{"id":8342,"date":"2026-11-06T09:24:28","date_gmt":"2026-11-06T12:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=8342"},"modified":"2026-11-06T09:26:15","modified_gmt":"2026-11-06T12:26:15","slug":"terceiro-turno-sera-embate-de-lula-com-os-donos-do-pib-da-faria-lima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasil\/terceiro-turno-sera-embate-de-lula-com-os-donos-do-pib-da-faria-lima\/","title":{"rendered":"&#8216;Terceiro turno&#8217; ser\u00e1 embate de Lula com os donos do PIB da Faria Lima"},"content":{"rendered":"<p>A Bolsa de Valores comemorou o resultado do primeiro turno batendo recorde de ganhos, com uma alta de 7,7%, completada com o recuo do d\u00f3lar em 4%. Os especuladores fizeram sua festa. Contudo, a aposta do mercado, que tinha nome e programa, foi, para al\u00edvio do pa\u00eds, derrotada nas urnas na segunda volta, assustando a coaliz\u00e3o financeiro-rentista que capturou o or\u00e7amento da Uni\u00e3o e, por of\u00edcio, transfere renda para uma minoria m\u00ednima, aprofundando a desigualdade social.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez esperar: no preg\u00e3o do dia 26, puniu o voto. O Ibovespa caiu 13,88%, o d\u00f3lar subiu 8,21% e os juros futuros saltaram para 15,25%.<\/p>\n<p>A revanche do capital n\u00e3o \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o conjuntural de operadores, mas a forma pol\u00edtica necess\u00e1ria de um capital que n\u00e3o se valoriza pela produ\u00e7\u00e3o, e precisa submeter a pol\u00edtica eleitoral e o or\u00e7amento p\u00fablico \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise pol\u00edtica explicita o movimento: depois de apostar no bolsonarismo e perder, a Faria Lima cobra de Lula o programa derrotado nas urnas. O dito &#8220;mercado&#8221; n\u00e3o aceita o resultado eleitoral como defini\u00e7\u00e3o da vontade pol\u00edtica; desloca a disputa para o or\u00e7amento e para a pol\u00edtica monet\u00e1ria, tentando transformar o programa derrotado nas urnas em precondi\u00e7\u00e3o da governabilidade.<\/p>\n<p>Quando a via eleitoral n\u00e3o entrega as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o daquilo que Marx (Livro III de\u00a0<i>O Capital<\/i>) definiu como &#8220;capital fict\u00edcio&#8221;, a estrat\u00e9gia do mercado financeiro \u00e9 impor, pela via do constrangimento econ\u00f4mico, a subordina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u00e0 l\u00f3gica de valoriza\u00e7\u00e3o de uma riqueza que n\u00e3o produz. Marx mostra que o capital fict\u00edcio \u00e9 uma forma de riqueza que se autonomiza da produ\u00e7\u00e3o e, por isso, tem uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a crise econ\u00f4mica e com a necessidade de capturar o Estado. No Brasil, essa forma se tornou dominante como rentismo, reconfigurando a depend\u00eancia e transformando o Estado em garantidor da remunera\u00e7\u00e3o fict\u00edcia. Da\u00ed a inquieta\u00e7\u00e3o da classe dominante.<\/p>\n<p>Tudo isso explica os editoriais da grande imprensa e o discurso dos &#8220;especialistas&#8221; selecionados a dedo, a depender dos quais o novo ministro da Economia, n\u00e3o podendo ser o pr\u00f3prio, deve ser um clone de Joaquim Levy.<\/p>\n<p>Por que o Brasil conseguiu construir um Estado e uma economia de dimens\u00f5es continentais, mas teve tanta dificuldade para construir uma classe dirigente comprometida com um projeto nacional de desenvolvimento?<\/p>\n<p>O patriciado, majoritariamente desapartado da produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 incuravelmente alheio aos interesses nacionais, porque seu of\u00edcio, de onde recolhe o mando, \u00e9 a especula\u00e7\u00e3o financeira, vinculada aos humores do capital, por defini\u00e7\u00e3o um ativo internacional, gerido pelas bolsas de valores (nomeadamente Wall Street) e pelas corpora\u00e7\u00f5es que regem as sendas do capital globalizado.<br \/>\nAp\u00f3s mais de cinco s\u00e9culos de tentativa de construir uma na\u00e7\u00e3o e um grande pa\u00eds, rico e soberano, chegamos ao s\u00e9culo XXI ainda como uma prov\u00edncia dependente, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico quanto do ponto de vista ideol\u00f3gico. Exportadores de produtos agr\u00edcolas e minerais sem valor agregado, convivemos com a crise da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o &#8220;conservadora&#8221;, com a qual se identifica a ditadura militar, associou industrializa\u00e7\u00e3o, capital externo e concentra\u00e7\u00e3o de renda. P\u00f4s por terra o projeto nacional-desenvolvimentista fundado na industrializa\u00e7\u00e3o e na expans\u00e3o