{"id":6720,"date":"2026-10-11T03:05:48","date_gmt":"2026-10-11T06:05:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6720"},"modified":"2026-10-11T04:17:20","modified_gmt":"2026-10-11T07:17:20","slug":"ganhando-ou-perdendo-show-da-vida-deve-continuar-mostrando-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/ganhando-ou-perdendo-show-da-vida-deve-continuar-mostrando-felicidade\/","title":{"rendered":"Ganhando ou perdendo, show da vida deve continuar mostrando felicidade"},"content":{"rendered":"<p>Bem longe do estilo Jeca Tatu, igualzinho ao promotor de medicamentos sem efic\u00e1cia alguma, cresci como menino levado, parceiro do Jeca Total. Jamais concordei com a tese vestibulanda de que a felicidade tem a ver com o tamanho da conta banc\u00e1ria, com as viagens ao exterior ou com o carro do ano. Percebi que ela (a felicidade) \u00e9 algo muito mais valioso quando agradei meu gerente com um polpudo saldo m\u00e9dio. Tamb\u00e9m n\u00e3o a encontrei. Consolidei meus ideais mais simpl\u00f3rios ao descobrir que viajar pelo interior de Fiat Uno duas portas me garantia o mesmo prazer de fazer o trajeto montado em uma Mercedes.<\/p>\n<p>Isso quando eu conseguia chegar. Eleger o presidente dos meus sonhos virou utopia. Nada de mais para quem s\u00f3 pensa em ser feliz. Robusteci a ideia de ser humano humanizado ao notar que, embora tenhamos ideologias diferentes, eu e meu vizinho ocupamos o mesmo espa\u00e7o. Logo, somos iguais. Passei a prestar aten\u00e7\u00e3o no que havia \u00e0 minha volta, esqueci a revolta pol\u00edtica e deixei definitivamente de ser infeliz. Longe de mim falar sobre a necessidade de o povo votar bem e da desnecessidade do dinheiro, mas, antes dele ser prioridade, \u00e9 preciso valorizar o que se tem agora. Pensando nisso, mesmo sendo derrotado politicamente, n\u00e3o deixo mais de aproveitar os pequenos e bons momentos.<\/p>\n<p>Afinal, ao partirmos deste mundo terreno e da vida que \u00e9 uma escola s\u00f3 deixamos saudades e n\u00e3o levamos sequer uma sacola. Enfim, felicidade \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de ser. Ela pode ser um barquinho de papel, um freezer at\u00e9 o topo de cerveja, um Congresso de senhores s\u00e9rios e honestos e tamb\u00e9m uma camisinha furada. Como sentimento que n\u00e3o tem idade e n\u00e3o acaba, ela s\u00f3 depende de n\u00f3s.\u00a0 mas, com o passar do tempo, tende a mudar de lugar. Muitas das vezes, mais importante do que o amor perdido e o t\u00edtulo de eleitor sem valor \u00e9 o sussurro nas orelhas, seguido de um dedo ungido e melado de vaselina durante o exame de pr\u00f3stata.<\/p>\n<p>\u00c9 fechar os olhos, tirar a maquiagem pesada e enganadora de macho, mostrar a cara e viajar com destino ao Eden. Contrariando o poeta e minhas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, eis o motivo mais aut\u00eantico de se buscar a mais dolorida e prazerosa forma de felicidade. Fil\u00f3sofos e especialistas no uso do dedo m\u00e9dio da m\u00e3o direita s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que a lei do sorriso largo revela que certos prazeres trazem mais dor do que felicidade. Segundo eles, quando as duas se encontram, n\u00e3o h\u00e1 quem segure as batidas aceleradas de gratid\u00e3o imagin\u00e1ria guardadas do lado direito do peito. Portanto, deixem de lado o baixo astral e permitam a entrada de luz por onde s\u00f3 sai lombrigas.<\/p>\n<p>Preservados o bigode e os pelos \u201cpluvianos\u201d, \u00e9 fundamental n\u00e3o esquecer que, antes da viagem definitiva, os olhos caem, os l\u00e1bios murcham, o saco encolhe, as pernas bambeiam, as m\u00e3os enrugam e o pinto para de piar. Por essas raz\u00f5es, \u00e9 bom transformar os detalhes, as min\u00facias e as filigranas em algo capaz de somar \u00e0 exist\u00eancia. Com muita paci\u00eancia, amadurecimento e valoriza\u00e7\u00e3o de minha jornada terrestre, fiz isso e n\u00e3o me arrependo. Embora n\u00e3o tenha mais pressa, procuro n\u00e3o perder tempo. Diria que ca\u00ed na real. Dos 10 aos 20, dos 30 aos 50 e at\u00e9 hoje vivo como algu\u00e9m que optou por ser normal.<\/p>\n<p>Atualmente estou cada vez mais distante daquele que um dia se julgou uma \u00e1guia escolhendo o que iria comer. D\u00e9cadas ap\u00f3s ter nascido, lembro mais um papagaio, daqueles que fala, fala e n\u00e3o pega ningu\u00e9m. Talvez esteja mais para um lobo bom, do tipo que dispensa a Chapeuzinho Vermelho porque n\u00e3o consegue viver longe da vovozinha. Resumindo, estou pr\u00f3ximo do beco sem sa\u00edda. N\u00e3o que pare\u00e7a, mas me acho um elefante com a tromba bem caidinha. Talvez um pato manco, sem qualquer condi\u00e7\u00e3o de dan\u00e7ar o Lago dos Cisnes ou de assistir na TV a s\u00e9rie que fala do afogamento do ganso. O tempo acalmou minha sede. Como um bom vinho, apurei. Eis a raz\u00e3o do envelhecimento do corpo, mas n\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o. \u00c9 a minha felicidade. Deveria ser a de todos. Enfim, haja o que houver, o show tem de continuar.<\/p>\n<p>&#8230;..<\/p>\n<p>Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem longe do estilo Jeca Tatu, igualzinho ao promotor de medicamentos sem efic\u00e1cia alguma, cresci como menino levado, parceiro do Jeca Total. Jamais concordei com a tese vestibulanda de que a felicidade tem a ver com o tamanho da conta banc\u00e1ria, com as viagens ao exterior ou com o carro do ano. 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