{"id":7120,"date":"2026-10-18T07:31:48","date_gmt":"2026-10-18T10:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7120"},"modified":"2026-10-18T07:32:43","modified_gmt":"2026-10-18T10:32:43","slug":"cinco-belas-mulheres-um-homem-e-seis-tacas-de-vinho-para-brindar-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/vestir-e-viver\/cinco-belas-mulheres-um-homem-e-seis-tacas-de-vinho-para-brindar-a-vida\/","title":{"rendered":"Cinco belas mulheres, um homem e seis ta\u00e7as de vinho para brindar \u00e0 vida"},"content":{"rendered":"<p>Fosse dia de buscar inspira\u00e7\u00e3o na filosofia musical de Milton Nascimento, eu tomaria emprestado um verso da Can\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica para lembrar que amigo \u00e9 coisa para se guardar no cora\u00e7\u00e3o. Mas neste s\u00e1bado, 17, resolvi cometer um pequeno delito liter\u00e1rio. Vou furtar de Vinicius de Moraes a inspira\u00e7\u00e3o de sua Garota de Ipanema, desmont\u00e1-la poeticamente em cabe\u00e7a, tronco e membros e, numa opera\u00e7\u00e3o que faria qualquer anatomista perder o ju\u00edzo, transform\u00e1-la em cinco mulheres, criaturas que, reunidas, parecem ter escapado de diferentes cap\u00edtulos da hist\u00f3ria da humanidade para desembarcar, por algum capricho dos deuses, na minha vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o mulheres comuns, como tamb\u00e9m n\u00e3o precisam de coroas, cetros, espadas ou tronos para exercer seus reinados particulares. T\u00eam identidade pr\u00f3pria, car\u00e1ter definido, beleza resplandecente e cumplicidade \u00e0 flor da pele. Costumo dizer que elas respeitam tanto o Sol que, quando saem \u00e0s ruas, escondem os olhos atr\u00e1s de lentes escuras. N\u00e3o por vaidade, mas por generosidade. Sabem que, se permitirem que o brilho dos seus olhares se espalhe livremente, o Astro-Rei poder\u00e1 sentir-se humilhado e pedir aposentadoria por justa causa.<\/p>\n<p>S\u00e3o cinco, e, como n\u00e3o desejo provocar uma guerra de vaidades que nem a diplomacia das Na\u00e7\u00f5es Unidas conseguiria administrar, vou apresent\u00e1-las em rigorosa ordem alfab\u00e9tica: \u00cdris, Maninha, Mari, Nathy e Tat\u00e1.<\/p>\n<p>\u00cdris \u00e9 minha Cle\u00f3patra. N\u00e3o porque tenha nascido \u00e0s margens do Nilo, muito menos porque necessite de uma frota de embarca\u00e7\u00f5es para conquistar territ\u00f3rios. A \u00faltima grande rainha do Egito ptolemaico compreendeu, muito antes da inven\u00e7\u00e3o do marketing pessoal, que intelig\u00eancia, eleg\u00e2ncia e presen\u00e7a s\u00e3o armas mais poderosas do que as espadas dos generais romanos. Cle\u00f3patra encantou J\u00falio C\u00e9sar e Marco Ant\u00f4nio, mas tamb\u00e9m soube jogar o perigoso xadrez da pol\u00edtica mediterr\u00e2nea. \u00cdris, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, possui essa majestade natural de quem entra num ambiente sem pedir licen\u00e7a \u00e0 beleza. Seu trono \u00e9 a pr\u00f3pria personalidade. Sua coroa, invis\u00edvel. Seu cetro, a capacidade de transformar uma conversa trivial numa audi\u00eancia digna de rainha. Se tivesse vivido em Alexandria, suspeito que os fara\u00f3s teriam sido dispensados por absoluta falta de utilidade.<\/p>\n<p>Maninha \u00e9 minha Helena de Troia. E aqui fa\u00e7o uma advert\u00eancia aos historiadores, embora esteja sugerindo que algu\u00e9m deva construir um cavalo de madeira para conquistar seu cora\u00e7\u00e3o. A Helena da mitologia grega, cuja beleza teria provocado uma guerra de dez anos, tornou-se s\u00edmbolo de um encanto capaz de mobilizar ex\u00e9rcitos. Maninha, que domina a arte das joias, conhece como poucas mulheres o segredo de transformar metais e pedras em pequenas eternidades. \u00c9 uma esp\u00e9cie de Hefesto de saias, mas muito mais bonita e certamente mais delicada do que o ferreiro dos deuses do Olimpo. Seu talento consiste em compreender que diamantes brilham, esmeraldas fascinam e rubis seduzem; entretanto, nenhuma pedra preciosa supera a luminosidade de uma mulher que sabe o pr\u00f3prio valor. Se Helena tivesse conhecido Maninha, seria capaz de dispensar P\u00e1ris, Menelau e toda aquela confus\u00e3o em Troia para encomendar um colar. Homero perderia sua epopeia, mas a humanidade