{"id":6840,"date":"2026-10-13T03:20:28","date_gmt":"2026-10-13T06:20:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6840"},"modified":"2026-10-13T03:20:28","modified_gmt":"2026-10-13T06:20:28","slug":"eli-lisboa-o-principe-das-cinderelas-que-nunca-perdem-o-seu-sapatinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/vestir-e-viver\/eli-lisboa-o-principe-das-cinderelas-que-nunca-perdem-o-seu-sapatinho\/","title":{"rendered":"Eli Lisboa, o pr\u00edncipe das Cinderelas que nunca perdem o seu sapatinho"},"content":{"rendered":"<p>Quando se trata de literatura, sou um sujeito ecl\u00e9tico. Transito com a mesma desenvoltura entre a inoc\u00eancia de Cinderela, dos Irm\u00e3os Grimm, e os labirintos psicol\u00f3gicos de Crime e Castigo, de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski. Gosto das fadas que transformam ab\u00f3boras em carruagens, mas tamb\u00e9m dos personagens que carregam nas costas o peso de suas pr\u00f3prias escolhas. Afinal, a vida \u00e9 uma biblioteca onde cada pessoa escreve seu romance, sua trag\u00e9dia ou sua f\u00e1bula. Algumas, mais afortunadas, conseguem escrever as tr\u00eas coisas sem perder a eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Eli Lisboa, entretanto, parece ter escolhido o encantamento como um quarto g\u00eanero liter\u00e1rio. Na segunda-feira, 12, enquanto multid\u00f5es de fi\u00e9is ocupavam igrejas e santu\u00e1rios para homenagear Nossa Senhora Aparecida, um grupo de amigos resolveu celebrar outro tipo de devo\u00e7\u00e3o. Nada de prociss\u00f5es, velas acesas ou promessas de joelhos. O altar era uma mesa de restaurante, o incenso vinha dos aromas da cozinha e a liturgia consistia em brindar a vida de um aniversariante que, h\u00e1 duas d\u00e9cadas, trocou o interior de Minas Gerais pela capital da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O santo do dia, com todo o respeito \u00e0 Padroeira do Brasil, chama-se Eli Lisboa. Entre os convidados, havia personalidades diferentes, hist\u00f3rias diversas e maneiras pr\u00f3prias de enxergar o mundo. Mas uma particularidade distinguia o homenageado. Afinal, era o \u00fanico \u00e0 mesa que se apresentava, com orgulho e sem pedir licen\u00e7a, como integrante da comunidade LGBT+. N\u00e3o fazia disso uma bandeira para constranger ningu\u00e9m, tampouco escondia sua identidade debaixo da toalha. Eli simplesmente \u00e9 quem \u00e9, e se encaixa a\u00ed, precisamente, uma de suas maiores virtudes, a de quem aprendeu que a felicidade n\u00e3o precisa de autoriza\u00e7\u00e3o, muito menos de carimbo em cart\u00f3rio.<\/p>\n<p>As conversas, naturalmente, acabaram desembocando em sua atividade profissional. Eli integra o universo da Luiza Barcelos, grife de cal\u00e7ados, bolsas e acess\u00f3rios femininos, em uma de suas unidades de Bras\u00edlia. Mas seria uma injusti\u00e7a classific\u00e1-lo apenas como vendedor. Vendedores oferecem mercadorias, enquanto Eli oferece sonhos com numera\u00e7\u00e3o, cor, salto e acabamento.<\/p>\n<p>Permito-me a aud\u00e1cia para enfatizar ser justamente a\u00ed que entram os Irm\u00e3os Grimm. Na velha f\u00e1bula, Cinderela vivia submetida aos caprichos da madrasta e das irm\u00e3s, at\u00e9 que uma fada madrinha resolveu interferir no destino. Com uma varinha de cond\u00e3o, transformou andrajos em vestido de princesa, ratinhos em cavalos e uma ab\u00f3bora em carruagem. A jovem foi ao baile, encantou o pr\u00edncipe e fugiu antes da meia-noite, quando a magia perderia a validade. Na pressa, deixou um sapatinho de cristal na escadaria do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe, apaixonado, mobilizou o reino inteiro. Mandou experimentar o delicado cal\u00e7ado nos p\u00e9s de princesas, duquesas, condessas e plebeias. N\u00e3o importavam t\u00edtulos de nobreza, sobrenomes ou fortunas. O sapatinho tinha uma \u00fanica dona, e era preciso encontr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Pois bem. Se o pr\u00edncipe daquela hist\u00f3ria tivesse conhecido Eli Lisboa, teria economizado uma fortuna em mensageiros e cavalos. Bastaria entregar-lhe o sapatinho, porque Eli descobriria a dona antes mesmo de ela experimentar o cal\u00e7ado. N\u00e3o por adivinha\u00e7\u00e3o, mas por sensibilidade, porque o aniversariante do dia n\u00e3o enxerga em sua clientelas apenas p\u00e9s, mas principalmente a alma de quem est\u00e1 sendo atendida.<\/p>\n<p>Na boutique, sua varinha de cond\u00e3o n\u00e3o \u00e9 feita de madeira encantada, mas constru\u00edda com paci\u00eancia, aten\u00e7\u00e3o, delicadeza e uma extraordin\u00e1ria capacidade de compreender o universo feminino. Ele sabe que uma mulher nem sempre entra numa loja procurando apenas um sapato. \u00c0s vezes, procura autoestima, e, em outras ocasi\u00f5es, deseja recuperar uma alegria perdida, celebrar uma conquista ou simplesmente presentear a si mesma depois de um dia em que o mundo pareceu pesado demais.