{"id":6059,"date":"2026-10-04T01:15:13","date_gmt":"2026-10-04T04:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6059"},"modified":"2026-10-04T06:07:04","modified_gmt":"2026-10-04T09:07:04","slug":"o-lado-b-da-literatura-gilberto-amado-e-o-passado-que-nao-se-arruma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/o-lado-b-da-literatura-gilberto-amado-e-o-passado-que-nao-se-arruma\/","title":{"rendered":"O Lado B da Literatura: Gilberto Amado e o passado que n\u00e3o se arruma"},"content":{"rendered":"<p>Gilberto Amado desconfiou, j\u00e1 velho, de que a culpa fosse da fome. Seus acessos de f\u00faria coincidiam com a hora de comer, e ele passou a tomar sopa antes de se expor a reuni\u00f5es capazes de lhe testar a paci\u00eancia. O embaixador Jos\u00e9 Sette C\u00e2mara, que contou o caso, n\u00e3o sabia se o diagn\u00f3stico de hipoglicemia estava certo. Os incidentes, por\u00e9m, diminu\u00edram. Depois de tanta discuss\u00e3o sobre o Brasil, restava ao escritor negociar com o pr\u00f3prio est\u00f4mago.<\/p>\n<p>A diplomacia lhe dera muito trabalho, inclusive fora de casa. Nascido em Est\u00e2ncia, Sergipe, em 1887, o mais velho de catorze irm\u00e3os estudara Farm\u00e1cia na Bahia e Direito no Recife. Em 1910, chegara ao Rio para trabalhar na imprensa. Viria a ser deputado, senador, professor de Direito e embaixador, al\u00e9m de integrar a Comiss\u00e3o de Direito Internacional da ONU. Atravessou tudo isso sem perder o menino que reparava nas coisas e o adulto que se julgava autorizado a dizer o que pensava delas.<\/p>\n<p>Esse menino est\u00e1 nos cinco volumes de mem\u00f3rias publicados entre 1954 e 1960. Em <em>Hist\u00f3ria da minha inf\u00e2ncia<\/em>, o jantar chega \u00e0 mesa \u00e0s duas da tarde. O p\u00e3o tem o cheiro da padaria pr\u00f3xima ao armaz\u00e9m do av\u00f4. Colher ara\u00e7\u00e1 oferece um pretexto para namorar. A vida cabe em lembran\u00e7as que uma biografia respeit\u00e1vel poderia dispensar, ocupada demais com diplomas e nomea\u00e7\u00f5es. Gilberto teve o bom senso liter\u00e1rio de guardar as cocadas.<\/p>\n<p>Guardou tamb\u00e9m os castigos da escola, as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias da vida de estudante, os costumes pol\u00edticos. Suas mem\u00f3rias permitem conhecer um pa\u00eds que os discursos oficiais deixavam do lado de fora. Incomodava-o que os cr\u00edticos elogiassem tanto a maneira de escrever e t\u00e3o pouco aquilo que escrevia. O homem queria discutir ideias e recebia cumprimentos pela frase. D\u00e1 para compreender a irrita\u00e7\u00e3o, mesmo sem concordar com todos os modos de manifest\u00e1-la.<\/p>\n<p>Em Paris, tinha uma afei\u00e7\u00e3o particular por uma mocinha. Era como chamava Notre-Dame. Recomendava aos brasileiros que fossem visit\u00e1-la, encantado com aquela beleza de pedra. Ribeiro Couto adotou a brincadeira e passou a mandar lembran\u00e7as para a mo\u00e7oila nas cartas. \u00c0 noite, depois do jantar, os dois conversavam diante da catedral. Falavam do Brasil com uma anima\u00e7\u00e3o que fazia os passantes se virarem. A Fran\u00e7a fornecia o cen\u00e1rio, mas o assunto continuava brasileiro.<\/p>\n<p>Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, em 29 de agosto de 1964, Gilberto Amado homenageou Ribeiro Couto, o amigo a quem sucedia na cadeira 26. Em seu discurso, lembrou o \u00faltimo almo\u00e7o dos dois em Paris. Couto j\u00e1 n\u00e3o enxergava. Procurava os talheres sobre a toalha, saboreava a comida e falava sem parar. Amado esperou alguma queixa sobre a cegueira. Ela n\u00e3o veio. Na despedida, o amigo acenou na dire\u00e7\u00e3o errada, sem conseguir v\u00ea-lo. Amado chorou. Ao recordar aquela tarde diante dos acad\u00eamicos, deixou um retrato da amizade que nenhuma rela\u00e7\u00e3o de cargos seria capaz de transmitir.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo comovente nesse homem que, diante de uma catedral europeia, via aparecer a igrejinha sergipana da inf\u00e2ncia. A dist\u00e2ncia aumentava o tamanho do que trazia de casa. O diplomata podia cruzar o oceano quantas vezes quisesse. Itaporanga ia junto, com a escola de S\u00e1 Limpa, a m\u00e3e Donana e o pai Seu Melk. No discurso de posse na Academia, todas essas pessoas entrariam com ele.