{"id":6826,"date":"2026-10-12T12:29:11","date_gmt":"2026-10-12T15:29:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6826"},"modified":"2026-10-12T12:30:41","modified_gmt":"2026-10-12T15:30:41","slug":"ze-carlos-o-nomade-que-desafiou-o-frio-e-voltou-para-brindar-com-baco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasilia\/ze-carlos-o-nomade-que-desafiou-o-frio-e-voltou-para-brindar-com-baco\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Carlos, o n\u00f4made que desafiou o frio e voltou para brindar com Baco"},"content":{"rendered":"<p>Aprendi a conhecer, do alto dos meus 3\/4 de s\u00e9culo, homens que nascem para ficar, e outros, para partir. Como tamb\u00e9m aqueles que partem apenas para descobrir que o melhor lugar do mundo continua sendo a mesa de domin\u00f3, onde pedras bem colocadas, uma conversa atravessada e uma dose de cacha\u00e7a s\u00e3o suficientes para transformar qualquer mortal em semideus. Z\u00e9 Carlos, um n\u00f4made por voca\u00e7\u00e3o, aventureiro por teimosia e fil\u00f3sofo de botequim por merecimento, pertence a essa \u00faltima categoria.<\/p>\n<p>Depois de abandonar temporariamente os dom\u00ednios de \u00c1guas Claras, o nosso personagem decidiu desafiar os mapas, as fronteiras e, sobretudo, o term\u00f4metro. Seu destino anunciado era a terra dos esquim\u00f3s, onde o gelo \u00e9 eterno, o vento corta a alma e at\u00e9 os ursos-polares pensam duas vezes antes de sair de casa. Mas, como acontece com os grandes exploradores, houve um pequeno desvio de rota.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Carlos n\u00e3o chegou ao Alasca, mas bateu na trave. Foi parar em Toronto, no Canad\u00e1, onde acomodou seu corpo que insiste em classificar como m\u00e1sculo, uma afirma\u00e7\u00e3o que, por respeito \u00e0 amizade e \u00e0 liberdade de express\u00e3o, ningu\u00e9m ousa contestar publicamente. Nos bastidores, entretanto, h\u00e1 quem sustente que a musculatura anunciada pertence mais ao terreno da mitologia do que ao da anatomia.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o serei cruel. Afinal, at\u00e9 os her\u00f3is gregos tinham suas fraquezas. Aquiles possu\u00eda um calcanhar vulner\u00e1vel, Narciso apaixonou-se pela pr\u00f3pria imagem, e Z\u00e9 Carlos, aparentemente, acredita que o espelho ainda lhe devolve o vigor de um gladiador romano.<\/p>\n<p>Agora, de volta a \u00c1guas Claras, o viajante reencontra sua verdadeira p\u00e1tria, um territ\u00f3rio onde as amizades resistem \u00e0s dist\u00e2ncias, as hist\u00f3rias crescem a cada repeti\u00e7\u00e3o e os advers\u00e1rios do domin\u00f3 j\u00e1 come\u00e7am a sentir um frio na espinha. N\u00e3o o frio canadense, naturalmente, mas aquele provocado pela presen\u00e7a de um jogador que conhece as pedras como Zeus conhecia os raios.<\/p>\n<p>E h\u00e1 um detalhe que torna seu retorno ainda mais oportuno. \u00c9 que no pr\u00f3ximo dia 27, precisamente 48 horas depois de o Brasil conhecer o resultado do segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial, Z\u00e9 Carlos ter\u00e1 motivos de sobra para comemorar. N\u00e3o necessariamente pela vit\u00f3ria do candidato de sua prefer\u00eancia. Ali\u00e1s, descobrir em quem ele vota \u00e9 tarefa mais complicada do que encontrar uma agulha no palheiro ou convencer um pol\u00edtico de que a verdade tamb\u00e9m merece espa\u00e7o nos discursos. Nosso n\u00f4made guarda suas prefer\u00eancias eleitorais a sete chaves. Nem sob tortura verbal, nem diante de uma rodada generosa de aguardente, revela o nome escolhido para ocupar o Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Nesse particular, Z\u00e9 Carlos \u00e9 uma reencarna\u00e7\u00e3o tropical de Harp\u00f3crates, divindade associada ao sil\u00eancio, ao segredo e \u00e0 confidencialidade. Se os gregos lhe ergueram altares, os frequentadores das mesas do Clube do Domin\u00f3 da 205 Sul, em \u00c1guas Claras, bem poderiam oferecer a ele uma pequena est\u00e1tua, com o indicador sobre os l\u00e1bios e uma urna eletr\u00f4nica aos p\u00e9s. O segredo \u00e9 tamanho que nem Hermes, mensageiro dos deuses e especialista em atravessar fronteiras, conseguiria arrancar-lhe uma confiss\u00e3o. Z\u00e9 Carlos pode discutir o pre\u00e7o do bacalhau, a temperatura de Toronto, a qualidade da