{"id":7271,"date":"2026-10-21T07:49:31","date_gmt":"2026-10-21T10:49:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7271"},"modified":"2026-10-21T07:49:31","modified_gmt":"2026-10-21T10:49:31","slug":"criticar-bebida-de-poeta-e-pior-que-lamentar-que-nem-todo-bebum-e-poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/criticar-bebida-de-poeta-e-pior-que-lamentar-que-nem-todo-bebum-e-poeta\/","title":{"rendered":"Criticar bebida de poeta \u00e9 pior que lamentar que nem todo bebum \u00e9 poeta"},"content":{"rendered":"<p>Dif\u00edcil continuar, mas entrei naquela fase de querer ficar distante dos pol\u00edticos e, se poss\u00edvel, bem longe dos que se acham entendidos em pol\u00edtica. S\u00e3o aqueles que transformam temas simples do futebol, da m\u00fasica e da pr\u00f3pria rinha eleitoral em debates profundos e quase b\u00e9licos. Pode ser v\u00e3, mas \u00e9 uma tentativa de evitar desgastes desnecess\u00e1rios e de buscar me aculturar com os que misturam idiomas e, mesmo sem saber pronunci\u00e1-las direito, s\u00f3 usam palavras dif\u00edceis nos di\u00e1logos caracterizados pelo efeito do \u00e1lcool e marcados por repeti\u00e7\u00f5es, excesso de franqueza, confus\u00e3o de ideias e, sobretudo, a velha filosofia de boteco.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que estou me referindo aos b\u00eabados. Apesar de n\u00e3o ser um deles, tenho procurado os par\u00e7as para conversas de segundo e terceiro graus. Querem coisa melhor do que um bate-papo com quem acredita ser um psic\u00f3logo ou conselheiro infal\u00edvel, do tipo que se acha capaz de resolver os problemas do mundo? Dependendo do grau e da qualidade da \u201cmardita\u201d, a gente ouve sem querer demonstra\u00e7\u00f5es efusivas de amor aos amigos e muitas hist\u00f3rias de amores perdidos, chifres mal curados, rela\u00e7\u00f5es inusitadas e at\u00e9 de alterca\u00e7\u00f5es com os santos.<\/p>\n<p>Depois de meia hora com dois ou tr\u00eas deles, descobri que n\u00e3o h\u00e1 reparo algum na frase cunhada pelo poeta norte-americano Charles Bukowski, para quem ser s\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas para ser b\u00eabado tem de ter talento. Para defender a classe, vou mais longe e lembro de uma cita\u00e7\u00e3o do escritor irland\u00eas Oscar Wilde. Segundo Wilde, nunca devemos lamentar que um poeta seja um b\u00eabado, mas sim lastimar que nem todos os b\u00eabados sejam poetas. E assim caminha a humanidade democr\u00e1tica livre de preconceitos rumo ao primeiro boteco ainda aberto.<\/p>\n<p>Fiz isso e percebi que os b\u00eabados podem tranquilamente amar publicamente outro b\u00eabado. N\u00e3o me envolvi, mas eu vi uma dessas estranhas transas. Madrugada dessas, enquanto esperava o buz\u00e3o defronte a um desses arranha-c\u00e9us de \u00c1guas Claras, uma das cidades mais novas de Bras\u00edlia, notei que um cidad\u00e3o calibrado at\u00e9 a alma se debru\u00e7ou sobre um container de lixo org\u00e2nico. A descoberta \u2013 dele e minha \u2013 feriu o mais libidinoso dos pensamentos. Dentro do container, sem as cal\u00e7as e com o toba vertido para cima e j\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de combate, havia um outro b\u00eabado. Na verdade, tr\u00eabado.<\/p>\n<p>Escornado, o camarada vestia palet\u00f3 e gravata. N\u00e3o houve conversa. Da descoberta para o creu bastaram meia d\u00fazia de segundos. Conclu\u00edda a quase desequilibrada e n\u00e3o consentida a\u00e7\u00e3o, o melhor foi a rea\u00e7\u00e3o do saciado pingu\u00e7o. Ora olhando para mim, ora olhando para as janelas do edif\u00edcio, o b\u00eabado equilibrista balbuciou meio entre os dentes: Esses ricos realmente n\u00e3o s\u00e3o acumuladores. Veja s\u00f3, um toba desse bonzinho jogado na lata do lixo. Preferi o sil\u00eancio, mas, tamb\u00e9m silenciosamente, pedi a todos os deuses para que o comedor n\u00e3o virasse lanche na quadra seguinte.<\/p>\n<p>Mais light foi ouvir a conversa entre um obreiro de uma dessas igrejas evang\u00e9licas e um bebum crist\u00e3o. Ao passar na porta do templo, o sujeito mamad\u00e3o foi \u201cconvidado\u201d a entrar na magn\u00edfica e suntuosa edifica\u00e7\u00e3o. Dois passos e come\u00e7ou a ensurdecedora gritaria. A ala da direita gritava aleluia, a do centro respondia com gl\u00f3ria a Deus e a da esquerda se mantinha contrita. Dando meia volta, o cachaceiro indagou do obreiro a raz\u00e3o dos gritos. Informado que era Jesus operando, o chumbado mancebo se preocupou com a incessante gritaria e quis logo saber se a tal opera\u00e7\u00e3o era sem anestesia. Foi expulso da igreja aos pontap\u00e9s. Participei do culto at\u00e9 o momento do recolhimento do d\u00edzimo.<\/p>\n<p>Queria colaborar. E colaborei. Antes, por\u00e9m, entre boquiaberto e perplexo, assisti \u00e0 cerim\u00f4nia de batismo dos crentes. N\u00e3o sei de onde o camarada ressurgiu, mas l\u00e1 estava o mesmo b\u00eabado. Primeiro da fila, ele foi pego pelo gasganete e empurrado com roupa e tudo at\u00e9 um fundo da tina. A pergunta e a resposta eram sempre repetidas: <i>Irm\u00e3o, viu Jesus Cristo? Glub, glub, glub, n\u00e3o<\/i>. Na d\u00e9cima ida ao fundo da tina, a mesma pergunta e uma nova resposta: <i>E a\u00ed, irm\u00e3o viu Jesus? Pastor, o senhor tem certeza de que foi aqui mesmo que Ele se afogou? <\/i>Na d\u00favida, nunca mais fui \u00e0quela igreja e, pelo sim, pelo n\u00e3o, me parece mais normal embarcar na hist\u00f3ria de um corrupto conhecido do que nas aventuras de um alco\u00f3lico an\u00f4nimo.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dif\u00edcil continuar, mas entrei naquela fase de querer ficar distante dos pol\u00edticos e, se poss\u00edvel, bem longe dos que se acham entendidos em pol\u00edtica. S\u00e3o aqueles que transformam temas simples do futebol, da m\u00fasica e da pr\u00f3pria rinha eleitoral em debates profundos e quase b\u00e9licos. 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