{"id":7759,"date":"2026-10-29T05:07:06","date_gmt":"2026-10-29T08:07:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7759"},"modified":"2026-10-29T05:42:19","modified_gmt":"2026-10-29T08:42:19","slug":"mariposa-a-borboleta-bruxa-seus-misterios-e-o-aroma-do-cigarro-na-madrugada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasilia\/mariposa-a-borboleta-bruxa-seus-misterios-e-o-aroma-do-cigarro-na-madrugada\/","title":{"rendered":"Mariposa, a borboleta-bruxa, seus mist\u00e9rios e o aroma do cigarro na madrugada"},"content":{"rendered":"<p>A madrugada de Bras\u00edlia tem seus pr\u00f3prios segredos, com alguns caminhando pelas superquadras desertas e outros se escondendo entre as \u00e1rvores retorcidas do Cerrado. H\u00e1 tamb\u00e9m os que dormem sob os postes de luz amarelada, e aqueles que, sem pedir licen\u00e7a, entram pelas janelas dos apartamentos. Foi assim que ela apareceu, negra como uma noite sem lua e silenciosa como uma ora\u00e7\u00e3o esquecida, para pousar na parede branca e ficar im\u00f3vel, como se aguardasse algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era uma mariposa, dessas que o imagin\u00e1rio popular batizou de borboleta-bruxa. Grande, misteriosa, com asas que pareciam recortadas de um peda\u00e7o da escurid\u00e3o. N\u00e3o batia \u00e0 porta, n\u00e3o anunciava sua chegada; simplesmente estava ali, contrastando com a brancura da parede, como uma mancha de tinta deixada pelo pincel de algum artista distra\u00eddo.<\/p>\n<p>Olhei para ela que, naturalmente, n\u00e3o demonstrou interesse em mim. Talvez porque as mariposas conhe\u00e7am segredos que os homens jamais compreender\u00e3o, ou porque, diferentemente de n\u00f3s, n\u00e3o desperdicem a madrugada com perguntas cujas respostas o amanhecer costuma levar embora.<\/p>\n<p>Lembrei-me das hist\u00f3rias contadas pelas av\u00f3s nordestinas. Diz a cren\u00e7a que quando uma borboleta negra entrava em casa, era sinal de press\u00e1gio. Para uns, anunciava a morte; para outros, a visita de uma alma querida, como se atravessassem o invis\u00edvel para matar saudades dos vivos. Havia ainda quem enxergasse na visitante um aviso de transforma\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a de destino ou simples lembran\u00e7a de que a vida guarda mist\u00e9rios que a ci\u00eancia n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de desvendar.<\/p>\n<p>No Nordeste, onde o sobrenatural costuma sentar-se \u00e0 mesa com o caf\u00e9 rec\u00e9m-passado, ningu\u00e9m brincava com essas apari\u00e7\u00f5es. As mulheres faziam o sinal da cruz, os homens fingiam coragem e as crian\u00e7as, com os olhos arregalados, aprendiam que o mundo era muito maior do que aquilo que se podia tocar.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, entretanto, parece ter perdido a intimidade com seus fantasmas. Aqui, os press\u00e1gios costumam vestir ternos, ocupar gabinetes e circular pelos corredores do poder, onde algumas assombra\u00e7\u00f5es t\u00eam motorista, assessores e cart\u00e3o corporativo, e outras dispensam asas porque aprenderam a voar com dinheiro p\u00fablico. A borboleta-bruxa, diante de tamanha concorr\u00eancia, n\u00e3o passaria de uma inocente turista noturna.<\/p>\n<p>Mas essa visitante, em especial, tinha algo diferente. Continuava im\u00f3vel, desenhando sua silhueta escura sobre a parede clara. Parecia observar o tempo, esse velho feiticeiro que transforma juventude em lembran\u00e7a, amor em saudade e promessas em poeira. Pensei nas pessoas que partiram, nos amigos que a vida espalhou pelos quatro cantos do mundo, nos abra\u00e7os adiados e nas palavras que jamais foram pronunciadas.