{"id":7764,"date":"2026-10-29T00:39:02","date_gmt":"2026-10-29T03:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7764"},"modified":"2026-10-29T05:40:57","modified_gmt":"2026-10-29T08:40:57","slug":"maes-da-penha-no-rio-cobram-justica-por-mortes-na-operacao-contencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasil\/maes-da-penha-no-rio-cobram-justica-por-mortes-na-operacao-contencao\/","title":{"rendered":"M\u00e3es da Penha, no Rio, cobram justi\u00e7a por mortes na Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o existe uma lei para quem mora em um condom\u00ednio da Barra da Tijuca e outra para quem mora na favela&#8221;, afirmou, nesta quarta-feira (28), a confeiteira Tau\u00e3 Brito, no ato em mem\u00f3ria das v\u00edtimas da Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o. A incurs\u00e3o policial deixou 122 pessoas mortas nos Complexos da Penha e do Alem\u00e3o, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Em 40 anos, foi a opera\u00e7\u00e3o mais letal do estado.<\/p>\n<p>M\u00e3e de Wellington Brito, um jovem de 20 anos, Tau\u00e3 foi uma das primeiras vozes a denunciar a chacina e defender que pessoas envolvidas com o crime pudessem se entregar a Justi\u00e7a, em vez de serem executadas. Ela mesmo tentou, em v\u00e3o, negociar a rendi\u00e7\u00e3o do filho e implorou para que policiais a deixassem entrar na \u00e1rea de mata onde ocorreram as execu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foi autorizada. De madrugada, ela voltou e, com luz de celular, encontrou o corpo do filho morto, j\u00e1 coberto por insetos.<\/p>\n<p>Durante ato em mem\u00f3ria das v\u00edtimas, nesta quarta, na Vila Cruzeiro, na Penha, Tau\u00e3 fez um discurso emocionado em nome das fam\u00edlias. Ela cobrou o resultado das investiga\u00e7\u00f5es sobre as execu\u00e7\u00f5es, denunciou a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e afirmou que o direito \u00e0 vida n\u00e3o \u00e9 determinado pelo endere\u00e7o das pessoas.<\/p>\n<p>&#8220;Justi\u00e7a n\u00e3o pode ser um privil\u00e9gio de quem tem dinheiro, mora em condom\u00ednio ou ocupa cargo de poder&#8221;. Para ela, hoje, &#8220;a pol\u00edcia mata por causa do CEP&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Um CEP que muitas vezes parece determinar quem ter\u00e1 seus direitos respeitados e quem ser\u00e1 tratado como um corpo descartado&#8221;, afirmou. &#8220;E eu n\u00e3o estou aqui dizendo isso porque quero que os crimes sejam ignorados, n\u00e3o. Eu estou dizendo que qualquer pessoa que cometa um crime precisa responder perante a lei. Mas responder perante a lei \u00e9 diferente de ser executado&#8221;, completou.<\/p>\n<p>Tau\u00e3 lembrou que, em maio de 2025, o Rio de Janeiro fez a maior apreens\u00e3o de armas da hist\u00f3ria, em um condom\u00ednio na Barra da Tijuca, um bairro de classe m\u00e9dia alta, na zona sudoeste. Na ocasi\u00e3o, a pol\u00edcia prendeu sete pessoas com 240 armas e milhares de muni\u00e7\u00f5es que seriam do tr\u00e1fico de drogas. Ningu\u00e9m foi morto ou baleado.<\/p>\n<p>\u201cSeguran\u00e7a de verdade \u00e9 proteger a vida. E \u00e9 isso que estamos pedindo hoje\u201d, reiterou a confeiteira.<\/p>\n<p>As m\u00e3es, no discurso de Tau\u00e3, tamb\u00e9m criticaram o uso das mortes da Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o com fins pol\u00edticos, para a promo\u00e7\u00e3o p\u00fablica. E cobraram o resultado da investiga\u00e7\u00e3o criminal das mortes. Passado o ano, relataram que n\u00e3o tiveram acesso aos laudos das per\u00edcias, tampouco, aos depoimentos dados aos investigadores ap\u00f3s a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>A Human Rights Watch divulgou nota denunciado evid\u00eancias graves de desvio de conduta da pol\u00edcia na opera\u00e7\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o internacional destacou a manipula\u00e7\u00e3o de c\u00e2meras corporais e sugeriu mortes intencionais, sendo 40% atingidos na cabe\u00e7a, 60% baleadas quatro vezes ou mais e 75% receberam tamb\u00e9m um tiro nas costas. O posicionamento da entidade destaca ainda que nenhuma das mortes foi filmada pelos agentes.