do Estado como indutor do desenvolvimento, que havia sido retomado por Get\u00falio Vargas em 1951 e que, de uma forma ou de outra, chega a 1964, em cuja sequ\u00eancia a classe dominante se reconfigura, tendo como eixo a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e o rentismo, caracter\u00edsticos de nossos tempos, que se expressam mais claramente na pol\u00edtica de juros altos \u2014 que aumenta o endividamento das fam\u00edlias e o custo do capital \u2014 e no\u00a0<i>diktat<\/i>\u00a0da &#8220;austeridade fiscal&#8221;, codinome da asfixia dos gastos sociais, de resto indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o capitalista pouco depende das transforma\u00e7\u00f5es estruturais; por isso mesmo, a grande burguesia, como classe propriet\u00e1ria, reage \u00e0s inova\u00e7\u00f5es e se apega \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>statu quo<\/i>. Assim se explica por que a riqueza aqui produzida n\u00e3o est\u00e1 comprometida com o desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto o pa\u00eds se regozija com seu pr\u00f3prio triunfo, saudado em todos os quadrantes como uma vit\u00f3ria da democracia, exemplo de um povo que tomou a si a condu\u00e7\u00e3o de seu destino quando tudo parecia perdido, a classe dominante, j\u00e1 desde o dia imediato ao segundo turno, vale-se de todos os muitos meios ao seu alcance para tentar desnaturar o sentido hist\u00f3rico do pronunciamento da soberania popular. Derrotada nas urnas, derrotada eleitoralmente e, mais do que tudo, derrotada politicamente, intenta ditar o programa do novo governo, e o faz, valendo-se de extremada desfa\u00e7atez, brandindo o discurso da extrema-direita.<\/p>\n<p>O &#8220;mercado&#8221;, esta institui\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m v\u00ea, mas que est\u00e1 em toda parte \u2014 nos governos, no Congresso, no Judici\u00e1rio \u2014, perdeu com o senador homiziado nos EUA, mas quer ganhar o governo Lula, impondo-lhe o receitu\u00e1rio fiscalista. Vencendo, conquistar\u00e1 dois trof\u00e9us: desestabilizar\u00e1 o governo e punir\u00e1 o eleitorado brasileiro que maci\u00e7amente optou pela democracia e pelo avan\u00e7o das conquistas sociais. Que querem? Que o governo de centro-esquerda, por formar-se, puna as grandes massas que reelegeram Lula, adotando o programa m\u00ednimo da direita, fragorosamente rejeitado nas urnas: desvincular do sal\u00e1rio m\u00ednimo os benef\u00edcios dos aposentados (25 milh\u00f5es), as pens\u00f5es do BPC (o benef\u00edcio pago a idosos pobres ou com defici\u00eancia) e, suprassumo das maldades, cortar os pisos constitucionais da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Por \u00f3bvio, nenhuma palavra sobre a farra das verbas or\u00e7ament\u00e1rias, nenhuma palavra sobre a farra das isen\u00e7\u00f5es fiscais, tampouco sobre os privil\u00e9gios tribut\u00e1rios e a gorda remunera\u00e7\u00e3o do capital financeiro, via juros estratosf\u00e9ricos. A prop\u00f3sito: o Banco Ita\u00fa anuncia lucro l\u00edquido recorde de 12,6 bilh\u00f5es (<i>Valor.<\/i>\u00a04.11.26).<\/p>\n<p>Trata-se, repito, de uma classe dominante consabidamente divorciada do destino nacional. Filha dileta do escravismo, da produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria dependente das encomendas das grandes pot\u00eancias, da Col\u00f4nia at\u00e9 o fim da Primeira Rep\u00fablica, sobrevive e impera mediante a explora\u00e7\u00e3o do trabalho e o controle do Estado. Esta rela\u00e7\u00e3o ajuda a explicar por que tantas de suas fra\u00e7\u00f5es \u2014 com destaque para o rentismo (de que a Faria Lima \u00e9 o quartel general) \u2014 puderam prosperar sem assumir um compromisso com a constru\u00e7\u00e3o de uma economia nacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos em face de um acaso, mas do fruto de um processo de continuidade hist\u00f3rica: o senhor de terras e de escravos (o africano importado e o \u00edndio preado); o grande exportador de mat\u00e9rias-primas (do a\u00e7\u00facar ao caf\u00e9) e min\u00e9rios\u00a0<i>in natura;<\/i>\u00a0o rentista e os segmentos contempor\u00e2neos do capital financeiro, a servi\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o esses interesses que ditam o discurso dos meios de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos (os\u00a0<i>jornal\u00f5es\u00a0<\/i>e a grande rede de televis\u00e3o); foram eles que levaram o grande capital a apoiar a proposta neofascista e, nada obstante a rejei\u00e7\u00e3o proclamada pelo veredito do segundo turno, s\u00e3o ainda esses interesses que pretendem ditar regras e condicionar o destino do pa\u00eds, coartado por uma l\u00f3gica perversa de acumula\u00e7\u00e3o, de apropria\u00e7\u00e3o da riqueza e de uma rela\u00e7\u00e3o com o Estado que subordina aos seus ditames o que poderia ser um projeto nacional, fundado no desenvolvimento social, na soberania e na democracia, apontando para uma nova sociedade.