ganharia uma joalheria mitol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Mari \u00e9 minha Joana d&#8217;Arc. N\u00e3o a imagino montada num cavalo branco, conduzindo soldados franceses contra os ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. Vejo nela, por\u00e9m, a mesma centelha de coragem que fez uma jovem camponesa desafiar as conven\u00e7\u00f5es de seu tempo e enfrentar for\u00e7as aparentemente invenc\u00edveis. Joana foi levada \u00e0 fogueira em Rouen, em 1431, mas suas convic\u00e7\u00f5es sobreviveram \u00e0s chamas. Mari pertence \u00e0 linhagem das mulheres que n\u00e3o se deixam consumir pelas adversidades. Quando a vida levanta muralhas, ela procura portas; quando n\u00e3o encontra portas, inventa caminhos. E, se necess\u00e1rio, derruba as muralhas com a serenidade de quem sabe que nenhuma batalha est\u00e1 perdida enquanto houver esperan\u00e7a. Sua armadura n\u00e3o \u00e9 de ferro. \u00c9 feita de determina\u00e7\u00e3o, sensibilidade e uma coragem que dispensa trombetas. Mari n\u00e3o precisa vencer guerras para ser hero\u00edna, pois basta-lhe enfrentar os desafios cotidianos sem entregar a espada da dignidade.<\/p>\n<p>Nathy \u00e9 minha Mona Lisa, com diploma de engenheira. Leonardo da Vinci levou anos trabalhando na pintura que se transformaria num dos maiores enigmas da arte universal. S\u00e9culos depois, estudiosos ainda discutem o significado daquele sorriso que parece nascer e desaparecer conforme o \u00e2ngulo de observa\u00e7\u00e3o. Nathy possui algo dessa misteriosa geometria emocional. Engenheira por forma\u00e7\u00e3o, sabe que pontes precisam de sustenta\u00e7\u00e3o, edif\u00edcios exigem alicerces e sonhos, para n\u00e3o desabarem, necessitam de c\u00e1lculos precisos. Mas h\u00e1 nela uma vari\u00e1vel que nem a matem\u00e1tica de Pit\u00e1goras, a f\u00edsica de Newton ou os algoritmos modernos conseguiriam decifrar. Trata-se da maneira como constr\u00f3i a pr\u00f3pria vida, preservando mist\u00e9rios atr\u00e1s de um sorriso que parece esconder respostas para perguntas que ningu\u00e9m ainda formulou. Se Leonardo a tivesse conhecido, provavelmente abandonaria os pinc\u00e9is para estudar engenharia. E talvez descobrisse que a obra mais complexa n\u00e3o est\u00e1 pendurada no Louvre, mas caminha livremente pelas ruas de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Tat\u00e1 \u00e9 minha Nefertiti. A rainha eg\u00edpcia, companheira do fara\u00f3 Aquen\u00e1ton, atravessou mais de tr\u00eas mil\u00eanios gra\u00e7as, entre outras coisas, \u00e0 beleza eternizada num busto que se tornou uma das imagens mais conhecidas da Antiguidade. Seu nome costuma ser associado \u00e0 ideia de que a bela chegou. Tat\u00e1, entretanto, parece dispensar apresenta\u00e7\u00f5es. Quando se coloca diante do espelho, tenho a impress\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 ela quem contempla o reflexo, mas Nefertiti quem atravessa os s\u00e9culos para reconhecer uma herdeira. H\u00e1 mulheres que usam a beleza como adorno. Outras fazem dela uma linguagem. Tat\u00e1 pertence \u00e0 segunda categoria, pois sua eleg\u00e2ncia n\u00e3o depende de joias fara\u00f4nicas, nem de pal\u00e1cios \u00e0s margens do Nilo. \u00c9 uma beleza que n\u00e3o pede aplausos, mesmo que frequentemente os mere\u00e7a. Se os antigos eg\u00edpcios acreditavam na eternidade, \u00e9 porque imaginavam que determinadas mulheres jamais deveriam desaparecer da mem\u00f3ria dos homens.<\/p>\n<p>E onde entro eu nessa hist\u00f3ria? Entro como o sexto personagem, naturalmente. Sem a impon\u00eancia de C\u00e9sar, sem a valentia de Aquiles, sem a santidade de Joana e muito menos com a pretens\u00e3o de rivalizar com Leonardo da Vinci. Sou apenas um cronista que, tendo atravessado d\u00e9cadas de jornalismo, aprendido a desconfiar dos poderosos e testemunhado as pequenas e grandes com\u00e9dias humanas, descobriu que a amizade feminina \u00e9 uma das mais requintadas formas de riqueza.