{"id":6872,"date":"2026-10-13T08:50:38","date_gmt":"2026-10-13T11:50:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=6872"},"modified":"2026-10-13T10:57:04","modified_gmt":"2026-10-13T13:57:04","slug":"economia-com-o-governo-lula-3-apresenta-retrato-de-um-brasil-que-respira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasil\/economia-com-o-governo-lula-3-apresenta-retrato-de-um-brasil-que-respira\/","title":{"rendered":"Economia com o governo Lula 3 apresenta retrato de um Brasil que respira"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil chega ao fim do terceiro mandato de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva com o menor desemprego de sua s\u00e9rie hist\u00f3rica, a bolsa em recorde e um acordo comercial com a Europa assinado ap\u00f3s 25 anos \u2014 e com a d\u00edvida p\u00fablica nove pontos de PIB acima da que recebeu. Os n\u00fameros, de IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional e B3, desenham um governo que cresceu e empregou em um cen\u00e1rio externo adverso, mas que carrega uma conta de juros de R$ 1,18 trilh\u00e3o em doze meses.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com o mandato anterior exige um ponto de partida. Jair Bolsonaro tomou posse em 2019 com a Selic em 6,5%, infla\u00e7\u00e3o abaixo de 4% e um mundo de juros baixos; encontrou, por\u00e9m, 13,4 milh\u00f5es de desempregados e uma economia que crescia menos de 1,5% ao ano. Lula assumiu em 2023 com desemprego j\u00e1 em 7,9% e d\u00edvida bruta em 73,5% do PIB, a menor desde 2017, mas em meio \u00e0 infla\u00e7\u00e3o global mais alta em quatro d\u00e9cadas, juros elevados nos Estados Unidos e, a partir de 2025, uma guerra tarif\u00e1ria aberta por Washington contra o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esta reportagem re\u00fane os indicadores de 2023 a outubro de 2026, o hist\u00f3rico das mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e nas parcerias internacionais do governo anterior, e o debate sobre a origem do aumento da d\u00edvida.<\/p>\n<p>O PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, quando somou R$ 12,7 trilh\u00f5es, segundo o IBGE. Em janeiro de 2024, o Boletim Focus projetava apenas 1,6% para aquele ano. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o primeiro de 2025, o crescimento m\u00e9dio foi de 3,27% ao ano, acima da m\u00e9dia de todo o governo anterior, segundo levantamento do economista Luiz Carlos Bresser Pereira.<\/p>\n<p>O mercado de trabalho \u00e9 o dado mais forte do per\u00edodo. A taxa de desemprego fechou 2025 em 5,1%, melhor resultado desde o in\u00edcio da s\u00e9rie da Pnad Cont\u00ednua, em 2012, e recuou a 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, m\u00ednima para o per\u00edodo. No governo Bolsonaro, a m\u00e9dia foi de 12,05%. A infla\u00e7\u00e3o medida pelo IPCA terminou 2025 em 4,26%, a menor desde 2018, contra m\u00e9dia de 6,14% entre 2019 e 2022.<\/p>\n<p>O ano de 2026 \u00e9 de modera\u00e7\u00e3o. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, ap\u00f3s 1,1% no primeiro, e o consumo das fam\u00edlias recuou 0,4%. Na ata de setembro, o Copom afirmou que a atividade &#8220;manteve trajet\u00f3ria de modera\u00e7\u00e3o&#8221; e cortou a Selic de 14% para 13,75%, ap\u00f3s o pico de 15% em 2025. A infla\u00e7\u00e3o projetada para o ano, de 5,3%, est\u00e1 acima da meta de 3%.