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa estruturou a economia de seu quinh\u00e3o americano em torno da extra\u00e7\u00e3o de riquezas e da produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros destinados ao mercado externo. A ocupa\u00e7\u00e3o territorial, a organiza\u00e7\u00e3o da propriedade e a ordem produtiva foram profundamente condicionadas por essa finalidade, donde a aus\u00eancia de um projeto nacional; da Col\u00f4nia at\u00e9 1888, era imposs\u00edvel pensar em na\u00e7\u00e3o quando nossa gente se dividia entre a m\u00e3o de obra escrava, respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o, e uma minoria branca que simplesmente acumulava o resultado do trabalho alheio. E como intent\u00e1-lo hoje, quando a classe dominante d\u00e1 as costas ao pa\u00eds e idolatra o imperialismo, apesar do trumpismo decadente?<\/p>\n<p>Somos uma sociedade que, durante mais de cinco s\u00e9culos, organizou parcela decisiva de sua produ\u00e7\u00e3o mediante a apropria\u00e7\u00e3o do trabalho \u2014 alheio, repita-se \u2014, construiu obst\u00e1culos hist\u00f3ricos \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o dos direitos e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho livre e aboliu da hist\u00f3ria o papel do povo e de seus her\u00f3is, para exaltar bandidos como os Bandeirantes.\u00a0\u00a0Col\u00f4nia de um imp\u00e9rio decadente, ocupamos um vasto territ\u00f3rio, chegamos mesmo a povo\u00e1-lo, ciscando o litoral, sem conhecer a diferen\u00e7a entre ocupar um territ\u00f3rio, explorar sua gente e suas riquezas e construir uma na\u00e7\u00e3o. Crescemos sem clareza do que \u00e9ramos e, principalmente, do que pretend\u00edamos ser.<br \/>\nA quest\u00e3o permanece: qual \u00e9 o nosso projeto?<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es rec\u00e9m-encerradas devem ser vistas como uma promessa de constru\u00e7\u00e3o do que Darcy Ribeiro chamava de &#8220;projeto de ser&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o incorro no simplismo de reduzir nossa trag\u00e9dia \u00e0 interdepend\u00eancia entre a grande propriedade e o escravismo, mas \u00e9 preciso p\u00f4r de manifesto que o escravismo extrapola os limites de uma simples economia, pois \u00e9 a matriz de tudo o que a ele se sucede, como a depend\u00eancia externa, a concentra\u00e7\u00e3o da propriedade e a organiza\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Ao escravismo se articulam a conforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, o car\u00e1ter da propriedade, a hierarquia e os pap\u00e9is da cidadania; a forma\u00e7\u00e3o da ideologia da classe dominante, racista e preconceituosa, irreparavelmente reacion\u00e1ria, espargindo a ideologia da depend\u00eancia; por fim, o sentimento de inferioridade que aplaca necessidades revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nelson Rodrigues nos falava no &#8220;complexo de vira-lata&#8221; que fazia do brasileiro um Narciso \u00e0s avessas, aquele que cospe na pr\u00f3pria imagem. O dramaturgo, escrevendo em 1958, antecipava-se na defini\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter do bolsonarismo, alienado, distante de nossas ra\u00edzes culturais e, no contrapelo das matrizes fascistas, terrivelmente entreguista. Nada obstante haver-se tornado movimento de massas, e eis como deve ser enfrentado, o bolsonarismo expressa uma ideologia racista em pa\u00eds mesti\u00e7o; machista quando, em nossa popula\u00e7\u00e3o, as mulheres s\u00e3o maioria.<\/p>\n<p>Rejeitado pelo plebiscito em que se converteu o segundo turno, derrotado pol\u00edtica e eleitoralmente, o bolsonarismo \u2014 como express\u00e3o fascista \u2014 segue vivo, como a pe\u00e7onha que ainda n\u00e3o teve sua cabe\u00e7a esmagada. Seu ant\u00eddoto \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Esta \u00e9 a li\u00e7\u00e3o do segundo turno.<\/p>\n<p>Permanece a esperan\u00e7a de que tenha sido lida e bem compreendida.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Bolsa de Valores comemorou o resultado do primeiro turno batendo recorde de ganhos, com uma alta de 7,7%, completada com o recuo do d\u00f3lar em 4%. Os especuladores fizeram sua festa. 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