{"id":6117,"date":"2026-10-05T00:45:21","date_gmt":"2026-10-05T03:45:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6117"},"modified":"2026-10-04T21:30:16","modified_gmt":"2026-10-05T00:30:16","slug":"guerreiros-de-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/guerreiros-de-sonho\/","title":{"rendered":"Guerreiros de sonho"},"content":{"rendered":"<p>Aproximava-se a hora do duelo. Os guerreiros de sonho come\u00e7aram a preparar-se.<\/p>\n<p>Os xam\u00e3s das tribos em conflito reuniram-se em torno dos dois contendores, invocando os esp\u00edritos para favorecer o seu campe\u00e3o. Ao mesmo tempo, forneciam-lhes meios de acesso mais r\u00e1pido ao plano dos deuses \u2013 na verdade, um patamar acess\u00edvel a todos que tivessem um m\u00ednimo de dotes ps\u00edquicos. E ambos, em geral pertencentes a linhagens de sonhadores renomados, tinham imagina\u00e7\u00e3o, intui\u00e7\u00e3o e outros atributos do psiquismo relativamente desenvolvidos.<\/p>\n<p>Os atalhos para esse plano variavam conforme as tradi\u00e7\u00f5es da tribo e os ensinamentos dos mentores. Alguns guerreiros comiam cogumelos cuja carne abria as portas da percep\u00e7\u00e3o; outros fumavam ervas de poder, e havia quem ingerisse cuias e mais cuias do licor sagrado. Mas isso acontecia poucas vezes, pois era grande o risco de beber em demasia, e o sono leve de um combatente de sonho degenerar no ressonar pesado da embriaguez.<\/p>\n<p>Os motivos para o confronto tamb\u00e9m variavam. O controle sobre uma f\u00e9rtil \u00e1rea de pastagem, ou de ca\u00e7a e pesca abundante; a descoberta de jazidas minerais em determinado local; por vezes, apenas o flexionar dos m\u00fasculos, em sentido figurado, de um grupo jovem e agressivo, consciente de sua for\u00e7a e decidido a testar seus limites \u2013 pretextos para o enfrentamento jamais faltavam.<\/p>\n<p>O desenrolar do combate era conhecido por todos. Os guerreiros de sonho, j\u00e1 em transe leve, eram conduzidos pelos xam\u00e3s da tribo a leitos cobertos por peles, situados em campos opostos do grande sal\u00e3o de combate. Deitavam-se e dormiam. E sonhavam.<\/p>\n<p>Os acompanhantes esperavam, pacientemente, pelas proje\u00e7\u00f5es on\u00edricas nas paredes do sal\u00e3o. Algumas enfatizavam a ca\u00e7a, outros, o cultivo de cereais; nas imagens, erguiam-se aldeias ou conservava-se um local praticamente intocado. As figuras sucediam-se com rapidez, representando semanas, meses, anos, e aos poucos ficava evidente qual guerreiro sonhava com iniciativas que aumentavam mais o bem-estar de seu grupo, com o m\u00ednimo de inevit\u00e1vel destrui\u00e7\u00e3o ambiental. Quando todos se convenciam de que um deles desenvolvera, em seus sonhos, as melhores solu\u00e7\u00f5es para o coletivo, os dois eram acordados e a tribo do vitorioso recebia o controle da pastagem ou do terreno de ca\u00e7a e pesca abundante, ou do trecho com jazidas minerais.<\/p>\n<p>Certo dia, por\u00e9m, a tribo soube da aproxima\u00e7\u00e3o de um grupo desconhecido. Foram enviados representantes para estabelecer contato, mas os embaixadores foram mortos. Quando soube da chacina, a tribo abandonou suas terras tradicionais e se refugiou numa \u00e1rea distante e in\u00f3spita. Nela, armas tradicionais foram retomadas, os guerreiros de sonho deixaram de ser admirados como her\u00f3is do grupo e todos os meninos e jovens treinavam dia e noite, ansiosos por se destacar no manejo de arcos e flechas, lan\u00e7as e ma\u00e7as. E todos sonhavam, mas em vig\u00edlia, com o dia em que abateriam o odiado inimigo que os for\u00e7ara a fugir e retomariam as terras de seus ancestrais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproximava-se a hora do duelo. Os guerreiros de sonho come\u00e7aram a preparar-se. Os xam\u00e3s das tribos em conflito reuniram-se em torno dos dois contendores, invocando os esp\u00edritos para favorecer o seu campe\u00e3o. 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