<br \/>\nO investimento estrangeiro direto somou US$ 133 bilh\u00f5es no bi\u00eanio 2023-2024, o maior valor j\u00e1 registrado, e US$ 89,3 bilh\u00f5es nos doze meses at\u00e9 junho de 2026 (3,58% do PIB). O Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do FMI em 2023, na 9\u00aa posi\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s ocupar a 11\u00aa em 2022.<\/p>\n<p>A primeira medida institucional do governo Bolsonaro, em 1\u00ba de janeiro de 2019, foi extinguir o Minist\u00e9rio do Trabalho, criado em 1930, e transform\u00e1-lo em secretaria especial dentro do Minist\u00e9rio da Economia. Lula o recriou, como Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, no primeiro dia do terceiro mandato.<\/p>\n<p>Entre 2019 e 2022, a regula\u00e7\u00e3o do trabalho foi alterada sobretudo por medida provis\u00f3ria, decreto e portaria:<\/p>\n<p>* MP 905\/2019 (&#8220;Contrato Verde e Amarelo&#8221;): reduzia encargos, liberava trabalho aos domingos e previa contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria sobre o seguro-desemprego. Caducou em abril de 2020 sem vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* Revis\u00e3o das Normas Regulamentadoras: dezenas de regras de sa\u00fade e seguran\u00e7a foram enxugadas ou revogadas, entre elas a NR-12, sobre m\u00e1quinas e equipamentos, sob o argumento de desburocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* Portaria 620\/2021: proibia o empregador de exigir comprovante de vacina\u00e7\u00e3o; foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p>* Fiscaliza\u00e7\u00e3o: o quadro de auditores-fiscais do trabalho caiu ao menor n\u00edvel em d\u00e9cadas e o or\u00e7amento de combate ao trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o foi reduzido em anos sucessivos.<\/p>\n<p>A reforma trabalhista de 2017, anterior a Bolsonaro, \u00e9 frequentemente apontada como origem da queda do desemprego. Os dados n\u00e3o confirmam. Dois anos ap\u00f3s a lei, no primeiro trimestre de 2019, o desemprego estava em 12,7%, com 13,4 milh\u00f5es de pessoas, e a informalidade superava 41%. O efeito mensur\u00e1vel foi sobre a Justi\u00e7a do Trabalho: o n\u00famero de novas a\u00e7\u00f5es caiu cerca de um ter\u00e7o em 2018, com a sucumb\u00eancia rec\u00edproca e a cobran\u00e7a de honor\u00e1rios periciais de benefici\u00e1rios da justi\u00e7a gratuita \u2014 regra que o STF afastou em 2021.<\/p>\n<p>No terceiro mandato, o governo recomp\u00f4s o concurso de auditores, retomou a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o real do sal\u00e1rio m\u00ednimo (R$ 1.621 em 2026, ante R$ 1.518 em 2025) e manteve o Bolsa Fam\u00edlia em R$ 158,6 bilh\u00f5es, para 19,9 milh\u00f5es de fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Em 17 de janeiro de 2026, em Assun\u00e7\u00e3o, Uni\u00e3o Europeia e Mercosul assinaram o Acordo de Parceria e o Acordo Comercial Interino, encerrando 25 anos de negocia\u00e7\u00e3o. A Delega\u00e7\u00e3o da UE no Brasil atribuiu \u00e0 presid\u00eancia brasileira do Mercosul, no segundo semestre de 2025, papel decisivo no desfecho. O acordo havia sido conclu\u00eddo tecnicamente em junho de 2019, mas travou nos anos seguintes: Parlamento Europeu, Fran\u00e7a e Alemanha condicionaram a ratifica\u00e7\u00e3o ao controle do desmatamento, e Noruega e Alemanha suspenderam repasses ao Fundo Amaz\u00f4nia em 2019. A assinatura foi adiada uma \u00faltima vez em dezembro de 2025 por resist\u00eancia de Fran\u00e7a e It\u00e1lia; Lula n\u00e3o compareceu \u00e0 cerim\u00f4nia, representado pelo chanceler Mauro Vieira.