{"id":6013,"date":"2026-10-04T00:00:37","date_gmt":"2026-10-04T03:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6013"},"modified":"2026-10-03T18:10:20","modified_gmt":"2026-10-03T21:10:20","slug":"a-porta-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/a-porta-da-igreja\/","title":{"rendered":"A porta da igreja"},"content":{"rendered":"<p>Todo domingo, \u00e0s onze horas, a Igreja de Nossa Senhora da Esperan\u00e7a abria as portas com o mesmo som de madeira antiga. O padre Ant\u00f4nio subia ao altar, ajeitava o microfone e come\u00e7ava a missa com a voz firme de quem j\u00e1 repetiu as mesmas palavras mil vezes. Na primeira fila, quase sempre, estava Dona Helena. Cabelo branco, ter\u00e7o enrolado nos dedos, b\u00edblia de capa de couro no colo. Ela conhecia de cor todos os salmos e corrigia, em voz baixa, quem errava a resposta da assembleia.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s dela, no fundo da igreja, sentava-se Seu Joaquim. Homem quieto, m\u00e3os calejadas, camisa surrada. Raramente falava. Apenas escutava, a cabe\u00e7a baixa, como se as palavras entrassem nele de um jeito diferente.<\/p>\n<p>Naquele domingo, depois da comunh\u00e3o, o padre falou sobre o amor ao pr\u00f3ximo. Disse que a f\u00e9 sem obras \u00e9 morta. Disse que amar o irm\u00e3o \u00e9 a prova verdadeira de quem cr\u00ea. Dona Helena assentiu com vigor, batendo levemente no peito. V\u00e1rios fi\u00e9is murmuraram &#8220;am\u00e9m&#8221;. Seu Joaquim apenas continuou olhando para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a missa terminou, o povo come\u00e7ou a sair. Na cal\u00e7ada, encostado no muro da igreja, estava um homem magro, de uns quarenta anos, com uma sacola pl\u00e1stica na m\u00e3o e o olhar cansado. Chamava-se Marcos. Pediu esmola em voz baixa, quase envergonhado:<\/p>\n<p>\u2014 Um trocado, por favor&#8230; s\u00f3 pra comer.<\/p>\n<p>Dona Helena passou por ele com o ter\u00e7o ainda na m\u00e3o. N\u00e3o parou. N\u00e3o olhou. Apenas apertou a bolsa contra o corpo e murmurou para a amiga que vinha ao lado:<\/p>\n<p>\u2014 Esses a\u00ed s\u00f3 querem aproveitar. Tem que trabalhar.<\/p>\n<p>A amiga, chamada Tereza, concordou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. E ainda ficam na porta da igreja&#8230; falta de vergonha.<\/p>\n<p>Mais adiante, um grupo de jovens que tinha cantado no coral tamb\u00e9m passou. Um deles, Pedro, falou alto o bastante para ser ouvido:<\/p>\n<p>\u2014 Eu tenho f\u00e9, mas n\u00e3o sou ot\u00e1rio.<\/p>\n<p>Marcos baixou a cabe\u00e7a. Continuou ali, im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Seu Joaquim saiu pela porta lateral. Parou na frente de Marcos, tirou do bolso uma nota dobrada e a colocou na m\u00e3o dele, sem dizer quase nada:<\/p>\n<p>\u2014 Vai l\u00e1 no bar do seu Z\u00e9. Pede um prato feito. Fala que eu mandei.<\/p>\n<p>Marcos levantou os olhos, surpreso. Joaquim apenas fez um gesto leve com a cabe\u00e7a e seguiu andando, como quem n\u00e3o tinha feito nada de especial.<\/p>\n<p>Do outro lado da rua, Dona Helena ainda conversava sobre a homilia.<\/p>\n<p>\u2014 Bonita a palavra de hoje, n\u00e3o foi? \u2014 dizia ela. A gente precisa ter mais f\u00e9 neste mundo.<\/p>\n<p>Tereza assentiu:<\/p>\n<p>\u2014 Muita f\u00e9. O mundo est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>Nenhuma das duas viu Seu Joaquim atravessar a rua. Nenhuma das duas viu Marcos entrar no bar do seu Z\u00e9 com a nota na m\u00e3o. E nenhuma das duas percebeu que, enquanto falavam de f\u00e9, o amor ao pr\u00f3ximo tinha acabado de passar quieto por elas, sem fazer barulho, sem pedir aplauso, sem precisar de microfone.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a f\u00e9 sobe ao altar e fala alto.<\/p>\n<p>Outras vezes, ela apenas coloca uma nota na m\u00e3o de algu\u00e9m e continua andando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo domingo, \u00e0s onze horas, a Igreja de Nossa Senhora da Esperan\u00e7a abria as portas com o mesmo som de madeira antiga. O padre Ant\u00f4nio subia ao altar, ajeitava o microfone e come\u00e7ava a missa com a voz firme de quem j\u00e1 repetiu as mesmas palavras mil vezes. Na primeira fila, quase sempre, estava Dona [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6014,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"tmauthors":[30],"class_list":["post-6013","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-cafe-literario"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6013","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6013"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6013\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6016,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6013\/revisions\/6016"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6014"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6013"},{"taxonomy":"tmauthors","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tmauthors?post=6013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}