{"id":7428,"date":"2026-10-24T15:45:00","date_gmt":"2026-10-24T18:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7428"},"modified":"2026-10-24T15:45:00","modified_gmt":"2026-10-24T18:45:00","slug":"carlinha-a-cearense-do-armazem-que-vende-de-tudo-menos-a-propria-alegria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/carlinha-a-cearense-do-armazem-que-vende-de-tudo-menos-a-propria-alegria\/","title":{"rendered":"Carlinha, a cearense do Armaz\u00e9m que vende de tudo, menos a pr\u00f3pria alegria"},"content":{"rendered":"<p>Vou repetir neste espa\u00e7o um velho mantra sobre pessoas que chegam \u00e0 vida da gente como quem entra numa loja para comprar uma garrafa de \u00e1gua e acaba levando uma caixa de boas lembran\u00e7as; j\u00e1 outras aparecem feito brisa nordestina, trazendo no sorriso o calor do Sol e, na alma, a do\u00e7ura de quem aprendeu cedo que viver \u00e9 uma arte. Carlinha pertence \u00e0s duas categorias, porque \u00e9 uma criatura que, se Deus n\u00e3o tivesse inventado, certamente algum cearense teria criado entre uma hist\u00f3ria de causos e outra numa mesa de bar em Fortaleza.<\/p>\n<p>Hoje, pe\u00e7o licen\u00e7a a Nonato, seu companheiro, para cometer uma pequena indiscri\u00e7\u00e3o afetiva. N\u00e3o vou falar dele. Pelo menos n\u00e3o como personagem principal. Afinal, at\u00e9 os homens mais importantes precisam compreender que h\u00e1 dias em que o protagonismo pertence exclusivamente \u00e0s mulheres. E Carlinha, convenhamos, merece n\u00e3o apenas os refletores, mas tamb\u00e9m uma salva de palmas, dessas que fazem tremer as paredes e acordam os deuses adormecidos do Olimpo.<\/p>\n<p>Gerente do Armaz\u00e9m 205, em \u00c1guas Claras, Carlinha comanda uma esp\u00e9cie de f\u00e1brica de solu\u00e7\u00f5es para as necessidades humanas. Ali se encontra de tudo um pouco, desde o u\u00edsque que aquece a conversa \u00e0 loira gelada que refresca os pensamentos; do petisco que acompanha a primeira rodada de conversa \u00e0 massa congelada que salva o jantar de quem esqueceu que a fome costuma chegar sem avisar.<\/p>\n<p>\u00c9 tanta coisa que se algu\u00e9m pedir um peda\u00e7o da Lua, desconfio que Carlinha consultar\u00e1 o estoque antes de responder que est\u00e1 em falta.<\/p>\n<p>O Armaz\u00e9m 205 \u00e9 uma dessas maravilhas da economia moderna em que o fregu\u00eas entra procurando uma coisa e descobre que precisa de outras dez. Pertence a Alessandra, empres\u00e1ria que administra uma cadeia de cinco estabelecimentos espalhados pela capital da Rep\u00fablica. L\u00e1 h\u00e1 a capacidade de transformar clientes em amigos, h\u00e1 algo que n\u00e3o se compra por atacado, n\u00e3o se encontra nas prateleiras e muito menos aparece no invent\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra Carlinha. Certa vez presenciei algu\u00e9m que, por curiosidade, perguntou a Alessandra como ela definiria sua gerente. A resposta veio curta, categ\u00f3rica, sem necessidade de adjetivos suplementares:<\/p>\n<p>\u2014 Carlinha \u00e9 fant\u00e1stica. E ponto final.<\/p>\n<p>Conclu\u00ed, com a resposta, que quando uma empres\u00e1ria resume uma funcion\u00e1ria dessa maneira, sem recorrer aos manuais de recursos humanos, \u00e9 porque encontrou algo mais valioso do que compet\u00eancia profissional. Descobriu, sim, um tesouro recheado de confian\u00e7a, dedica\u00e7\u00e3o e aquele raro talento de fazer as engrenagens girarem sem que ningu\u00e9m perceba o esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Carlinha nasceu em Fortaleza, terra de Iracema, a virgem dos l\u00e1bios de mel eternizada por Jos\u00e9 de Alencar. H\u00e1 um quarto de s\u00e9culo, resolveu conhecer Bras\u00edlia, onde, imaginava, encontraria apenas monumentos de concreto, avenidas largas e pol\u00edticos de promessas ainda maiores. Ela, por\u00e9m, encontrou um destino, porque se veio para conhecer, gostou e ficou.