{"id":7241,"date":"2026-10-20T03:18:55","date_gmt":"2026-10-20T06:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7241"},"modified":"2026-10-20T05:25:37","modified_gmt":"2026-10-20T08:25:37","slug":"levante-popular-liderado-por-jovens-pode-ajudar-lula-a-dar-a-volta-por-cima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/eleicoes-2026\/levante-popular-liderado-por-jovens-pode-ajudar-lula-a-dar-a-volta-por-cima\/","title":{"rendered":"Levante popular liderado por jovens pode ajudar Lula a dar a volta por cima"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><em>&#8220;Com a &#8216;marcha sobre Roma&#8217; [<\/em>1922<em>], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomea\u00e7\u00e3o de Mussolini para a chefia do gabinete. Come\u00e7a para o PCI [<\/em>Partido Comunista Italiano<em>]um per\u00edodo de ilegalidade de fato. No Partido, como Trotski recordar\u00e1 em 1932, ningu\u00e9m admitia a possibilidade de uma ditadura fascista &#8216;salvo Gramsci&#8217;.&#8221; (&#8220;Cronologia da vida de A. Gramsci&#8221;. In:Cadernos do C\u00e1rcere, vol. 1.Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2004).<\/em><\/p>\n<p>Em texto com data prov\u00e1vel de 1930, Antonio Gramsci observa o fen\u00f4meno crise hist\u00f3rica para afirmar que seu car\u00e1ter est\u00e1, precisamente, no fato de que o &#8220;velho morre e o novo n\u00e3o consegue nascer: nesse interregno verificam-se os mais variados fen\u00f4menos m\u00f3rbidos&#8221;. Ou, na vers\u00e3o mais conhecida (retirada da tradu\u00e7\u00e3o francesa), &#8220;o velho mundo est\u00e1 morrendo, o novo tarda a aparecer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros&#8221;.<\/p>\n<p>O autor de <i>Cadernos do C\u00e1rcere<\/i> est\u00e1, evidentemente, a refletir sobre a Europa de ent\u00e3o. Sua It\u00e1lia j\u00e1 estava sob o jugo fascista (desde 1922), e na Alemanha o nazismo avan\u00e7ava marchando com botas de sete l\u00e9guas. Hitler, como \u00e9 sabido, conquistaria a chancelaria em 1933. O que se segue, inclusive entre n\u00f3s, \u00e9 hist\u00f3ria consabida, e nada edificante.<\/p>\n<p>O &#8220;claro-escuro&#8221; gramsciano precisa o intervalo hist\u00f3rico entre os estertores da velha ordem, quando ela perde a capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o, e uma nova ordem sucessora ainda n\u00e3o conseguiu impor-se. Karl Marx (pref\u00e1cio \u00e0 <i>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/i>, 1859) explica como, em determinada etapa de seu desenvolvimento, as for\u00e7as produtivas materiais da sociedade entram em contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Quando isso ocorre, as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o deixam de cumprir com seu papel de fator de desenvolvimento e passam a atuar como entraves.<\/p>\n<p>A crise de hegemonia, em sentido gramsciano \u2014 descendente da an\u00e1lise marxista do bonapartismo \u2014, ocorre quando a classe dominante n\u00e3o consegue mais construir um consenso em torno de seu projeto. O Estado (&#8220;um comit\u00ea para administrar os neg\u00f3cios comuns de toda a classe burguesa&#8221;) perde a capacidade de representar como interesses universais da sociedade os interesses particulares do capital. \u00c9 o momento em que &#8220;o velho est\u00e1 morrendo e o novo n\u00e3o pode nascer&#8221;.<\/p>\n<p>Entra em crise a capacidade de a classe dominante exercer sua lideran\u00e7a ideol\u00f3gica (&#8220;as ideias dominantes de uma \u00e9poca s\u00e3o as ideias da classe dominante&#8221;) sobre a sociedade, essencial para o exerc\u00edcio do mando; a ordem burguesa v\u00ea dilu\u00edrem-se as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias de funcionamento e legitima\u00e7\u00e3o. O momento seguinte \u00e9 o de fal\u00eancia de sua capacidade de constitui\u00e7\u00e3o de uma ordem alternativa, necess\u00e1ria para intentar sua sobrevida, ainda que em outros termos.