{"id":8410,"date":"2026-11-07T13:47:52","date_gmt":"2026-11-07T16:47:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=8410"},"modified":"2026-11-07T13:47:52","modified_gmt":"2026-11-07T16:47:52","slug":"do-linguajar-ao-salario-estudo-aponta-alto-racismo-na-industria-do-som","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/do-linguajar-ao-salario-estudo-aponta-alto-racismo-na-industria-do-som\/","title":{"rendered":"Do linguajar ao sal\u00e1rio, estudo aponta alto racismo na \u201cind\u00fastria do som\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisadores identificaram padr\u00f5es que retratam a exist\u00eancia de racismo na ind\u00fastria do som no Brasil. A constata\u00e7\u00e3o est\u00e1 em um estudo feito com profissionais do setor de audiovisual, que relataram desigualdades no mercado de trabalho e at\u00e9 mesmo pr\u00e1ticas para \u201chigienizar\u201d os produtos finais.<\/p>\n<p>O levantamento frisa que \u201cn\u00e3o existe voz de preto nem voz de branco\u201d e refor\u00e7a que os timbres humanos s\u00e3o diversos.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea A Cor do Som foi elaborado por duas institui\u00e7\u00f5es privadas que autuam no combate ao racismo: a Semi\u00f3tica Antirracista, que surgiu com foco na realiza\u00e7\u00e3o de cursos relacionados \u00e0 diversidade racial; e o Est\u00fadio Nina, que conecta marcas ao p\u00fablico negro.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento foi nesta semana, quando come\u00e7a o Novembro Negro, m\u00eas dedicado \u00e0 Consci\u00eancia Negra. O levantamento recebeu apoio da empresa Audiolivros.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0s conclus\u00f5es, os pesquisadores ouviram 24 pessoas, sendo 18 profissionais negros que atuam tanto na \u00e1rea t\u00e9cnica, como na criativa; quatro acad\u00eamicos; e duas personalidades engajadas no debate racial, que n\u00e3o tiveram os nomes revelados.<\/p>\n<p>O estudo traz a percep\u00e7\u00e3o dos entrevistados, mas sem dados quantitativos.<\/p>\n<p><strong>\u201cLimpar o som\u201d<\/strong><br \/>\nAo analisar as quest\u00f5es t\u00e9cnicas do produto audiovisual, o estudo identificou que, no Brasil, a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1udio segue um paradigma de origem europeia, colonial e elitista. Dessa forma, \u201cse busca higienizar o som dos ru\u00eddos e interfer\u00eancias da rua, da pra\u00e7a, do povo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOperadores de som recebem uma cartilha a ser seguida, e as regras apontam para um som o mais higienizado poss\u00edvel\u201d, cita o dossi\u00ea, avaliando que se trata de uma forma de descartar ru\u00eddos perif\u00e9ricos e marcas culturais afro-brasileiras.<\/p>\n<p>Para a pesquisa, \u00e9 preciso \u201cdesconstruir o mito da neutralidade t\u00e9cnica nas produ\u00e7\u00f5es sonoras\u201d.<\/p>\n<p>Outra pr\u00e1tica \u00e9 na linguagem do produto final. De acordo com os autores, existe a preval\u00eancia de uma norma padr\u00e3o que produz hierarquias entre diferentes modos de falar, \u201creduzindo a pluralidade \u00e0 indignidade do erro\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa lembra o conceito \u201cPretugu\u00eas\u201d, da intelectual e ativista L\u00e9lia Gonzalez (1935-1994).<\/p>\n<p>\u201cUm modo de falar portugu\u00eas marcado por elementos fon\u00e9ticos e sint\u00e1ticos de l\u00ednguas africanas, frequentemente tratados como um esc\u00e1rnio da l\u00edngua portuguesa, a exemplo da troca do L pelo R em algumas palavras, a exemplo de probrema, ou da substitui\u00e7\u00e3o do LH por I, como em faia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mercado de trabalho<\/strong><br \/>\nNas conversas com os profissionais negros do setor, os pesquisadores coletaram uma lista de condi\u00e7\u00f5es que marcam a presen\u00e7a desses trabalhadores nas empresas de \u00e1udiovisual, como produtoras, est\u00fadios e ag\u00eancias de publicidade.<\/p>\n<p>Entre as queixas, est\u00e3o:<\/p>\n<p>Profissionais negros recebendo menos que brancos em fun\u00e7\u00f5es equivalentes;<\/p>\n<p>Contrata\u00e7\u00f5es de profissionais negros justamente porque aceitam remunera\u00e7\u00f5es menores;<\/p>\n<p>Dificuldade de cobrar valores compat\u00edveis com a pr\u00f3pria qualifica\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>Necessidade de trabalhar mais para demonstrar compet\u00eancia;<\/p>\n<p>Falta de reconhecimento mesmo quando s\u00e3o respons\u00e1veis pelo desenvolvimento de projetos.