{"id":7794,"date":"2026-10-29T00:00:38","date_gmt":"2026-10-29T03:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=7794"},"modified":"2026-10-29T07:30:40","modified_gmt":"2026-10-29T10:30:40","slug":"sextou-esta-batendo-a-porta-e-a-feijoada-ja-chama-todo-mundo-para-a-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/gastronomia-de-chefs\/sextou-esta-batendo-a-porta-e-a-feijoada-ja-chama-todo-mundo-para-a-mesa\/","title":{"rendered":"Sextou est\u00e1 batendo \u00e0 porta e a feijoada j\u00e1 chama todo mundo para a mesa"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem conte os dias para receber o sal\u00e1rio, quem espere ansiosamente pelas f\u00e9rias e quem n\u00e3o veja a hora de chegar o fim de semana. Mas existe uma turma que come\u00e7a a sentir o gostinho da sexta-feira ainda na quinta, quando o pensamento abandona discretamente as obriga\u00e7\u00f5es e desembarca diante de uma panela fumegante de feijoada. \u00c9 o famoso \u201csextou\u201d batendo \u00e0 porta, trazendo consigo um convite quase irrecus\u00e1vel: reunir os amigos, puxar uma cadeira e celebrar a vida ao redor de uma boa mesa.<\/p>\n<p>A feijoada, um dos pratos mais emblem\u00e1ticos da culin\u00e1ria brasileira, tem essa capacidade extraordin\u00e1ria de transformar uma simples refei\u00e7\u00e3o em acontecimento social. N\u00e3o \u00e9 comida para ser devorada \u00e0s pressas, entre uma reuni\u00e3o e outra. Exige tempo, conversa, apetite e, sobretudo, disposi\u00e7\u00e3o para esquecer o rel\u00f3gio. Afinal, ningu\u00e9m se senta diante de uma feijoada completa pensando em sair correndo.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo come\u00e7a antes mesmo de o prato chegar \u00e0 mesa. Da cozinha vem o perfume irresist\u00edvel do feij\u00e3o-preto cozinhando lentamente com carnes salgadas, costelinha, paio, lingui\u00e7a e outros ingredientes que d\u00e3o personalidade ao caldo encorpado. Enquanto isso, a couve \u00e9 cortada bem fininha, o alho dan\u00e7a na frigideira e o torresmo ganha aquela croc\u00e2ncia capaz de desafiar qualquer promessa de dieta.<\/p>\n<p>Quando a feijoada finalmente aparece, acompanhada de arroz branco soltinho, farofa dourada, rodelas de laranja e molho de pimenta, instala-se um sil\u00eancio respeitoso. \u00c9 breve, naturalmente. Logo surgem os primeiros elogios, as hist\u00f3rias da semana, as gargalhadas e as inevit\u00e1veis discuss\u00f5es sobre futebol, pol\u00edtica e os mist\u00e9rios da vida.<\/p>\n<p>E se a sexta-feira pede feijoada, tamb\u00e9m costuma pedir uma bebida \u00e0 altura da ocasi\u00e3o. Para alguns, uma caipirinha de lim\u00e3o, preparada com gelo e a\u00e7\u00facar na medida certa. Para outros, a tradicional cerveja estupidamente gelada, servida em copo pequeno para n\u00e3o perder a temperatura. H\u00e1 ainda quem prefira um suco natural, uma \u00e1gua com g\u00e1s ou simplesmente o prazer de saborear cada garfada sem qualquer acompanhamento alco\u00f3lico. O importante \u00e9 brindar \u00e0 alegria de estar vivo.<\/p>\n<p>Embora a tradi\u00e7\u00e3o tenha consagrado especialmente as quartas-feiras e os s\u00e1bados como dias de feijoada em muitos restaurantes brasileiros, a sexta vem conquistando seu espa\u00e7o. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ensaio geral para o fim de semana. O expediente ainda n\u00e3o terminou completamente, mas o esp\u00edrito j\u00e1 est\u00e1 de folga. E o almo\u00e7o, que deveria durar uma hora, amea\u00e7a transformar-se em uma confraterniza\u00e7\u00e3o de tarde inteira.<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, onde os encontros gastron\u00f4micos frequentemente se misturam \u00e0s conversas sobre os bastidores do poder, a feijoada tamb\u00e9m funciona como territ\u00f3rio neutro. Governistas e oposicionistas podem at\u00e9 discordar sobre os rumos do pa\u00eds, mas dificilmente haver\u00e1 diverg\u00eancia quando o assunto for a qualidade de um torresmo bem preparado. Pelo menos at\u00e9 algu\u00e9m resolver discutir quem fica com a \u00faltima por\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segredo de uma boa feijoada, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 apenas na sele\u00e7\u00e3o das carnes ou no ponto do feij\u00e3o. Est\u00e1 no equil\u00edbrio dos temperos, no cuidado do preparo e naquela generosidade que faz a cozinheira ou o cozinheiro perguntar, antes mesmo de o convidado terminar o prato, se deseja repetir. Feijoada boa \u00e9 aquela que acolhe, aproxima e deixa saudade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o precisa ser uma extravag\u00e2ncia. Uma vers\u00e3o mais leve, preparada com carnes menos gordurosas, pode proporcionar o mesmo prazer. O feij\u00e3o continua sendo o protagonista, a couve mant\u00e9m seu lugar de honra e a farofa segue indispens\u00e1vel. O que muda \u00e9 apenas a intensidade da aventura gastron\u00f4mica.<\/p>\n<p>E assim, entre uma garfada e outra, a sexta-feira vai cumprindo seu papel de mensageira da liberdade. Os problemas n\u00e3o desaparecem, as contas continuam chegando e a segunda-feira permanece \u00e0 espreita. Mas nada disso precisa roubar o encanto de um momento compartilhado com pessoas queridas.<\/p>\n<p>Porque, no fundo, o verdadeiro sabor da feijoada n\u00e3o est\u00e1 somente no feij\u00e3o, nas carnes ou nos acompanhamentos. Est\u00e1 na conversa despretensiosa, no sorriso de quem chega, no abra\u00e7o de quem parte e na certeza de que a felicidade, muitas vezes, cabe inteira dentro de um prato fundo.<\/p>\n<p>Portanto, se o \u201csextou\u201d j\u00e1 est\u00e1 batendo \u00e0 porta, conv\u00e9m deixar a panela preparada, os amigos avisados e a mesa posta. Afinal, a vida pode at\u00e9 ser complicada, mas uma boa feijoada tem o dom de torn\u00e1-la mais saborosa.<\/p>\n<p>E quem disse que \u00e9 preciso esperar o s\u00e1bado para ser feliz?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem conte os dias para receber o sal\u00e1rio, quem espere ansiosamente pelas f\u00e9rias e quem n\u00e3o veja a hora de chegar o fim de semana. 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