<\/p>\n<p>Com a China, maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e respons\u00e1vel por mais da metade do super\u00e1vit comercial, a rela\u00e7\u00e3o foi elevada ao status de Parceria Estrat\u00e9gica Global. Foram 15 acordos de Estado na visita de Lula a Pequim em abril de 2023, 37 na visita de Xi Jinping a Bras\u00edlia em novembro de 2024 e 20 na nova viagem de Lula em maio de 2025, com foco em reindustrializa\u00e7\u00e3o e transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. No governo anterior, declara\u00e7\u00f5es de ministros e familiares do presidente haviam motivado protestos formais de Pequim.<\/p>\n<p>Com os Estados Unidos, o quadro \u00e9 de conflito. Em 9 de julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, a maior aplicada a qualquer pa\u00eds, em vigor desde 6 de agosto, com justificativas pol\u00edticas e isen\u00e7\u00f5es setoriais. A medida alcan\u00e7a 35,9% do que o Brasil vende aos americanos, cerca de 4% das exporta\u00e7\u00f5es totais; a CNI estimou perda de R$ 52 bilh\u00f5es e 110 mil empregos. O governo brasileiro optou por n\u00e3o retaliar e manteve a negocia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Segundo o ex-ministro Fernando Haddad, os EUA j\u00e1 responderam por 25% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras e hoje respondem por 12%.<\/p>\n<p>O Ibovespa renovou sua m\u00e1xima hist\u00f3rica 32 vezes em 2025 e superou pela primeira vez os 180 mil pontos em 27 de janeiro de 2026. Em 15 de abril, aos 199.232 pontos, bateu o recorde real \u2014 corrigido pela infla\u00e7\u00e3o \u2014 que vigorava desde maio de 2008, e a B3 registrou o maior volume em cinco anos, R$ 120 bilh\u00f5es em um \u00fanico preg\u00e3o. O volume m\u00e9dio di\u00e1rio no primeiro trimestre foi de R$ 24,9 bilh\u00f5es, com investidores estrangeiros respondendo por 54% do fluxo em ETFs.<\/p>\n<p>Em 5 de outubro de 2026, primeiro preg\u00e3o ap\u00f3s o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, o \u00edndice subiu 7,70%, para 206.911 pontos, maior alta di\u00e1ria desde 2020, com m\u00e1xima intradi\u00e1ria de 209.605 pontos, giro de R$ 103,3 bilh\u00f5es e d\u00f3lar a R$ 5,00. Analistas atribu\u00edram o movimento \u00e0 expectativa de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica mais favor\u00e1vel, condicionada \u00e0 credibilidade fiscal. Em d\u00f3lar, o \u00edndice ainda estava 11,9% abaixo do recorde de 2008 em abril.<\/p>\n<p><strong>A d\u00edvida<\/strong><br \/>\nA d\u00edvida bruta do governo geral passou de 73,5% do PIB em dezembro de 2022 para 82,9% em agosto de 2026, ou R$ 11,1 trilh\u00f5es, segundo o Banco Central. \u00c9 o \u00fanico indicador em que o governo anterior exibe n\u00famero melhor: entre 2019 e 2022, o endividamento caiu de 75,3% para 73,5%, com super\u00e1vit prim\u00e1rio de R$ 126 bilh\u00f5es no \u00faltimo ano.<\/p>\n<p>A decomposi\u00e7\u00e3o do Banco Central mostra que o motor da alta \u00e9 a conta de juros, n\u00e3o o gasto. S\u00f3 em agosto de 2026, os juros nominais adicionaram 0,8 ponto \u00e0 d\u00edvida, contra 0,1 ponto do c\u00e2mbio, enquanto o crescimento do PIB nominal abateu 0,5 ponto. O d\u00e9ficit prim\u00e1rio \u2014 a diferen\u00e7a entre receita e despesa, sem juros \u2014 ficou entre 0,4% e 0,6% do PIB em 2024, 2025 e 2026. O de 2023, de 2,3%, incluiu R$ 92 bilh\u00f5es de precat\u00f3rios represados por emenda constitucional em 2021-2022 e pagos de uma vez. O investimento federal \u00e9 residual: R$ 80 bilh\u00f5es no Or\u00e7amento de 2026, menos de 1% do PIB, dos quais R$ 52,9 bilh\u00f5es no Novo PAC.