{"id":7071,"date":"2026-10-16T11:37:18","date_gmt":"2026-10-16T14:37:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7071"},"modified":"2026-10-16T11:37:47","modified_gmt":"2026-10-16T14:37:47","slug":"geleira-do-juizo-final-derrete-mais-rapido-e-ameaca-engolir-areas-costeiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/geleira-do-juizo-final-derrete-mais-rapido-e-ameaca-engolir-areas-costeiras\/","title":{"rendered":"Geleira do Ju\u00edzo Final derrete r\u00e1pido e amea\u00e7a engolir \u00e1reas costeiras"},"content":{"rendered":"<p>O planeta Terra pode estar diante de uma amea\u00e7a ambiental ainda mais grave do que imaginavam os cientistas. Escondida entre as imensas paredes de gelo da Ant\u00e1rtida Ocidental, a geleira Thwaites, conhecida mundialmente como Geleira do Ju\u00edzo Final, est\u00e1 perdendo sua estabilidade em um ritmo que desafia antigas previs\u00f5es. Um novo estudo revela que sua contribui\u00e7\u00e3o para a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos oceanos poder\u00e1 ser duas vezes maior do que se calculava anteriormente.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de pesquisadores da Universidade da Calif\u00f3rnia em Irvine, nos Estados Unidos, e do Laborat\u00f3rio de Propuls\u00e3o a Jato (JPL) da Nasa. O trabalho, publicado em 12 de outubro na revista cient\u00edfica Nature Communications, projeta que o derretimento da gigantesca massa de gelo poder\u00e1 acrescentar at\u00e9 30 mil\u00edmetros, ou tr\u00eas cent\u00edmetros, ao n\u00edvel m\u00e9dio global do mar at\u00e9 2100. A estimativa \u00e9 aproximadamente o dobro das proje\u00e7\u00f5es anteriores, mesmo sem considerar um aquecimento clim\u00e1tico adicional.<\/p>\n<p>Pode parecer pouco quando se fala em cent\u00edmetros. Mas, na linguagem dos oceanos, pequenas eleva\u00e7\u00f5es representam grandes amea\u00e7as. O avan\u00e7o das \u00e1guas aumenta a frequ\u00eancia de inunda\u00e7\u00f5es costeiras, agrava a eros\u00e3o das praias, favorece a entrada de \u00e1gua salgada em reservas subterr\u00e2neas e coloca em risco milh\u00f5es de pessoas que vivem pr\u00f3ximas ao litoral.<\/p>\n<p><strong>Perigo sob o gelo<\/strong><br \/>\nO que mais preocupa os pesquisadores n\u00e3o \u00e9 apenas o derretimento vis\u00edvel na superf\u00edcie da geleira. A verdadeira amea\u00e7a est\u00e1 escondida sob quil\u00f4metros de gelo, onde \u00e1guas oce\u00e2nicas relativamente quentes avan\u00e7am por baixo da estrutura congelada e aceleram sua desintegra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os modelos cient\u00edficos tradicionais consideravam a passagem entre o gelo apoiado no fundo do oceano e aquele que flutua sobre a \u00e1gua como uma fronteira relativamente definida. A nova pesquisa demonstra que essa transi\u00e7\u00e3o ocorre em uma faixa de v\u00e1rios quil\u00f4metros, permitindo que a \u00e1gua salgada penetre sob a geleira e intensifique o derretimento.<\/p>\n<p>Ao incorporar esse fen\u00f4meno \u00e0s simula\u00e7\u00f5es, os cientistas conseguiram reproduzir com maior precis\u00e3o quase tr\u00eas d\u00e9cadas de observa\u00e7\u00f5es sobre o recuo, o afinamento e a acelera\u00e7\u00e3o da Thwaites.<\/p>\n<p>O pesquisador Mattia Poinelli, um dos respons\u00e1veis pelo trabalho, explica que a geleira ainda encontra sustenta\u00e7\u00e3o em eleva\u00e7\u00f5es submarinas. Entretanto, a perda desses pontos de apoio poder\u00e1 acelerar seu deslocamento em dire\u00e7\u00e3o ao oceano.<\/p>\n<p>As simula\u00e7\u00f5es indicam que uma dessas estruturas, conhecida como cordilheira Mouginot, poder\u00e1 deixar de sustentar parte da geleira ainda neste s\u00e9culo. Em determinados cen\u00e1rios, a probabilidade desse desprendimento chega a 60% at\u00e9 2100.<\/p>\n<p><strong>Alterando o mapa<\/strong><br \/>\nA Thwaites est\u00e1 entre as maiores geleiras do planeta. Seu tamanho e sua localiza\u00e7\u00e3o fazem dela uma pe\u00e7a fundamental para a estabilidade de outras massas de gelo da Ant\u00e1rtida Ocidental.