<\/p>\n<p>A crise de autoridade e de hegemonia abre espa\u00e7o para fen\u00f4menos pol\u00edticos reacion\u00e1rios, e a desagrega\u00e7\u00e3o da ordem pol\u00edtica favorece a ades\u00e3o a solu\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas, dentre as quais a mais significativa \u00e9 a via totalit\u00e1ria ou autorit\u00e1ria, por defini\u00e7\u00e3o regressiva.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o carece de a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e pode mesmo realizar-se nos marcos da legalidade formal, como \u00e9, no caso brasileiro, a amea\u00e7a presente do neofascismo. De outra parte, nossa hist\u00f3ria \u00e9 fecunda em exemplos de altera\u00e7\u00e3o da ordem para que a ordem permane\u00e7a a mesma. Neste sentido, \u00e9 exemplar o golpe de Estado da madrugada de 1\u00ba de abril de 1964. Em 1889, o golpe da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica tamb\u00e9m serviu para manter no poder a ordem do latif\u00fandio arcaico, que sobreviveria at\u00e9 pelo menos 1930.<\/p>\n<p>A classe dominante perde a ades\u00e3o das grandes massas, e sua hegemonia (desconsiderada a an\u00e1lise respeitante a qualquer sorte de legitimidade) \u00e9 posta em xeque. Quando isso ocorre, a ordem passa a depender da for\u00e7a coercitiva do Estado, \u00e0 qual se associa a instrumentaliza\u00e7\u00e3o dos partidos e de for\u00e7as sociais, inclusive movimentos religiosos e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mobilizados em defesa do <i>statu quo<\/i>, ou do recuo hist\u00f3rico, como se observa, entre n\u00f3s, no bolsonarismo e em setores da direita evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>A ordem vigente entra em crise, mas conserva ainda for\u00e7as para impedir que uma nova ordem emerja e, frente ao impasse, a desagrega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abre o largo espa\u00e7o por onde trafegam as solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e messi\u00e2nicas.<\/p><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Foi em ambiente de crise que emergiram as forma\u00e7\u00f5es totalit\u00e1rias do s\u00e9culo passado, percorrendo os caminhos abertos pelo fracasso da social-democracia. N\u00e3o s\u00f3 na Europa como na Am\u00e9rica Latina, e entre n\u00f3s, com o Estado Novo, que derrogou a Constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1934, tentativa frustrada de normatizar o movimento de 1930. Em 1946 o cel. Per\u00f3n \u00e9 eleito na Argentina. Outro exemplo, em nosso Continente, para ficarmos em poucos, \u00e9 oferecido pelo Peru. Em 1990 Alberto Fujimori \u00e9 eleito Presidente, para, em 1992, com apoio das For\u00e7as Armadas, comandar um autogolpe e impor uma ditadura que sobreviveria at\u00e9 2000.<\/p>\n<p>Esse quadro certamente ajuda a explicar a eros\u00e3o democr\u00e1tica que percorre o mundo no desdobramento da crise estrutural do capitalismo, \u00a0e que chega de forma quase avassaladora ao nosso continente, tocada a partir da Casa Branca, acicatada pelos impasses que se colocam para sua hegemonia, mesmo no mundo ocidental. A crise geopol\u00edtica \u00e9 ainda alimentada pelo esgotamento de sua economia, ponto de partida para a crise pol\u00edtica, da qual o trumpismo \u00e9 a mais evidente consequ\u00eancia. Este \u00e9 o car\u00e1ter ostensivo da crise do capitalismo, que hoje, mais do que nunca, depende de sua lideran\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edtica e econ\u00f4mica, mas, antes de tudo, de sua salvaguarda militar. Sua agressividade n\u00e3o deve ser tributada \u00e0 patologia de seu