{"id":6201,"date":"2026-10-06T01:15:54","date_gmt":"2026-10-06T04:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6201"},"modified":"2026-10-05T18:51:36","modified_gmt":"2026-10-05T21:51:36","slug":"fruto-permitido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/fruto-permitido\/","title":{"rendered":"Fruto permitido"},"content":{"rendered":"<p>Sheila, 21 anos, era uma jovem alegre e extrovertida, que adorava se pegar com seus muitos peguetes. Mas havia em sua vida er\u00f3tico-sexual-sentimental um fruto proibido: ela arrastava um bonde por Lucas, um rapaz de 18 anos, igualmente alegre e extrovertido.<\/p>\n<p>\u201cQual o problema? M\u00f3 normal uma jovem ficar com um carinha tr\u00eas anos mais mo\u00e7o\u201d, dir\u00e3o voc\u00eas. Explico: Sheila era a irm\u00e3 muit\u00edssimo mais jovem do pai de Lucas. Ou seja, ela era tia dele.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o era um obst\u00e1culo de ordem legal, pois desde 1941 \u00e9 permitido no Brasil o chamado casamento avuncular, entre pessoas com esse grau de parentesco; al\u00e9m do mais, a mo\u00e7oila n\u00e3o tinha a menor inten\u00e7\u00e3o de desposar Lucas, s\u00f3 de com\u00ea-lo com farinha. O problema era o impacto que o relacionamento teria em uma fam\u00edlia cat\u00f3lica, mais que conservadora.<\/p>\n<p>\u201cAbsurdo\u201d, pensava Sheila. \u201cTodo mundo acha normal um homem mais velho se relacionar com uma mulher mais jovem, e ningu\u00e9m liga se ela for sobrinha dele. Mas se eu passar Lucas na cara \u2014 uma trepadinha ou duas, n\u00e3o mais que isso \u2013 vai ser um perrengue\u201d.<\/p>\n<p>O fato foi que a press\u00e3o social afastou os ex-quase-futuros amantes, que jamais foram pra cama; limitaram-se a trocar, em certa noite enluarada, beijos t\u00f3rridos, inesquec\u00edveis. Em seguida, a vida ampliou o afastamento. Os pais de Sheila foram morar em outro estado, ela os acompanhou, envolveu-se com um rapaz, casou com ele, teve filhos, descasou, enviuvou&#8230; o de sempre, ao molho. Mas jamais esqueceu Lucas.<\/p>\n<p>Por sua vez, ele teve experi\u00eancias quase id\u00eanticas. E, claro, jamais esqueceu Sheila.<\/p>\n<p>Os vi\u00favos se encontraram de novo quase 55 anos depois, no vel\u00f3rio de um primo de Lucas. Idoso, frequenta esse tipo de evento com um certo al\u00edvio, pensando \u201cainda bem que foi ele, n\u00e3o eu\u201d, e sem experimentar uma tristeza profunda, pois sabe que todos v\u00e3o embora algum dia (at\u00e9 ele, injusti\u00e7a sem nome). Seja como for, os dois se olharam, pareceram surpresos, olharam-se de novo e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Lu&#8230;Lucas?!<\/p>\n<p>\u2014 Sheila?!<\/p>\n<p>O olhar dos dois maduros se entrela\u00e7ou, suas bocas de poucos dentes sorriram, come\u00e7aram a conversar, mergulhados um no outro; a essa altura, o falecido poderia ressuscitar e sair voando pela janela, que o casal reencontrado nem notaria. Quinze minutos depois, decidiram deixar o vel\u00f3rio e ir para um local mais discreto, para conversar \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Foram para um hotel.<\/p>\n<p>No quarto, olharam-se com aten\u00e7\u00e3o; foi como se a realidade se dividisse em dois planos. Sheila via, sobreposta \u00e0 figura daquele velho de bra\u00e7os fl\u00e1cidos e careca, a imagem de um rapaz de sorriso atrevido, sobre quem costumava pensar com as palavras \u201cmeu menino lindo\u201d. Lucas avistava, junto \u00e0quela velhinha de pele enrugada e seios fl\u00e1cidos, uma jovem risonha e de corpo escultural, a quem tantas vezes homenageara com suas masturba\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Lembra daquela noite? \u2014 disseram ambos. E riram, tinham pensado ao mesmo tempo na noite enluarada dos beijos t\u00f3rridos.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea ainda gosta de beijar? \u2014 provocou Lucas.<\/p>\n<p>\u2014 Adoro! \u2014 admitiu Sheila, sem um pingo de timidez.<\/p>\n<p>Beijaram-se como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea gosta de &#8230; \u2014 Lucas completou a pergunta com um murm\u00fario, no ouvido de Sheila.<\/p>\n<p>\u2014 Claro!!! \u2014 e baixando a voz:<\/p>\n<p>\u2014 E retribuo, taradinho querido.<\/p>\n<p>[Sou um contista austero, n\u00e3o vou escrever do que ela gostava, como pagava na mesma moeda, nem por que o chamou de taradinho. Entendedores entender\u00e3o.]<\/p>\n<p>Os deuses devem ter sorrido, ao ver os dois velhinhos enroscando-se na \u00faltima, decididos a tirar um atraso de mais de 50 anos. O lance ia al\u00e9m da dimens\u00e3o f\u00edsica, que libido de, digamos, s\u00eanior n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 essas coisas. Mas amor n\u00e3o tem idade, e o deles floresceu, livre e solto, como se unisse uma jovem de 21 anos e um jovem de 18.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sheila, 21 anos, era uma jovem alegre e extrovertida, que adorava se pegar com seus muitos peguetes. Mas havia em sua vida er\u00f3tico-sexual-sentimental um fruto proibido: ela arrastava um bonde por Lucas, um rapaz de 18 anos, igualmente alegre e extrovertido. \u201cQual o problema? 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