<\/p>\n<p>E assim, sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o a Juscelino Kubitschek nem consultar os tra\u00e7os de Oscar Niemeyer, acrescentou \u00e0 arquitetura da capital : sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, uma constru\u00e7\u00e3o muito particular. S\u00e3o 25 anos de Bras\u00edlia, tempo suficiente para trocar a maresia da Praia de Iracema pelo vento seco do Cerrado, aprender que o c\u00e9u da capital \u00e9 um oceano de cabe\u00e7a para baixo e descobrir que, embora n\u00e3o tenha mar, a cidade tamb\u00e9m oferece suas ondas. Algumas de alegria, outras de dificuldades, mas todas enfrentadas com a coragem de quem carrega o Nordeste no sangue.<\/p>\n<p>Nesse intervalo, a vida lhe deu dois presentes que n\u00e3o cabem em nenhuma embalagem do Armaz\u00e9m: uma filha de 16 anos e um filho de 15. Dois adolescentes que certamente conhecem uma Carlinha diferente daquela que vemos atr\u00e1s do balc\u00e3o. A m\u00e3e que aconselha, protege, cobra, abra\u00e7a e, quando necess\u00e1rio, transforma a voz doce em decreto presidencial.<\/p>\n<p>Imagino uma conversa dom\u00e9stica:<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, posso chegar mais tarde?<\/p>\n<p>\u2014 Pode, desde que mais tarde seja mais cedo.<\/p>\n<p>\u00c9 o velho m\u00e9todo cearense de educar, aperfei\u00e7oado pelas m\u00e3es brasileiras, de negociar sem abrir m\u00e3o da autoridade. Mas existe uma segunda Carlinha, que surge quando o rel\u00f3gio se aproxima das 23h40. N\u00e3o \u00e9 personagem de novela nem criatura sa\u00edda das p\u00e1ginas de Kafka. \u00c9 simplesmente a mulher que, depois de cumprir sua jornada, fecha pontualmente as portas do Armaz\u00e9m e atravessa a fronteira invis\u00edvel que separa o trabalho da confraterniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse momento, come\u00e7a outro expediente. Sem sal\u00e1rio, sem cart\u00e3o de ponto e, sobretudo, sem patr\u00e3o. \u00c9 chegada a hora do Clube do Domin\u00f3. A confraria da 205, esse pequeno parlamento informal onde as pedras t\u00eam mais autoridade do que muitos discursos pronunciados na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, ganha ent\u00e3o uma personagem especial. Carlinha deixa para tr\u00e1s o universo das mercadorias e ingressa no territ\u00f3rio das amizades, das brincadeiras, das provoca\u00e7\u00f5es e das gargalhadas.<\/p>\n<p>Ali, ningu\u00e9m precisa apresentar curr\u00edculo, bastando apenas ter disposi\u00e7\u00e3o para conviver. Em ocasi\u00f5es assim, imagino Zeus, l\u00e1 do alto do Olimpo, observando a cena e perguntando a Hermes:<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 aquela mulher que chega t\u00e3o tarde e ainda encontra energia para sorrir?<\/p>\n<p>O mensageiro dos deuses, depois de consultar suas anota\u00e7\u00f5es, responderia:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 Carlinha, senhor. Cearense de nascimento, brasiliense por ado\u00e7\u00e3o e especialista em transformar cansa\u00e7o em alegria.<\/p>\n<p>\u2014 E por que n\u00e3o chegou mais cedo?<\/p>\n<p>\u2014 Porque estava trabalhando, meu rei. Diferentemente de certos deuses, ela precisa cumprir hor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Zeus provavelmente ficaria contrariado, embora acabando por reconhecer que, entre os mortais, existem pessoas que merecem lugar de honra no banquete celestial.<\/p>\n<p>Carlinha \u00e9 uma delas. N\u00e3o sei se joga domin\u00f3 com a ast\u00facia de uma Cle\u00f3patra, se distribui as pedras com a precis\u00e3o de uma estrategista romana ou se prefere simplesmente assistir aos confrontos enquanto saboreia a conversa. Isso pouco importa, porque no Clube do Domin\u00f3, o verdadeiro campeonato n\u00e3o \u00e9 decidido apenas pela soma dos pontos, mas pela qualidade dos encontros. E Carlinha, mesmo quando n\u00e3o est\u00e1 disputando uma partida, j\u00e1 chega vencedora.