<\/p>\n<p>Pensei comigo mesmo: e se essa mariposa fosse uma mensageira? N\u00e3o necessariamente da morte, como pregavam as supersti\u00e7\u00f5es antigas. Talvez fosse apenas uma embaixadora da mem\u00f3ria, trazendo nas asas o perfume de alguma aus\u00eancia ou, que sabe, uma lembran\u00e7a de quem j\u00e1 n\u00e3o pode telefonar, bater \u00e0 porta ou sentar-se conosco para conversar sobre as pequenas trag\u00e9dias e as grandes alegrias da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia certamente teria uma explica\u00e7\u00e3o menos po\u00e9tica. Diria que mariposas s\u00e3o atra\u00eddas pela luz, procuram abrigo e desempenham seu papel na natureza. A defini\u00e7\u00e3o estaria correta, porque a raz\u00e3o tem dessas virtudes. \u00c9 capaz de explicar o fen\u00f4meno, identificar a esp\u00e9cie, descrever o comportamento, mas nem sempre consegue traduzir o arrepio que percorre a espinha quando uma criatura da noite aparece justamente no instante em que estamos conversando com nossas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, Bras\u00edlia dormia. Dava para sentir o vento soprando discretamente entre os pr\u00e9dios, acompanhar com os olhos um autom\u00f3vel solit\u00e1rio rompendo o sil\u00eancio de alguma avenida, enquanto a cidade, t\u00e3o barulhenta durante o dia, parecia reconciliada com seus pr\u00f3prios pecados.<\/p>\n<p>A mariposa, por\u00e9m, permanecia na parede. N\u00e3o tentei espant\u00e1-la, tampouco procurei descobrir se trazia sorte, azar, vida ou morte. H\u00e1 visitas que merecem respeito simplesmente porque chegam sem fazer exig\u00eancias, e h\u00e1 sil\u00eancios que dizem mais do que discursos inteiros. Quem sabe &#8216;minha&#8217; borboleta-bruxa tivesse atravessado jardins, copas de \u00e1rvores e corredores de vento apenas para encontrar repouso, ou apenas estivesse cansada da sua \u00fanica miss\u00e3o de sobreviver at\u00e9 o amanhecer.<\/p>\n<p>Ou talvez, quem sabe, tivesse vindo lembrar que nem tudo precisa ser explicado. Porque, afinal, envelhecer tamb\u00e9m \u00e9 aprender a conviver com o inexplic\u00e1vel, \u00e9 descobrir que a saudade possui asas, que a mem\u00f3ria n\u00e3o respeita rel\u00f3gios e que certas presen\u00e7as, mesmo silenciosas, iluminam os cantos mais escuros da alma.<\/p>\n<p>Quando voltei a olhar, ela continuava ali, negra, majestosa, quase solene. A parede branca parecia uma p\u00e1gina em branco, e a mariposa, uma palavra escrita por m\u00e3os invis\u00edveis. N\u00e3o sei quanto tempo permaneceu ou se desapareceu antes que o primeiro raio de sol alcan\u00e7asse a janela. \u00c9 mesmo prov\u00e1vel que tenha deixado apenas a lembran\u00e7a de sua visita, como fazem tantas pessoas que atravessam nossa vida.<\/p>\n<p>Contudo, uma coisa que aprendi em mais uma madrugada brasiliense, \u00e9 que nem toda criatura vestida de negro anuncia tristeza. Algumas chegam apenas para nos ensinar que a beleza tamb\u00e9m mora na escurid\u00e3o; e se, por acaso, essa mariposa fosse mesmo uma mensageira do al\u00e9m, espero que tenha levado de volta um recado aos que partiram, para dizer que seguimos por aqui, com saudade, algumas rugas a mais e muitas hist\u00f3rias por contar. Quanto aos vivos, que aprendam a olhar para uma parede branca antes de transform\u00e1-la em muro. Porque, \u00e0s vezes, basta uma borboleta negra para nos lembrar que a vida \u00e9 um mist\u00e9rio grande demais para caber na claridade do dia.<\/p>\n<p>J\u00e1 ao vizinho chato que reclama do aroma do cigarro, resta dizer que, gra\u00e7as a ele, encontrei inspira\u00e7\u00e3o para escrever mais uma cr\u00f4nica. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, jogando sobre as flores do jardim que ele diz ter criado, a fuma\u00e7a de mais uma tragada. Sobre os cinco mil reais, gastarei comprando ma\u00e7os de Kent.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 CEO fundador de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A madrugada de Bras\u00edlia tem seus pr\u00f3prios segredos, com alguns caminhando pelas superquadras desertas e outros se escondendo entre as \u00e1rvores retorcidas do Cerrado. H\u00e1 tamb\u00e9m os que dormem sob os postes de luz amarelada, e aqueles que, sem pedir licen\u00e7a, entram pelas janelas dos apartamentos. 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