presidente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 esta, por\u00e9m, a \u00fanica via que a hist\u00f3ria registra como alternativa \u00e0 crise de hegemonia. Com Marx, sabemos que as contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o produzem necessariamente uma crise terminal do capitalismo. A hist\u00f3ria vem demonstrando, \u00e0 saciedade, os recursos desse sistema para administrar suas contradi\u00e7\u00f5es\/seus conflitos, reorganizar a produ\u00e7\u00e3o, conquistar novos mercados, alterar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho (aprofundando a explora\u00e7\u00e3o de que se nutre) e, saltando para a pol\u00edtica, alterar a atua\u00e7\u00e3o do Estado. Por isso mesmo, a crise do capitalismo, que tamb\u00e9m pode ser vista como fen\u00f4meno a ele imanente, n\u00e3o significa, <i>ipso facto<\/i>, seu fim.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00c9 prudente n\u00e3o confundir determinismo hist\u00f3rico com fatalismo: as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas revelam a crise, mas n\u00e3o a resolvem. N\u00e3o basta que a sociedade produza desigualdade, que o Estado seja instrumento de opress\u00e3o dos interesses das classes subalternizadas pelo capital; essas s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, mas n\u00e3o suficientes para a luta de classes. Gramsci nos dir\u00e1 que a crise n\u00e3o consiste simplesmente no fato de que o velho perdeu for\u00e7a. Consiste tamb\u00e9m em que o novo n\u00e3o adquiriu capacidade suficiente para substitu\u00ed-lo. As contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo, t\u00e3o bem identificadas por Marx, se convertem em crise de dire\u00e7\u00e3o, mas essa crise n\u00e3o conduz necessariamente a uma alternativa emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O salto qualitativo entre a passividade e a consci\u00eancia pol\u00edtica, ponte para a luta de classe, n\u00e3o resulta, automaticamente, naturalmente, deterministicamente, da exist\u00eancia prolet\u00e1ria: \u00e9 fruto do processo social. O avan\u00e7o pol\u00edtico se realiza quando as classes subalternas \u2013 avan\u00e7ando sobre as reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, \u00a0que no entanto desempenham essencial papel pedag\u00f3gico &#8212; entendem que seus interesses, aparentemente particulares, devem se tornar interesses de outros grupos subalternizados. \u00c9 quando, retomamos Gramsci, o proletariado se v\u00ea capaz de elaborar um projeto pol\u00edtico para toda a sociedade e disputar a hegemonia; \u00e9 quando os sindicatos se legitimam e se politizam.<\/p>\n<p>A crise pol\u00edtica brasileira de nossos dias contagia a institucionalidade e se debru\u00e7a sobre o Poder Judici\u00e1rio, no qual a cidadania n\u00e3o sabe se com ele pode contar para a defesa de seus direitos. Mas nada \u00e9 mais contundente do que os n\u00fameros do pleito de 4 de outubro passado, de que resultou a forma\u00e7\u00e3o de um Congresso majoritariamente de direita, apto a romper com o pacto social que nos deu a Constitui\u00e7\u00e3o liberal de 1988 e, assim, jogar por terra as conquistas sociais amealhadas pela sociedade ao longo de sua hist\u00f3ria republicana. Ademais, e mais facilmente do que em 2016, poder\u00e1 decretar o impeachment do futuro Presidente. Lula, reeleito, corre o risco de governar sob esta verdadeira espada de D\u00e1mocles.