{"id":6287,"date":"2026-10-06T19:07:49","date_gmt":"2026-10-06T22:07:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6287"},"modified":"2026-10-06T19:10:33","modified_gmt":"2026-10-06T22:10:33","slug":"mandacaru-floresce-no-sertao-sem-comer-prato-do-sapo-barbudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/eleicoes-2026\/mandacaru-floresce-no-sertao-sem-comer-prato-do-sapo-barbudo\/","title":{"rendered":"Mandacaru floresce no Sert\u00e3o sem comer prato do &#8216;Sapo Barbudo&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Abro este texto em verso,<br \/>\ncomo manda a tradi\u00e7\u00e3o:<br \/>\nquem quer saber do Brasil<br \/>\nprecisa ouvir o Sert\u00e3o.<br \/>\nFoi no voto, e n\u00e3o no grito,<br \/>\nque se ouviu a mudan\u00e7a, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O cordel sempre foi o jornal de quem n\u00e3o tinha jornal. Pendurado no barbante da feira, contava ao povo o que os poderosos n\u00e3o contavam. A hist\u00f3ria que as urnas escreveram em 4 de outubro merece um cordel.<\/p>\n<p>No Sert\u00e3o, o mandacaru \u00e9 o sinal de que a vida resiste. Quando todo o resto seca, ele floresce. E o sertanejo sabe: quando o mandacaru d\u00e1 flor, a chuva est\u00e1 perto.<\/p>\n<p>O primeiro turno teve cara de mandacaru. Fl\u00e1vio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos v\u00e1lidos, contra 45,16% de Lula. E o mais revelador: em rela\u00e7\u00e3o a 2022, Lula perdeu votos em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. No Sul, caiu 5,5 pontos. No Centro-Oeste, 5,2. No Sudeste, 2,9. No Norte, 2,5.<\/p>\n<p>At\u00e9 no Nordeste, onde o presidente ainda venceu com folga, a flor apareceu. Lula caiu 3 pontos em rela\u00e7\u00e3o a 2022, e Fl\u00e1vio teve 3,9 pontos a mais do que Jair Bolsonaro h\u00e1 quatro anos. N\u00e3o \u00e9 uma virada. \u00c9 um sinal. E quem \u00e9 do sert\u00e3o sabe ler sinal.<\/p>\n<p>No bumba meu boi, o boi morre no meio da festa. O povo chora, o povo lamenta. Mas a\u00ed chega o paj\u00e9, faz a reza, e o boi se levanta. A festa recome\u00e7a mais forte do que antes.<\/p>\n<p>Muita gente deu como morta a esperan\u00e7a de mudan\u00e7a no Brasil. Disseram que a elei\u00e7\u00e3o estava decidida, que n\u00e3o havia o que fazer. O boi se levantou no dia 4. E n\u00e3o se levantou sozinho: levantou-se com 56 milh\u00f5es de votos, com a maior bancada do Senado e com a bolsa batendo recorde no dia seguinte.<\/p>\n<p>No mamulengo, o mestre se esconde atr\u00e1s do pano e mostra s\u00f3 os bonecos. A plateia se encanta, aplaude e vai embora. Terminado o espet\u00e1culo, cada boneco volta para a mala.<\/p>\n<p>No dia da vota\u00e7\u00e3o, Lula posou com a bandeira do Brasil para os fot\u00f3grafos e, terminadas as fotos, entregou-a ao fot\u00f3grafo oficial, que a guardou no bolso. N\u00e3o houve desrespeito, e quem disse o contr\u00e1rio mentiu. Mas a cena verdadeira j\u00e1 basta: a bandeira apareceu quando havia plateia e saiu de cena quando a foto acabou.<\/p>\n<p>O sertanejo sabe a diferen\u00e7a entre o boneco e o homem. O boneco aparece na festa. O homem aparece na seca.<\/p>\n<p>Durante anos, a promessa foi a moeda mais forte da pol\u00edtica brasileira. Prometia-se picanha, prometia-se emprego, prometia-se um pa\u00eds mais leve. O eleitor acreditou, esperou e cansou. Promessa repetida demais perde o valor, como c\u00e9dula que passa de m\u00e3o em m\u00e3o at\u00e9 ningu\u00e9m mais aceitar.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 promessa que resista \u00e0 conta do supermercado, ao imposto que subiu, ao cr\u00e9dito que ficou mais caro. O brasileiro de hoje tem no bolso um celular que mostra o que antes ficava escondido. Ele l\u00ea, compara, desconfia, pergunta. A informa\u00e7\u00e3o chegou ao sert\u00e3o, \u00e0 periferia, \u00e0 cidade pequena. E com ela chegou uma consci\u00eancia que assusta quem sempre contou com o eleitor desatento: a de que o voto tem poder.<\/p>\n<p>O voto de cada um, somado, pode tirar do comando quem se acostumou a operar o sistema. Foi o que o primeiro turno come\u00e7ou a mostrar.<\/p>\n<p>Quem passou anos construindo narrativas est\u00e1 prestes a ouvir a verdade. E a verdade, desta vez, n\u00e3o vem de manchete nem de palanque. Vem da urna. O povo acordou.<\/p>\n<p>Todo cordel termina com uma li\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 simples: o Brasil n\u00e3o pediu um espet\u00e1culo. Pediu mudan\u00e7a. E come\u00e7ou a dizer isso nas urnas.<\/p>\n<p>No dia 25, o povo escreve o \u00faltimo verso.<\/p>\n<p>O mandacaru deu flor,<br \/>\no boi voltou a dan\u00e7ar,<br \/>\no boneco foi pra mala,<br \/>\ne o povo h\u00e1 de votar.<br \/>\nNo vinte e cinco de outubro<br \/>\n\u00e9 o Brasil que vai falar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abro este texto em verso, como manda a tradi\u00e7\u00e3o: quem quer saber do Brasil precisa ouvir o Sert\u00e3o. Foi no voto, e n\u00e3o no grito, que se ouviu a mudan\u00e7a, ent\u00e3o. O cordel sempre foi o jornal de quem n\u00e3o tinha jornal. 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