<\/p>\n<p>Os juros incidem sobre um estoque acumulado em d\u00e9cadas. A d\u00edvida bruta estava em cerca de 56% do PIB em 2014, chegou a 70% ap\u00f3s a recess\u00e3o de 2015-2016 e saltou 12,5 pontos em 2020, para 86,9%, com a pandemia. Para rolar aquela d\u00edvida, o Tesouro encurtou prazos e ampliou a fatia de t\u00edtulos p\u00f3s-fixados; cerca de metade do estoque \u00e9 hoje atrelada \u00e0 Selic, de modo que cada decis\u00e3o do Copom reprecifica a d\u00edvida inteira. Quando a Selic chegou a 15% em 2025, a conta de juros subiu de 7,6% para 8,9% do PIB em um ano.<\/p>\n<p>O governo atual tem parte na trajet\u00f3ria. A PEC da Transi\u00e7\u00e3o acrescentou despesa permanente ao or\u00e7amento de 2023, a pol\u00edtica de ganho real do sal\u00e1rio m\u00ednimo eleva automaticamente Previd\u00eancia e benef\u00edcios assistenciais, e a meta de d\u00e9ficit zero de 2024 foi flexibilizada. O pacote fiscal de novembro de 2024 foi considerado insuficiente pelo mercado, o d\u00f3lar superou R$ 6 e o Banco Central \u2014 presidido desde 2025 por indicado de Lula \u2014 levou a Selic de 10,5% a 15%. A meta de 2026 \u00e9 super\u00e1vit de 0,25% do PIB; at\u00e9 agosto, o Governo Central acumulava d\u00e9ficit de R$ 94,9 bilh\u00f5es. Economistas ouvidos pelo Estad\u00e3o\/Broadcast projetam d\u00edvida de 83,4% do PIB no fim de 2026 e 90,4% em 2028, e estimam que a estabiliza\u00e7\u00e3o exigiria super\u00e1vit prim\u00e1rio de 1,5% a 2% do PIB.<\/p>\n<p>O Or\u00e7amento de 2026 limita a despesa prim\u00e1ria a R$ 2,428 trilh\u00f5es, dos quais R$ 2,374 trilh\u00f5es s\u00e3o obrigat\u00f3rios: Previd\u00eancia (R$ 1,11 trilh\u00e3o), pessoal (R$ 489,5 bilh\u00f5es), sa\u00fade (R$ 245,5 bilh\u00f5es), Bolsa Fam\u00edlia (R$ 158,6 bilh\u00f5es) e emendas impositivas (R$ 40,8 bilh\u00f5es). O arcabou\u00e7o fiscal permite crescimento real da despesa de at\u00e9 70% da varia\u00e7\u00e3o da receita, entre 0,6% e 2,5% ao ano.<\/p>\n<p><strong>O que fica em aberto<\/strong><br \/>\nO balan\u00e7o do terceiro mandato op\u00f5e dois conjuntos de n\u00fameros que n\u00e3o se anulam. De um lado, crescimento m\u00e9dio superior ao do governo anterior, desemprego na m\u00ednima hist\u00f3rica, infla\u00e7\u00e3o de 4,26% em 2025, recorde real na bolsa e a reconstru\u00e7\u00e3o das parcerias com Europa e China. De outro, uma d\u00edvida que subiu 9,4 pontos de PIB, movida sobretudo por juros sobre um estoque herdado, mas sustentada por d\u00e9ficits que o pr\u00f3prio governo escolheu n\u00e3o zerar.<\/p>\n<p>Tr\u00eas quest\u00f5es decidir\u00e3o a leitura final. A primeira \u00e9 se a desacelera\u00e7\u00e3o de 2026 \u2014 PIB de 1,8%, infla\u00e7\u00e3o acima da meta \u2014 \u00e9 um ajuste c\u00edclico ou o esgotamento do modelo de crescimento por consumo. A segunda \u00e9 se o tarifa\u00e7o americano ser\u00e1 revertido por negocia\u00e7\u00e3o ou absorvido pela diversifica\u00e7\u00e3o para China e Europa. A terceira, e mais pesada, \u00e9 fiscal: sem super\u00e1vit prim\u00e1rio de 1,5% a 2% do PIB, a d\u00edvida caminha para 90% em 2028, e os juros que hoje consomem 8,9% do PIB continuar\u00e3o a crescer independentemente de quem governe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil chega ao fim do terceiro mandato de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva com o menor desemprego de sua s\u00e9rie hist\u00f3rica, a bolsa em recorde e um acordo comercial com a Europa assinado ap\u00f3s 25 anos \u2014 e com a d\u00edvida p\u00fablica nove pontos de PIB acima da que recebeu. 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