara. N\u00e3o h\u00e1 por que voc\u00ea ir sozinha para casa, ainda mais nessa chuva\u201d, insistia Henrique.<\/p>\n<div>\n<p>Sara tinha 23 anos e cursava Direito em uma universidade tradicional no bairro de Botafogo. Todos os dias, ao final de suas aulas, l\u00e1 estava Henrique, sempre esperando-a na portaria da faculdade para lev\u00e1-la at\u00e9 sua casa.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da gradua\u00e7\u00e3o, o comportamento zeloso do noivo era bem recebido por ela, que, influenciada por seus pais, acreditava que o gesto cuidadoso do noivo de mant\u00ea-la protegida era um cavalheirismo praticamente extinto nos jovens de hoje. Entretanto, j\u00e1 havia algum tempo, estava saturada dessa rotina, sentindo-se controlada. O costume que inicialmente era bem recebido tornou-se uma frustra\u00e7\u00e3o para a vida de jovem universit\u00e1ria de Sara.<\/p>\n<p>Durante a semana de aulas, a jovem via seus amigos vivendo suas liberdades caracter\u00edsticas dos anos de juventude. Sara sentia-se frustrada ao ver os amigos marcando um barzinho, ao final das aulas, na Farani, rua conhecida em Botafogo por seus bares e pontos de encontro para happy hour. Tentou muitas vezes explicar ao noivo que n\u00e3o precisava busc\u00e1-la sempre, pois poderia voltar de metr\u00f4 com alguma amiga e, \u00e0s vezes, queria comer uma pizza com as meninas, sem pressa e sem preocupa\u00e7\u00e3o com hor\u00e1rio. Sua \u00faltima conversa com ele fora t\u00e3o desanimadora que ficara desolada por ter de explicar o \u00f3bvio mais uma vez. Para Henrique, era uma desfeita Sara dispens\u00e1-lo para ficar em um bar com colegas de turma, como se fosse uma mo\u00e7a qualquer.<\/p>\n<p>\u201cDevo ser um noivo p\u00e9ssimo por ficar preocupado com sua seguran\u00e7a! Essas suas amigas n\u00e3o t\u00eam quem as leve em casa, por isso ficam em barzinho at\u00e9 tarde. N\u00e3o fico confort\u00e1vel em saber que voc\u00ea ficar\u00e1 por a\u00ed, mas, se o que voc\u00ea quer \u00e9 se unir a essas garotas, s\u00f3 posso ficar decepcionado.\u201d<\/p>\n<p>Essas conversas n\u00e3o aconteceram uma \u00fanica vez. E Sara, sem for\u00e7as para lidar com a situa\u00e7\u00e3o, deixava passar os convites, inventava desculpas para as amigas, que, ing\u00eanuas, achavam o noivo de Sara um fofo! Um pr\u00edncipe atencioso! Ela, enquanto isso, sentia-se esgotada, consumida e sem luz.<\/p>\n<p>Em determinado dia, com tempo vago entre uma aula e outra, Sara e uma amiga estavam conversando sobre namoro, e a jovem confidenciou \u00e0 amiga o pesar que sentia por n\u00e3o poder curtir, como gostaria, os momentos com os amigos, que considerava tanto. Disse sentir-se triste por saber que em breve estariam formados, pensando no mercado de trabalho, cada um com sua vida, e que ela n\u00e3o teria vivido a \u00e9poca da faculdade com as descontra\u00e7\u00f5es e alegrias que poderia ter vivido.<\/p>\n<p>\u201cMas, Sara, seu namorado \u00e9 t\u00e3o bacana! Bem que eu queria que o Augusto me desse a aten\u00e7\u00e3o que o Henrique d\u00e1 a voc\u00ea. Sempre preocupado, espera voc\u00ea at\u00e9 com chuva de canivete! N\u00e3o vale a troca&#8230; um chope com amigas em troca de arrumar problema com um namorado como o seu.\u201d<\/p>\n<p>Sara se resignou \u00e0 fala de sua amiga. Era claro que ela n\u00e3o entenderia: o namorado da amiga vivia dando perdido nela; um opressor que preenchesse sua necessidade moment\u00e2nea de aten\u00e7\u00e3o e sua car\u00eancia seria o m\u00e1ximo. N\u00e3o era dela que receberia compreens\u00e3o e entendimento do que sentia.<\/p>\n<p>\u201cBom, n\u00e3o acho demais querer um tempo para respirar e curtir minhas amigas. Fico preocupada \u00e0s vezes: como vai ser quando formos casados? N\u00e3o fa\u00e7o mais nada da vida, n\u00e9? Eu e ele, eternamente\u201d, pensou consigo mesma.