<\/p>\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o aceita que o Minist\u00e9rio P\u00fablico [Estadual], investigue porque que ele foram part\u00edcipes, autorizaram a participa\u00e7\u00e3o [do planejamento, da Opera\u00e7\u00e3o]&#8221;, frisou Tau\u00e3. O MPRJ tamb\u00e9m acompanhou as necropsias realizadas pelo Instituto M\u00e9dico-Legal (IML) e ainda analisa laudos periciais e imagens das c\u00e2meras corporais usadas pelos policiais no dia da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Maria Edvalda C\u00e2ndida de Souza, m\u00e3e de Cleiton Cesar, de 32 anos, tamb\u00e9m assassinado, refor\u00e7ou a cobran\u00e7a: &#8220;Nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 despeda\u00e7ado por falta de respostas, a Justi\u00e7a est\u00e1 para prender e n\u00e3o matar, n\u00e9?&#8221;, declarou. &#8220;Cleiton era um filho querido, amado pela fam\u00edlia. N\u00f3s vamos buscar respostas, quero Justi\u00e7a para meu filho&#8221;.<\/p>\n<p>Dona de um sal\u00e3o de beleza, Ana Paula Muniz, m\u00e3e de Diego dos Santos, de 30 anos, tamb\u00e9m rejeitou a execu\u00e7\u00e3o como resposta \u00e0 criminalidade. Ela lembrou da alegria e do sorriso do filho, que antes trabalhava em shopping.<\/p>\n<p>&#8220;Enterrei meu filho um dia antes do anivers\u00e1rio dele&#8221;, lembrou. &#8220;Quero saber como foi, s\u00e3o muitas perguntas, aguardamos um laudo [da per\u00edcia da morte] que esclare\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Durante o ato, jovens ativistas tamb\u00e9m cobraram a\u00e7\u00f5es do Estado na favela. E denunciaram que a rotina na comunidade, em rela\u00e7\u00e3o ao crime, n\u00e3o mudou. Eles querem que a atua\u00e7\u00e3o do Poder P\u00fablico n\u00e3o se limite a opera\u00e7\u00f5es, mas que fortale\u00e7a servi\u00e7os p\u00fablicos e projetos sociais.<\/p>\n<p>&#8220;Temos sonhos aqui dentro, existe vida e esperan\u00e7a&#8221;, afirmou Natan da Silva. Ele tamb\u00e9m cobrou uma mudan\u00e7a de postura violenta da pol\u00edcia com a juventude negra da periferia.<\/p>\n<p>Na manifesta\u00e7\u00e3o, que contou ainda com apresenta\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as e jovens, roda de capoeira e poesia, outras lideran\u00e7as tamb\u00e9m falaram do ass\u00e9dio do crime aos mais jovens e cobram mais a\u00e7\u00f5es para juventude.<\/p>\n<p>J\u00e9ssica Soares de Oliveira, moradora da Penha, lembrou que a opera\u00e7\u00e3o deixou fam\u00edlias enlutadas, crian\u00e7as traumatizadas e moradores impactados com as cenas. Os mortos foram retirados da mata por parentes e enfileirados na Vila Cruzeiro em imagens chocantes que rodaram o mundo. Ela foi \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o prestar solidariedade.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tenho um filho de dez anos e mesmo que eu fale com o meu filho qual caminho ele tem que andar, que mostre o certo, porque ele \u00e9 o meu \u00fanico filho, e a gente, aqui, vive com medo&#8221;, revelou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o existe uma lei para quem mora em um condom\u00ednio da Barra da Tijuca e outra para quem mora na favela&#8221;, afirmou, nesta quarta-feira (28), a confeiteira Tau\u00e3 Brito, no ato em mem\u00f3ria das v\u00edtimas da Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o. 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