<\/p>\n<p>Nonato, que me perdoe mais uma vez, mas hoje ter\u00e1 de aceitar o papel de coadjuvante. Pode at\u00e9 reclamar, pedir direito de resposta ou recorrer ao tribunal das pedras embaralhadas. Contudo, nada disso adiantar\u00e1, pois a senten\u00e7a est\u00e1 proferida, e dela n\u00e3o cabe recurso.<\/p>\n<p>A homenageada \u00e9 Carlinha, porque h\u00e1 mulheres que n\u00e3o precisam usar coroas para serem rainhas, n\u00e3o necessitam de cetros para exercer autoridade, nem de pal\u00e1cios para demonstrar grandeza. Basta-lhes um balc\u00e3o, uma rotina de trabalho, a responsabilidade de criar os filhos e a generosidade de repartir o pouco tempo livre com os amigos.<\/p>\n<p>Penso, \u00e0s vezes, que a felicidade n\u00e3o mora necessariamente nas grandes conquistas. Avalio que pode estar escondida numa conversa despretensiosa, no tilintar dos copos, no barulho seco de uma pedra de domin\u00f3 batendo sobre a mesa ou naquele sorriso que chega quando a noite j\u00e1 amea\u00e7a virar madrugada. Como Carlinha parece conhecer esse segredo, se algu\u00e9m me perguntasse qual \u00e9 o produto mais precioso do Armaz\u00e9m 205, eu n\u00e3o apontaria para a prateleira dos u\u00edsques importados, para as cervejas estupidamente geladas ou para as iguarias guardadas nos congeladores.<\/p>\n<p>Simplesmente responderia sem hesitar:<\/p>\n<p>\u2014 O melhor produto n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda. Chama-se Carlinha.<\/p>\n<p>E acrescentaria, para n\u00e3o deixar d\u00favidas, que Alessandra tem raz\u00e3o. Ela \u00e9 fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>Quanto a mim, continuarei acreditando que Fortaleza perdeu uma filha para Bras\u00edlia, mas ganhou uma embaixadora de sua alegria. Uma mulher que atravessou o Brasil para conhecer uma cidade e acabou ajudando a construir, com trabalho, afeto e perseveran\u00e7a, um pequeno universo de amizades.<\/p>\n<p>E quando o rel\u00f3gio marcar 23h40, as portas do Armaz\u00e9m se fecharem e Carlinha aparecer junto \u00e0 turma do domin\u00f3, haver\u00e1 sempre uma cadeira imagin\u00e1ria reservada para ela no cora\u00e7\u00e3o de cada amigo. Porque existem estabelecimentos que vendem bebidas, alimentos e conveni\u00eancias, como existem pessoas que oferecem algo infinitamente mais raro &#8211; o carisma humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 Carlinha oferece as duas coisas. A primeira tem pre\u00e7o na etiqueta e a segunda n\u00e3o tem pre\u00e7o no mundo. E, se me permitem uma \u00faltima licen\u00e7a po\u00e9tica, direi que, naquela esquina de \u00c1guas Claras, o Armaz\u00e9m 205 fecha \u00e0s 23h40. Mas o cora\u00e7\u00e3o de Carlinha permanece aberto 24 horas por dia.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou repetir neste espa\u00e7o um velho mantra sobre pessoas que chegam \u00e0 vida da gente como quem entra numa loja para comprar uma garrafa de \u00e1gua e acaba levando uma caixa de boas lembran\u00e7as; j\u00e1 outras aparecem feito brisa nordestina, trazendo no sorriso o calor do Sol e, na alma, a do\u00e7ura de quem aprendeu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7429,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"tmauthors":[27],"class_list":["post-7428","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-leitura-vip"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7428"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7428\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7430,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7428\/revisions\/7430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7429"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7428"},{"taxonomy":"tmauthors","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tmauthors?post=7428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}