<\/p>\n<p>Depois da conversa com a amiga, Sara ficou dias pensando em seu relacionamento. Foi como se sua verbaliza\u00e7\u00e3o acendesse uma fogueira em seu cora\u00e7\u00e3o. Tudo ficou real, tomou forma, e ficou ainda mais pesado lidar com o controle excessivo do noivo.<\/p>\n<p>Por muito tempo, recusou-se a admitir, mas Sara sabia a verdade que reinava l\u00e1 no fundo: Henrique se sentia incomodado com os rapazes bonitos, com o clima de paquera que havia na faculdade. Galera jovem, livre e desimpedida, com os horm\u00f4nios \u00e0 flor da pele, em um ambiente onde tudo podia acontecer: esse era seu real temor. N\u00e3o queria dar brecha para ningu\u00e9m! Henrique n\u00e3o percebia que era o seu jeito mand\u00e3o de impor sua vontade em tudo que a estava cansando. Sara nunca teve d\u00favida do quanto o amava, mas pensar em uma vida a dois desse jeito a apavorava, a desanimava. Tinham planos de se casar assim que estivessem formados e trabalhando. Nesse momento, por\u00e9m, Sara se perguntava sobre a vida que a aguardaria em uma rela\u00e7\u00e3o na qual se sentia trancada em uma gaiola.<\/p>\n<p>Numa sexta-feira, fechando a semana, Sara estava encorajada a ter mais uma conversa com Henrique. Convidou-o para jantar em um restaurante pr\u00f3ximo e conversar um pouco. Era sexta-feira e ningu\u00e9m se levantaria cedo no dia seguinte. Ele ficou na defensiva, mas n\u00e3o p\u00f4de recusar o convite; sabia que l\u00e1 vinha mais press\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 no restaurante, pediram duas Cocas e umas entradinhas para petiscar. Assim que a conversa foi iniciada, Henrique rapidamente foi para seu discurso de protetor, mas isso j\u00e1 era esperado por Sara.<\/p>\n<p>\u201cEu s\u00f3 quero proteger voc\u00ea. Se voc\u00ea quer sair com suas amigas, n\u00e3o sou seu dono, mas n\u00e3o tem minha aprova\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 comprometida e quer fazer coisas de vida de solteiro. N\u00e3o concordo, Sara.\u201d<\/p>\n<p>Conforme imaginava, a conversa saiu como Sara previra. \u201cCom Henrique n\u00e3o h\u00e1 conversa. Ele sempre diz que cresceu vendo o pai destratar e intimidar a m\u00e3e, que nunca ser\u00e1 igual a ele, mas suas atitudes n\u00e3o me parecem t\u00e3o diferentes\u201d, pensou a jovem.<\/p>\n<p>E assim, os dias, semanas e meses foram passando. Apesar de ter conhecimento de que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava saud\u00e1vel, Sara anulava suas vontades, cedendo aos desejos do noivo. A cada convite dos amigos para os barzinhos que recusava gentilmente, a cada risada despreocupada que n\u00e3o vivia, sentia uma parte de sua juventude se esvair. A prote\u00e7\u00e3o e o amor de seu noivo, que antes eram sua vida, tornavam-se uma pris\u00e3o com portas abertas, mas da qual ela n\u00e3o conseguia sair.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o amorosa com o homem dos seus sonhos, o homem certo para ela e aprovado por sua fam\u00edlia, tornou-se uma escolha a fazer: amor ou liberdade?<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Fabiana Saka (@fabianasaka) \u00e9 psic\u00f3loga e escritora carioca, colaboradora do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio, de Notibras. Formada em Psicologia, com especializa\u00e7\u00e3o em Terapia Familiar e media\u00e7\u00e3o de conflitos, atua h\u00e1 mais de 14 anos na cl\u00ednica. \u00c9 autora de <em>As Aventuras de Daniel: N\u00e3o Tenha Medo de Si Mesmo<\/em> (2024) e <em>As Aventuras de Daniel: eu ajudo em casa<\/em> (2026).<\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chovia muito na ter\u00e7a-feira \u00e0 noite, e Sara ligou para seu noivo e disse que n\u00e3o precisava busc\u00e1-la na faculdade, como sempre fazia. \u201cDe forma alguma, Sara. N\u00e3o h\u00e1 por que voc\u00ea ir sozinha para casa, ainda mais nessa chuva\u201d, insistia Henrique. 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