<\/p>\n<p>Outra lembran\u00e7a exigiria acomoda\u00e7\u00f5es menos afetuosas. Em 19 de junho de 1915, Gilberto Amado, aos 28 anos e rec\u00e9m-empossado deputado, matou a tiros o poeta An\u00edbal Te\u00f3filo. Aconteceu ao final da Hora Liter\u00e1ria, promovida pela Sociedade Brasileira dos Homens de Letras no <em>Jornal do Commercio<\/em>, na Avenida Rio Branco. An\u00edbal havia recitado. Amado assistira da plateia. Os escritores reuniam-se para defender seus interesses profissionais. A festa acabou com um poeta morto.<\/p>\n<p>Pode-se reconstituir o fato a partir do que publicou a imprensa da \u00e9poca: houve uma desfeita no cumprimento, seguida de discuss\u00e3o e luta corporal entre An\u00edbal e Paulo Hasslocher, amigo de Amado. Vieram ent\u00e3o os disparos. Amado sustentaria que sofria amea\u00e7as e humilha\u00e7\u00f5es anteriores. Bilac, ouvido sobre encontros que presenciara, declarou n\u00e3o ter testemunhado aquelas ofensas. A vers\u00e3o do homem que sobreviveu ao epis\u00f3dio encontrava resist\u00eancia j\u00e1 entre seus contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Evaristo de Moraes assumiu a defesa. Amado foi absolvido em 1916 e, ap\u00f3s recurso da acusa\u00e7\u00e3o, novamente em 1918. A tese era a priva\u00e7\u00e3o dos sentidos, admitida pela legisla\u00e7\u00e3o penal daquele tempo. A carreira prosseguiu, com novos mandatos e miss\u00f5es no exterior. O nome cresceu. An\u00edbal, autor de <em>Rimas<\/em>, foi ficando cada vez mais dependente da not\u00edcia de sua morte para ser lembrado.<\/p>\n<p>Ao escrever <em>Presen\u00e7a na pol\u00edtica<\/em>, Amado destinou ao epis\u00f3dio o cap\u00edtulo \u201cTerr\u00edvel prova\u201d. Explicou por que o retirara da ordem dos acontecimentos: \u201cQuebrei o seguimento cronol\u00f3gico para n\u00e3o abrir o volume com ele\u201d. \u00c9 uma frase reveladora. O autor podia escolher a porta pela qual o leitor entraria em sua vida. Preferiu receb\u00ea-lo por outra.<\/p>\n<p>No relato, apresentou-se como o \u201crapazinho\u201d que era, um \u201cmenino\u201d de sensibilidade excepcional. Tinha 28 anos na ocasi\u00e3o. Segundo Araujo, atravessou o cap\u00edtulo sem mencionar o nome de An\u00edbal Te\u00f3filo. Lembrava a morte, mas o centro da dor permanecia ocupado por ele pr\u00f3prio. A qualidade da prosa torna a passagem ainda mais inc\u00f4moda, porque a eloqu\u00eancia pode nos aproximar tanto de quem conta que mal percebemos quem ficou sem voz.<\/p>\n<p>Nem a gera\u00e7\u00e3o seguinte se livrou dessa disputa. Em 1979, Arnaldo Rodrigues, neto de An\u00edbal, apresentou \u00e0 imprensa a pesquisa para uma biografia do av\u00f4. O filho de Amado reagiu judicialmente. Defendido por Sobral Pinto, Arnaldo obteve decis\u00e3o favor\u00e1vel no Supremo em 1982. Ainda assim, desistiu da publica\u00e7\u00e3o. O livro ficou pelo caminho.<\/p>\n<p>Talvez seja um escritor que ainda valha a pena ler, com aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao que nos pede que aceitemos. O menino das cocadas, o visitante de Notre-Dame, o amigo que chora e o homem que dispara pertencem \u00e0 mesma vida, encerrada em 1969. Ao abri-la de novo, podemos acompanhar Gilberto Amado por suas ruas e salas, ouvir suas hist\u00f3rias, rir de sua sopa. Mas, quando chegarmos \u00e0quela tarde no <em>Jornal do Commercio<\/em>, An\u00edbal Te\u00f3filo precisa tamb\u00e9m estar l\u00e1, com o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><br \/>\n<strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio e fundador da Editora Fava, \u00e9 autor de <em>A Verdade nos Seres<\/em> (poesia, 2024) e <em>Territ\u00f3rio do Sonho<\/em> (contos, 2026). @prof.danielmarchi.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilberto Amado desconfiou, j\u00e1 velho, de que a culpa fosse da fome. Seus acessos de f\u00faria coincidiam com a hora de comer, e ele passou a tomar sopa antes de se expor a reuni\u00f5es capazes de lhe testar a paci\u00eancia. 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