<\/p>\n<p>Eli consegue perceber essas sutilezas. Uma sand\u00e1lia pode transformar-se em passaporte para uma noite inesquec\u00edvel, uma bolsa pode carregar muito mais que batom, documentos e telefone celular, como tamb\u00e9m acontece de guardar segredos, esperan\u00e7as e pequenas revolu\u00e7\u00f5es pessoais. Um salto alto, por sua vez, n\u00e3o aumenta apenas alguns cent\u00edmetros na estatura. Dependendo de quem o cal\u00e7a, eleva a mulher \u00e0 altura dos pr\u00f3prios sonhos.<\/p>\n<p>Descobri, ao longo do tempo, que Eli conhece essa alquimia. Ele chegou a Bras\u00edlia h\u00e1 vinte anos, trazendo na bagagem a mineirice, a coragem e aquela sabedoria de quem aprende cedo que o mundo n\u00e3o oferece carruagens prontas; acima de tudo, \u00e9 preciso constru\u00ed-las. Ele n\u00e3o encontrou fada madrinha \u00e0 sua espera, muito menos um pr\u00edncipe disposto a abrir as portas de um castelo. Por isso tra\u00e7ou o pr\u00f3prio caminho, conquistou seu espa\u00e7o e transformou o trabalho em instrumento de reconhecimento.<\/p>\n<p>Tudo isso sem crime, sem castigo, sem precisar recorrer aos tormentos de Rask\u00f3lnikov, personagem de Dostoi\u00e9vski. Sua hist\u00f3ria n\u00e3o tem sido escrita com sangue, culpa ou remorso, mas constru\u00edda com persist\u00eancia, respeito e uma eleg\u00e2ncia que n\u00e3o se compra nas vitrines. Por isso suas clientes enxerguem nele algo que ultrapassa a rela\u00e7\u00e3o comercial. H\u00e1 cumplicidade, confian\u00e7a e aquele entendimento silencioso que, em muitos casos, s\u00f3 cabe no cora\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e.<\/p>\n<p>E Eli tem esse cora\u00e7\u00e3o, do tipo maternal que acolhe, aconselha, protege e, quando necess\u00e1rio, sabe dizer que determinado sapato, por mais bonito que seja, n\u00e3o combina com a mulher que pretende lev\u00e1-lo. Porque vender por vender \u00e9 coisa de comerciante apressado. J\u00e1 encantar \u00e9 privil\u00e9gio de quem compreendeu que fidelidade n\u00e3o se conquista com descontos, mas com afeto.<\/p>\n<p>Na mesa do restaurante, entre risadas, lembran\u00e7as e brindes, percebi que Eli havia conseguido uma fa\u00e7anha que nem os Grimm nem Dostoi\u00e9vski imaginaram. Foi reunir, no mesmo cap\u00edtulo, personagens diferentes, unidos n\u00e3o por interesses ou conveni\u00eancias, mas pela amizade. E isso, convenhamos, \u00e9 uma raridade num mundo em que tantos relacionamentos t\u00eam prazo de validade menor que o encanto da carruagem de Cinderela.<\/p>\n<p>O anivers\u00e1rio passou, os pratos foram recolhidos, as ta\u00e7as esvaziaram e cada convidado tomou o caminho de casa. N\u00e3o houve badalar de meia-noite anunciando o fim da magia e nenhuma carruagem virou ab\u00f3bora e sequer um sapatinho ficou abandonado na escadaria. Mesmo porque, Eli n\u00e3o precisa procurar Cinderelas perdidas pelo reino; elas chegam diariamente \u00e0 sua loja, algumas sorridentes, outras preocupadas, todas carregando hist\u00f3rias que merecem aten\u00e7\u00e3o. E saem de l\u00e1 n\u00e3o necessariamente princesas, porque mulheres n\u00e3o precisam de t\u00edtulos de nobreza para serem extraordin\u00e1rias. Saem simplesmente mais felizes, mais confiantes e, sobretudo, mais bonitas aos pr\u00f3prios olhos.<\/p>\n<p>No fundo, descobri que Eli \u00e9 uma esp\u00e9cie de fada madrinha que dispensou asas, coroa e varinha de cond\u00e3o. Ele \u00e9 daqueles que prefere trabalhar entre vitrines, caixas de sapatos e bolsas elegantes, espalhando uma magia que n\u00e3o desaparece \u00e0 meia-noite.<\/p>\n<p>E, se me permitem uma \u00faltima licen\u00e7a liter\u00e1ria, me atrevo a corrigir os Irm\u00e3os Grimm. Na hist\u00f3ria original, foi um sapatinho que ajudou Cinderela a encontrar seu pr\u00edncipe. Na hist\u00f3ria de Eli Lisboa, s\u00e3o os sapatos que ajudam in\u00fameras Cinderelas a descobrir que n\u00e3o precisam de pr\u00edncipe algum para viver felizes. Por fim, ficam meus votos para que a vida do aniversariante continue sendo uma f\u00e1bula sem madrastas cru\u00e9is, sem castigos de Dostoi\u00e9vski e, principalmente, sem rel\u00f3gios anunciando o fim dos encantamentos. Porque amigos verdadeiros, ao contr\u00e1rio dos sapatinhos de cristal, n\u00e3o se quebram com facilidade. E os melhores, como Eli, jamais saem de moda.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se trata de literatura, sou um sujeito ecl\u00e9tico. Transito com a mesma desenvoltura entre a inoc\u00eancia de Cinderela, dos Irm\u00e3os Grimm, e os labirintos psicol\u00f3gicos de Crime e Castigo, de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski. Gosto das fadas que transformam ab\u00f3boras em carruagens, mas tamb\u00e9m dos personagens que carregam nas costas o peso de suas pr\u00f3prias escolhas. 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