<\/p>\n<p>Quando sa\u00edmos os seis para degustar um bom vinho, a mesa deixa de ser simples mobili\u00e1rio, transformando-se numa confer\u00eancia internacional de afetos. O Egito envia duas representantes. A Gr\u00e9cia comparece com sua Helena. A Fran\u00e7a apresenta uma guerreira. A It\u00e1lia renascentista oferece um sorriso enigm\u00e1tico. E o Brasil, generoso anfitri\u00e3o, encarrega-se de reunir todas elas em torno de ta\u00e7as que se erguem n\u00e3o para celebrar conquistas territoriais, mas para brindar \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Eu, evidentemente, assumo a fun\u00e7\u00e3o de embaixador sem pasta. Ou, para ser mais preciso, de diplomata encarregado de garantir que o vinho n\u00e3o falte e que a alegria n\u00e3o seja interrompida por assuntos demasiadamente s\u00e9rios.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, imagino o que diriam os grandes personagens da hist\u00f3ria se pudessem testemunhar nossas reuni\u00f5es. Marco Ant\u00f4nio esqueceria as campanhas militares, P\u00e1ris desistiria de sequestrar Helena, Leonardo pediria outra tela e Aquen\u00e1ton, fascinado por tanta luminosidade, teria dificuldades para decidir se continuaria adorando o disco solar ou passaria a reverenciar aquelas cinco mulheres.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, um detalhe que me diverte particularmente. Quando regressamos ao conv\u00edvio dos amigos comuns, depois de uma dessas reuni\u00f5es regadas a vinho, hist\u00f3rias e gargalhadas, invariavelmente aparece algu\u00e9m disposto a comentar minha privilegiada condi\u00e7\u00e3o masculina:<\/p>\n<p>\u2014 Bendito \u00e9s tu, Nobre Seabra, na companhia de belas mulheres!, celebra o companheiro Geg\u00ea, o Don Juan do grupo.<\/p>\n<p>Sorrio, n\u00e3o desminto e tamb\u00e9m n\u00e3o confirmo integralmente. Afinal, a mod\u00e9stia, quando exercida em excesso, pode ser confundida com ingratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas guardo comigo uma convic\u00e7\u00e3o que nem os melhores vinhos franceses seriam capazes de alterar. Tudo porque a beleza dessas cinco mulheres n\u00e3o est\u00e1 apenas nos rostos, nos olhos, nos cabelos ou na eleg\u00e2ncia dos gestos. Est\u00e1, sobretudo, na lealdade que cultivam, na personalidade que preservam e na cumplicidade que transforma encontros ocasionais em lembran\u00e7as permanentes.<\/p>\n<p>Cle\u00f3patra teve seu imp\u00e9rio. Helena, sua epopeia. Joana d&#8217;Arc, sua coragem. Mona Lisa, seu mist\u00e9rio. Nefertiti, sua eternidade. \u00cdris, Maninha, Mari, Nathy e Tat\u00e1 t\u00eam algo que nenhuma enciclop\u00e9dia consegue medir. \u00c9 o poder de tornar a exist\u00eancia mais leve, mais bonita e infinitamente mais interessante.<\/p>\n<p>E eu? Eu tenho o privil\u00e9gio de ser amigo das cinco. Por isso, se Milton Nascimento me permite guardar amizades no cora\u00e7\u00e3o e Vinicius de Moraes me empresta a poesia de uma garota que passa, encerro esta cr\u00f4nica com uma pequena heresia matem\u00e1tica. S\u00e3o cinco mulheres, seis ta\u00e7as, incont\u00e1veis hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>E um homem que, diante de tanta beleza e amizade, j\u00e1 n\u00e3o sabe se est\u00e1 vivendo um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria universal ou simplesmente desfrutando dos melhores momentos da pr\u00f3pria vida. Quem sabe, as duas coisas. Porque, no fundo, meus caros, os imp\u00e9rios desmoronam, as guerras terminam, os monumentos envelhecem e at\u00e9 os deuses acabam esquecidos. Mas uma amizade verdadeira, quando brindada com vinho e temperada com afeto, tem a rara capacidade de sobreviver ao tempo.<\/p>\n<p>E, se me permitem uma \u00faltima confid\u00eancia, quando ou\u00e7o algu\u00e9m repetir que sou bendito entre aquelas mulheres, penso comigo mesmo. Bendito, sim. Mas n\u00e3o por estar cercado de cinco beldades. Bendito porque, entre tantos homens que passam a vida tentando conquistar o mundo, eu tive a sorte de conquistar o carinho e a amizade de cinco mulheres que valem mais do que todos os reinos da Terra.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fosse dia de buscar inspira\u00e7\u00e3o na filosofia musical de Milton Nascimento, eu tomaria emprestado um verso da Can\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica para lembrar que amigo \u00e9 coisa para se guardar no cora\u00e7\u00e3o. Mas neste s\u00e1bado, 17, resolvi cometer um pequeno delito liter\u00e1rio. 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