<\/p>\n<p><strong>Exemplos<\/strong><br \/>\nSobre a dificuldade de receber remunera\u00e7\u00e3o suficiente, um profissional da \u00e1rea criativa conta que \u201cfazia de tudo\u201d, como produ\u00e7\u00e3o de palco, liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas, edi\u00e7\u00e3o e capta\u00e7\u00e3o. Quando reivindicou remunera\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com seu trabalho, foi demitido.<\/p>\n<p>\u201cSegundo eles, n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de oferecer o sal\u00e1rio de uma pessoa qualificada como eu. Ent\u00e3o, eu fui desligado por e-mail e contrataram outra pessoa, que \u00e9 uma influencer branca\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Outro profissional relatou a dificuldade para ter reconhecimento.<\/p>\n<p>\u201cEra a pessoa que mais trabalhava, tinha desenvolvido o projeto, mas eu era a pessoa menos ouvida. Tinha que brigar muito para as pessoas entenderem que eu sabia do que eu estava falando\u201d.<\/p>\n<p>Outra constata\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de os negros exercerem mais \u201ctrabalhos bra\u00e7ais\u201d do que as fun\u00e7\u00f5es criativas. Para o dossi\u00ea, \u201cos lugares pensantes, de tomada de decis\u00e3o, de cria\u00e7\u00e3o, permanecem sendo majoritariamente destinados a pessoas brancas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente come\u00e7a no audiovisual, n\u00e3o nos \u00e9 dada a oportunidade de contar hist\u00f3rias, ent\u00e3o a gente, pragmaticamente, \u00e9 colocado em fun\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Eu fiz som, montagem, assist\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o\u2026 Por que eu n\u00e3o podia ser produtor?\u201d, reclamou um profissional da \u00e1rea de cinema.<\/p>\n<p><strong>Especificamente negro<\/strong><br \/>\nOs pesquisadores identificaram ainda um enquadramento de profissionais pela quest\u00e3o racial\/cor.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre fui chamado de negro a vida inteira, e isso tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de te aprisionar, porque voc\u00ea vira o negro, aquele negro \u00fanico\u201d, diz um dos entrevistados.<\/p>\n<p>\u201c&#8217;Eu sou a pessoa negra, o jornalista negro, o escritor negro, o roteirista negro\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o do setor de que as produ\u00e7\u00f5es feitas por negros s\u00e3o \u201cde nicho\u201d, isto \u00e9, feitas para um p\u00fablico espec\u00edfico.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, o racismo sustenta uma ideia t\u00e1cita de que produ\u00e7\u00f5es negras n\u00e3o s\u00e3o para o p\u00fablico geral, mas apenas para p\u00fablicos negros, enquanto as produ\u00e7\u00f5es brancas s\u00e3o destinadas a todos.<\/p>\n<p>\u201cEsta l\u00f3gica perversa \u00e9 mais um efeito da ideologia que coloca o branco como universal\u201d, escrevem.<\/p>\n<p>\u201cAcham que tudo o que pessoas pretas falam s\u00f3 \u00e9 escutado por pessoas pretas. Sempre \u00e9 um nicho\u201d, se queixa um dos profissionais ouvidos.<\/p>\n<p><strong>Contra o silenciamento<\/strong><br \/>\nA equipe que preparou o dossi\u00ea afirma que o \u201csilenciamento \u00e9 um dos mecanismos mais recorrentes do racismo\u201d.<\/p>\n<p>Dessa forma, considera o estudo \u201cfundamental para repensar as narrativas, os fluxos de trabalho e o paradigma que orienta a cadeia produtiva do \u00e1udio e do audiovisual no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Os pesquisadores almejam que as constata\u00e7\u00f5es possam \u201cinquietar\u201d e causar o desejo de saber mais sobre esses assuntos.<\/p>\n<p>\u201cA discuss\u00e3o do racismo a partir da \u00f3tica sonora n\u00e3o \u00e9 comum e, por isso, nos exige o exerc\u00edcio de pensar fora da caixa, questionar os lugares-comuns e desafiar verdades assentadas\u201d, sustentam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores identificaram padr\u00f5es que retratam a exist\u00eancia de racismo na ind\u00fastria do som no Brasil. 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