<\/p>\n<p>O apelido de Geleira do Ju\u00edzo Final nasceu justamente de seu potencial destrutivo. Caso desaparecesse completamente, sua massa de gelo poderia elevar o n\u00edvel m\u00e9dio global dos oceanos em aproximadamente 65 cent\u00edmetros. E existe um perigo adicional: seu recuo pode favorecer a desestabiliza\u00e7\u00e3o de geleiras vizinhas, ampliando as consequ\u00eancias ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante distinguir os cen\u00e1rios. Os tr\u00eas cent\u00edmetros previstos pelo novo estudo representam uma contribui\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da Thwaites at\u00e9 2100, n\u00e3o a eleva\u00e7\u00e3o total dos oceanos nem o resultado de um colapso completo. Este \u00faltimo seria um processo de prazo muito mais longo.<\/p>\n<p>Outro estudo, divulgado pelo British Antarctic Survey, instituto brit\u00e2nico de pesquisas polares, acrescentou uma informa\u00e7\u00e3o inquietante.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, a Thwaites continuar\u00e1 perdendo gelo durante pelo menos os pr\u00f3ximos 150 anos, mesmo em simula\u00e7\u00f5es que consideram uma interrup\u00e7\u00e3o extrema do derretimento provocado pelo oceano.<\/p>\n<p>A descoberta sugere que parte das transforma\u00e7\u00f5es j\u00e1 desencadeadas poder\u00e1 continuar produzindo consequ\u00eancias durante gera\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa seja in\u00fatil. Pelo contr\u00e1rio: limitar o aquecimento continua sendo fundamental para evitar perdas ainda maiores.<\/p>\n<p><strong>Brasil na rota<\/strong><br \/>\nEmbora a geleira esteja localizada a milhares de quil\u00f4metros do territ\u00f3rio brasileiro, seus efeitos n\u00e3o respeitam fronteiras.<\/p>\n<p>A eleva\u00e7\u00e3o global do n\u00edvel do mar representa um risco adicional para cidades costeiras como Recife, Santos, Rio de Janeiro, Salvador e outras localidades sujeitas a ressacas, eros\u00e3o e inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em regi\u00f5es de baixa altitude, a combina\u00e7\u00e3o entre mar\u00e9s elevadas, chuvas intensas e avan\u00e7o do oceano pode ampliar danos \u00e0 infraestrutura urbana, prejudicar atividades econ\u00f4micas e amea\u00e7ar moradias.<\/p>\n<p>O tamanho desses impactos depender\u00e1 das condi\u00e7\u00f5es locais, da evolu\u00e7\u00e3o do aquecimento global e da capacidade de adapta\u00e7\u00e3o das cidades. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel atribuir a uma \u00fanica geleira uma previs\u00e3o espec\u00edfica de inunda\u00e7\u00e3o para determinada praia brasileira.<\/p>\n<p><strong>Rel\u00f3gio clim\u00e1tico<\/strong><br \/>\nPara o glaciologista Eric Rignot, professor da Universidade da Calif\u00f3rnia em Irvine e coautor da pesquisa, os novos resultados demonstram que os modelos anteriores deixavam de considerar processos f\u00edsicos essenciais para compreender a velocidade da perda de gelo.<\/p>\n<p>Ao aperfei\u00e7oar essas simula\u00e7\u00f5es, os cientistas passaram a identificar riscos maiores de inunda\u00e7\u00f5es costeiras nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A descoberta n\u00e3o significa que a Ant\u00e1rtida esteja prestes a desaparecer nem que uma cat\u00e1strofe oce\u00e2nica ocorrer\u00e1 repentinamente. Significa, contudo, que as transforma\u00e7\u00f5es em andamento podem ser mais intensas do que se previa.<\/p>\n<p>A chamada Geleira do Ju\u00edzo Final, portanto, n\u00e3o anuncia uma data para o fim do mundo. Mas envia um recado cada vez mais dif\u00edcil de ignorar: o que acontece nas profundezas geladas da Ant\u00e1rtida pode redesenhar, lentamente, a geografia dos continentes e transformar a vida de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>E, enquanto a humanidade discute os custos de enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o gelo continua derretendo. Sem discursos, sem fronteiras e sem pedir licen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O planeta Terra pode estar diante de uma amea\u00e7a ambiental ainda mais grave do que imaginavam os cientistas. 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