{"id":8439,"date":"2026-11-08T01:56:04","date_gmt":"2026-11-08T04:56:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=8439"},"modified":"2026-11-08T01:56:04","modified_gmt":"2026-11-08T04:56:04","slug":"tempos-de-um-jovem-que-se-imaginava-macho-antes-de-ter-pelos-na-cara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/leitura-vip\/tempos-de-um-jovem-que-se-imaginava-macho-antes-de-ter-pelos-na-cara\/","title":{"rendered":"Tempos de um jovem que se imaginava macho antes de ter pelos na cara"},"content":{"rendered":"<p>A pedidos da fam\u00edlia e dos amigos, prometi n\u00e3o falar de Bolsonaro ou de Lula neste domingo de paz e de alegria. Todavia, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o lembrar daquele outro domingo terrivelmente prazeroso, o da elei\u00e7\u00e3o. Foi um daqueles dias em que tive consci\u00eancia de que tudo seria f\u00e1cil se n\u00e3o fossem as dificuldades. Sa\u00ed de casa disposto a comprar um sonho novo na primeira padaria que encontrasse. Na cabe\u00e7a, al\u00e9m do chap\u00e9u, a certeza de que quem ama o feio e o extremista \u00e9 porque o bonito e o progressista n\u00e3o aparecem. Entre primos, pombos e rufi\u00f5es de donzelas sonhadoras, decidi passar no barbeiro, local onde, para alguns, \u00e9 o lugar em que todos esperam muito, mas \u00e9 de l\u00e1 que n\u00e3o sai nada.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 queria cortar o cabelo. Como n\u00e3o acompanhei a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, social e masturbat\u00f3ria, me assustei com as novas nomenclaturas e as modernidades inventadas pelos amantes das redes sociais para tumultuar a cabe\u00e7a despensante dos mais velhos. De cara, ouvi o que sempre chamei de cortador de cabelo me informando que, agora, as barbearias s\u00e3o inovadoras, do tipo <i>delirium premium,<\/i> e que os profissionais teriam de ser chamados de <i>personal hair<\/i> ou <i>hairdresser<\/i>. Tudo bem! O problema foi aceitar a obrigat\u00f3ria pantufa furta-cor e o roup\u00e3o usado por ocasi\u00e3o do temido e, \u00e0s vezes, aguardado toque retal.<\/p>\n<p>Demais para quem s\u00f3 queria dar um tapa no visual antes de partir para a se\u00e7\u00e3o eleitoral e votar positivamente. Enfim, eu s\u00f3 queria cortar o cabelo. Sentado na cadeira estilo Lu\u00eds XV, logo o <i>professional<\/i> indagou sobre a m\u00fasica que eu gostaria de ouvir e a bebida de minha prefer\u00eancia. Repeti, sonora e sugestivamente, que s\u00f3 queria cortar o cabelo. Tive de engolir Almir Rog\u00e9rio e o inigual\u00e1vel Fusc\u00e3o Preto. Tarefa cumprida, o \u201chair do carvalho\u201d amea\u00e7ou passar uma daquelas pomadas de perdimento da honra em minha cabe\u00e7a. N\u00e3o adiantou eu dizer que era de virgem com ascendente macho em escorpi\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a m\u00e3o dura e os dedos moles, ele tascou a bosta escorregadia e pegajosa no meu cocuruto. Reiterei para o entendido rapaz que, at\u00e9 aquele momento, n\u00e3o sabia que ela (a cabe\u00e7a superior) ou meu cabelo estavam doentes para receber pomada com textura de vaselina e cheiro de extrato usado pelas mo\u00e7as de vida f\u00e1cil depois da 35\u00aa.funhanhada. Baixinho, disse ao mo\u00e7oilo que pomada em qualquer parte do meu corpo s\u00f3 a Canela de Velho. N\u00e3o satisfeito, o sujeito ainda borrifou em minha nuca uma ess\u00eancia paraguaia parecida com o irritante e enjoativo Chanel no. 5.<\/p>\n<p>Violentado dialeticamente, quase seduzido mentalmente, com o pesco\u00e7o ardido e cheiroso igual a filho de barbeiro, mas com o caneco intacto, sussurrei para mim mesmo que s\u00f3 queria cortar o cabelo. Como quase fui, metaf\u00f3rica e nostalgicamente, desonrado, me restou fixar na lend\u00e1ria figura dos barbeiros de minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Seu Ant\u00f4nio era um velho gordinho, cabe\u00e7a branca, alpercatas de couro cru, jaleco de pipoqueiro suburbano, cal\u00e7as largas e suspens\u00f3rio encardido. Estilo D. Jo\u00e3o VI, a cadeira era de pau duro com uma almofada de palhas de milho.<\/p>\n<p>Espalhadas pelos dois ou tr\u00eas bancos de madeira, meia d\u00fazia de revistas. Tr\u00eas eram <i>Playboy<\/i> com fotos nov\u00edssimas da Vera Fischer, S\u00f4nia Braga e Mait\u00ea Proen\u00e7a, e tr\u00eas <i>Quatro Rodas<\/i> anunciando os lan\u00e7amentos do Corcel, da Rural Willys e do Karmann Ghia. O mais gostoso de tudo era a bombinha usada por seu Ant\u00f4nio para borrifar talco Palmolive ou Eucalol no pesco\u00e7o quase sem cabelo, pois minha moda e da maioria dos meninos da \u00e9poca era meia cabeleira, ou seja, meia careca.<\/p>\n<p>Eu descia da cadeira branco e empanado como uma coxinha do Mercad\u00e3o de S\u00e3o Paulo ou do Mercado Central de Belo Horizonte. Apesar de tudo, eu agradecia a Deus o fato de as m\u00e3os do seu Ant\u00f4nio se limitarem a tocar meu cabelo. Como eu s\u00f3 queria cortar o cabelo, fiz minhas as palavras de F\u00edgaro, o astuto barbeiro de Sevilha que, por dinheiro, ajudou um conde a se casar com sua deusa: Nunca aborre\u00e7a seu barbeiro. \u00c9 dele a m\u00e3o que segura a navalha. \u00c9 por essa e outras raz\u00f5es que, para n\u00e3o correr risco, sempre dou a mesma resposta \u00e0quela pergunta sobre a prefer\u00eancia do corte: \u201cPor favor, corta na frente e pica atr\u00e1s\u201d. Gra\u00e7as a Deus, nenhum deles at\u00e9 hoje entendeu a literalidade da resposta.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pedidos da fam\u00edlia e dos amigos, prometi n\u00e3o falar de Bolsonaro ou de Lula neste domingo de paz e de alegria. 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