cacha\u00e7a e at\u00e9 a decad\u00eancia dos costumes, mas, quando o assunto \u00e9 voto, transforma-se numa esfinge. E esfinge, como sabemos, n\u00e3o costuma entregar respostas de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Sua grande festa, por\u00e9m, independe das urnas. No dia 27, o calend\u00e1rio lhe apresentar\u00e1 57 primaveras. Ou seriam 57 invernos, considerando sua recente intimidade com as terras geladas do hemisf\u00e9rio norte? Isso pouco importa. O fato \u00e9 que Z\u00e9 Carlos chega \u00e0 nova idade com a experi\u00eancia dos s\u00e1bios, a mal\u00edcia dos jogadores e a disposi\u00e7\u00e3o dos adolescentes que ainda acreditam poder conquistar o mundo; isso, claro, ao menos at\u00e9 a segunda dose.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Carlos, por\u00e9m, n\u00e3o entende apenas das 28 pedrinhas. No xadrez, por exemplo, ele apresenta-se como estrategista digno de enfrentar os generais de Alexandre, o Grande, enquanto movimenta cavalos, protege bispos, sacrifica pe\u00f5es e amea\u00e7a reis com a solenidade de quem decide o destino das civiliza\u00e7\u00f5es. No domin\u00f3, entretanto, revela sua verdadeira natureza ol\u00edmpica. Ali, diante das pe\u00e7as espalhadas sobre a mesa, transforma-se em senhor absoluto das combina\u00e7\u00f5es, das armadilhas e das vit\u00f3rias anunciadas.<\/p>\n<p>\u00c9 nessas ocasi\u00f5es que Baco entra em cena. O deus do vinho, das festas e dos excessos certamente reconheceria nesse brasiliense por ado\u00e7\u00e3o de 57 anos um disc\u00edpulo dedicado. Para isso basta que algu\u00e9m coloque, discretamente, uma dose de aguardente ao alcance de sua m\u00e3o. O olhar se ilumina, o racioc\u00ednio ganha asas e as pedras do domin\u00f3 parecem obedecer a uma ordem sobrenatural.<\/p>\n<p>Se vence, atribui o triunfo \u00e0 intelig\u00eancia. Se perde, culpa a distribui\u00e7\u00e3o das pedras, se o advers\u00e1rio reclama, invoca os deuses, e se a discuss\u00e3o amea\u00e7a ultrapassar os limites da civilidade, recomenda outra rodada, porque nenhuma diverg\u00eancia merece sobreviver a uma boa cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim caminha Z\u00e9 Carlos, o n\u00f4made de \u00c1guas Claras. Um homem que atravessou fronteiras, enfrentou o frio, contemplou paisagens distantes e regressou com a certeza de que a vida n\u00e3o se mede pelos quil\u00f4metros percorridos, mas pelas amizades preservadas. No fundo est\u00e1 a\u00ed sua maior vit\u00f3ria, porque enquanto o Brasil se divide entre vencedores e derrotados, entre vermelhos e azuis, entre discursos inflamados e promessas de reconcilia\u00e7\u00e3o, nosso personagem prepara uma comemora\u00e7\u00e3o sem necessidade de segundo turno.<\/p>\n<p>Afinal, aos 57 anos, Z\u00e9 Carlos n\u00e3o precisa de pesquisa eleitoral para confirmar sua popularidade entre os amigos. Tampouco necessita de tribunal superior para homologar sua exist\u00eancia, porque sua diploma\u00e7\u00e3o foi concedida pelo tempo, sua posse \u00e9 renovada a cada anivers\u00e1rio e seu mandato, esperamos, ser\u00e1 prorrogado por muitas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Que Apolo lhe conceda luz, Atena lhe preserve a intelig\u00eancia, Hermes lhe ofere\u00e7a novas viagens e Baco jamais permita que falte alegria \u00e0 sua mesa. Quanto a Harp\u00f3crates, que continue protegendo seu segredo eleitoral, porque h\u00e1 mist\u00e9rios que a humanidade n\u00e3o precisa desvendar. E, quando chegar o dia 27, que ningu\u00e9m se esque\u00e7a de erguer o copo em homenagem ao aniversariante. Porque presidentes passam, governos terminam, imp\u00e9rios desmoronam e at\u00e9 os deuses do Olimpo acabam esquecidos.<\/p>\n<p>Entretanto, um bom amigo, quando sabe cultivar a amizade, permanece. Ficam aqui, portanto, meus parab\u00e9ns, Z\u00e9 Carlos! Bem-vindo de volta \u00e0 terra onde o gelo s\u00f3 tem serventia dentro do copo. E que venham os 57, com sa\u00fade, alegria, muitas viagens e algumas vit\u00f3rias no domin\u00f3. S\u00f3 n\u00e3o vale esconder as pedras como esconde o voto.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprendi a conhecer, do alto dos meus 3\/4 de s\u00e9culo, homens que nascem para ficar, e outros, para partir. 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