<\/p>\n<p>Se a direita abocanhar a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ter\u00e1 sob suas r\u00e9deas, \u00a0os tr\u00eas poderes da Rep\u00fablica, o que nem mesmo a ditadura militar, de que o bolsonarismo \u00e9 herdeiro, logrou alcan\u00e7ar. Porque, al\u00e9m do Executivo e do Congresso, controlar\u00e1 o Poder Judici\u00e1rio, de fio a pavio: o pr\u00f3ximo Presidente indicar\u00e1, em seu mandato, pelo menos quatro novos ministros para o STF. Poder\u00e3o ser mais quatro ministros &#8220;terrivelmente evang\u00e9licos&#8221; que se juntar\u00e3o aos seus dois p\u00e9ssimos esp\u00e9cimes que j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o. A soma mostra seis ministros em um colegiado de onze!<\/p>\n<p>O novo \u00a0Congresso \u00e9 fruto da crise de representa\u00e7\u00e3o, que p\u00f5e em risco a Rep\u00fablica. Ela resulta da percep\u00e7\u00e3o da classe dominante de que o projeto de centro-esquerda, representado pelos governos liderados pelo PT, cobra concess\u00f5es que ela n\u00e3o est\u00e1 disposta a fazer. Justi\u00e7a seja feita \u00e0 Faria Lima: desde 2013 ela d\u00e1 mostras de insatisfa\u00e7\u00e3o, sinais que nos recus\u00e1mos a identificar, mesmo depois do golpe parlamentar que dep\u00f4s a presidente Dilma Rousseff, e ainda mesmo depois das elei\u00e7\u00f5es de 2018!<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s a dific\u00edlima elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2022, nos revel\u00e1mos incapazes de construir &#8220;uma nova maioria&#8221;, como reclama Marcio Pochmann, e assim se explicam nossas dificuldades de enfrentar o avan\u00e7o da onda reacion\u00e1ria. Este foi o pre\u00e7o cobrado pelo &#8220;pacto de concilia\u00e7\u00e3o&#8221;, inarredavelmente conservador.<\/p>\n<p>De um lado, perfila-se a classe dominante para impor sua vontade, primeiro pelo voto. Conquistado o p\u00f3dio, avan\u00e7ar\u00e1 sobre a ordem democr\u00e1tica e os direitos sociais e far\u00e1 deste pa\u00eds uma extens\u00e3o do poder imperial de Washington. As classes subalternas brasileiras ainda n\u00e3o se encontram em condi\u00e7\u00f5es de construir uma alternativa de hegemonia. A resist\u00eancia \u00e0 ditadura, a luta pelas <i>Diretas J\u00e1<\/i>, as greves do ABC, a reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o liberal, configuram momentos de festejada politiza\u00e7\u00e3o, que, no entanto, vive o risco de ser \u00a0posta a pique pela avalanche da direita.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo de novo a registrar, e muito precioso: o verdadeiro levante popular que, nos \u00faltimos 15 ou 20 dias, tomou as ruas de todo o pa\u00eds, em defesa da democracia, neste transe reorientada pela necessidade hist\u00f3rica de reeleger o presidente Lula, o dique que a sociedade pode construir para conter a amea\u00e7a neofascista.<\/p>\n<p>Este levante \u00e9, por si s\u00f3, o fato mais not\u00e1vel desta quadra, e o que mais ressalta \u00e9 o car\u00e1ter inusitado de sua espontaneidade. Desapartada dos partidos, ou independentemente deles, a juventude veio \u00e0s ruas numa mobiliza\u00e7\u00e3o que, entre n\u00f3s, superou os idos de 1968, empolgou o pa\u00eds, animou o que talvez possamos chamar de &#8220;alma nacional&#8221; e possivelmente definir\u00e1 o pleito.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia dos jovens na pol\u00edtica, pondo por terra a apatia em que parecia adormecida a sociedade, traz de volta a esperan\u00e7a, pois revela um alto n\u00edvel de politiza\u00e7\u00e3o que perdurar\u00e1 para al\u00e9m do pleito, indicando a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, disposta a construir sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos mais, passivos, condenados a assistir \u00e0 emerg\u00eancia dos monstros.<\/p><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1\u00a0<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Com a &#8216;marcha sobre Roma&#8217; [1922], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomea\u00e7\u00e3o de Mussolini para a chefia do gabinete. 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