{"id":7127,"date":"2026-10-18T02:28:15","date_gmt":"2026-10-18T05:28:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7127"},"modified":"2026-10-18T02:28:15","modified_gmt":"2026-10-18T05:28:15","slug":"politicos-passam-mas-idade-avanca-fincando-mais-as-raizes-da-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasil\/politicos-passam-mas-idade-avanca-fincando-mais-as-raizes-da-experiencia\/","title":{"rendered":"Pol\u00edticos passam, mas idade avan\u00e7a fincando mais as ra\u00edzes da experi\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto os adolescentes do fim dos anos 60 se reuniam na Rua da Consola\u00e7\u00e3o para idolatrar os mitos das jovens tardes de domingo da Jovem Guarda, a meninada de Belo Horizonte escolhia as matin\u00eas melosas da Pra\u00e7a Sete e a gauchada preferia o p\u00f4r do sol \u00e0s margens do Gua\u00edba. Mais espevitado e muito menos preocupado com as sandices da extrema-direita travestida de ditadura ou com as idas e vindas da esquerda, eu procurava as prazerosas tardes de s\u00e1bado na Rua Pinto de Azevedo, no cora\u00e7\u00e3o avermelhado do Rio de janeiro. Era ali que os da minha idade n\u00e3o tiravam o olho do lance produzido pelas mo\u00e7oilas locais.<\/p>\n<p>Foi ali que tamb\u00e9m aprendi que a porcaria do gelo \u00e9 ruim para tudo. Proibida de beber em locais p\u00fablicos, a juventude de ent\u00e3o cresceu sob dogmas dos mais diversos envolvendo as pedras d\u2019\u00e1gua. Por exemplo, diziam que Vodka com gelo era ruim para os rins, Rum com gelo acabava com o f\u00edgado, Gim com gelo prejudicava os neur\u00f4nios e whisky com gelo mudava os batimentos do cora\u00e7\u00e3o. Ou seja, al\u00e9m de derreter e aumentar os n\u00edveis dos oceanos, me ensinaram que o gelo n\u00e3o serve para nada. Ledo engano. Mais velho, descobri que \u00e9 o melhor rem\u00e9dio para inflama\u00e7\u00f5es, les\u00f5es mais agudas e, pasmem, para amenizar os efeitos de overdoses do milagroso Viagra.<\/p>\n<p>Est\u00e1 escrito no livrinho de cabeceira de p\u00e1gina \u00fanica que mergulhar o biscoito em um balde de gelo \u00e9 o medicamento mais eficaz para apagar o eventual viciado fogo do espeto de idosos. O problema \u00e9 a recorr\u00eancia. Insistir com a empreitada gelada \u00e9 perigoso, pois, dizem alguns especialistas em paumolesc\u00eancia que a iniciativa acaba em aumento da brochura, comumente seguida pela perda irrecuper\u00e1vel da autoestima. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que um dia ser\u00e1 vivida por todos os homens vivos. O fato \u00e9 que, pior do que letra morta, a ere\u00e7\u00e3o de velho pode, \u00e0s vezes, parecer uma antena de wi-fi. O problema \u00e9 igual a toda rede mequetrefe: o sinal cai quando entra no t\u00fanel.<\/p>\n<p>Do alto de minha sinceridade mentirosa, n\u00e3o tenho queixas do meu desempenho como macho alfa. Pelo contr\u00e1rio. S\u00f3 tenho medo do malef\u00edcio brochante dos pol\u00edticos. Eles s\u00e3o minha maior preocupa\u00e7\u00e3o. Cl\u00e1ssico e n\u00e3o velho, ultimamente mais pare\u00e7o um daqueles chuveiros Lorenzetti muito usados: n\u00e3o ligo mais e, quando ligo, n\u00e3o esquento. Estou come\u00e7ando a achar que minha metade da laranja j\u00e1 virou suco. Os sinais nabucodonosorianos, aristot\u00e9licos e estrogon\u00f3ficos se perderam nos temporais da perdi\u00e7\u00e3o mental e hoje n\u00e3o incomodam sequer os mosquitos da dengue e da chikungunya. O que fazer se at\u00e9 a uva passa.<\/p>\n<p>Mesmo longe dos meus melhores dias, uso a velhice para me transformar em uma fera na cama. Para exacerbar o \u00f3dio di\u00e1rio da patroa, urino nos quatro cantos do catre para marcar territ\u00f3rio. Crio caso, mas \u00e9 o momento em que busco respostas para o peso de tudo o que n\u00e3o fiz. Onde fracassei? Por que as velas est\u00e3o custando mais caro do que meu bolo? E por que as meninas da Pinto de Azevedo n\u00e3o me consultaram antes de se instalarem na Vila Mimosa? De que me adianta ser uma biblioteca viva se os livros s\u00e3o todos de brochura?<\/p>\n<p>Como consolo, o que posso dizer aos jovens \u00e9 que s\u00f3 se tem conhecimento da velhice chegando-se a ela. Valho-me sempre dos ensinamentos de Simone de Beauvoir para lembrar que a velhice \u00e9 a par\u00f3dia da vida. Como definiu Voltaire, sou uma grande \u00e1rvore, j\u00e1 sem folhas e frutos, mas ainda presa \u00e0 terra. Menos idoso e mais vintage, o que pe\u00e7o aos netos \u00e9 paci\u00eancia e informa\u00e7\u00e3o. O m\u00ednimo que eles podem fazer por n\u00f3s \u00e9 nos escandalizar e nos manter informados acerca das maldades femininas e dos pol\u00edticos metidos \u00e0 macho. Picardias \u00e0 parte, sou antigo, mas deixei de ser velho no dia em que parei de s\u00f3 pensar na idade.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto os adolescentes do fim dos anos 60 se reuniam na Rua da Consola\u00e7\u00e3o para idolatrar os mitos das jovens tardes de domingo da Jovem Guarda, a meninada de Belo Horizonte escolhia as matin\u00eas melosas da Pra\u00e7a Sete e a gauchada preferia o p\u00f4r do sol \u00e0s margens do Gua\u00edba. 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