Uma cidade abandonada

Passados quatro anos, o ‘gerente’ de Brasília só piorou a situação

Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília
Pedro Nascimento

Saguões de luxo, ocupados por hóspedes da alta sociedade; hospitais renomados, que um dia foram lotados de pacientes; clubes que recebiam as mais importantes personalidades da cidade; fábricas a todo vapor com operários circulando o tempo inteiro. Essa é uma realidade que não existe mais em alguns pontos do Distrito Federal, que começa a colecionar esqueletos. Os motivos são vários: vão desde problemas judiciais envolvendo herança, falência e descaso governamental.

Em conversa com Notibras, o professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em planejamento urbano, Frederico Flósculo, pondera que a situação é comum em todas as cidades. “Mas aqui tem uma repercussão enorme, passa a simbolizar até mesmo a deterioração da república. Isso porque, além de todos os problemas sociais e civis, as pessoas se preocupam ainda mais com a segurança pública, já que, ocasionalmente, essas construções são invadidas”, aponta.

“Brasília é como se fosse uma floresta, que ao passar dos anos, algumas vegetações vão morrendo e novas surgindo”, define Flósculo. Ele acredita que a polêmica em torno do abandono de edificações se dá devido à dinâmica imobiliária em Brasília, que é uma cidade de proporção pequena.

Apesar de considerar este um problema recorrente, Flósculo ressalta que o governo de Brasília precisa agir de maneira bem precavida. “No caso desses prédios e hospitais privados, temos que ter vigilância sobre o que está acontecendo lá dentro e sobre o futuro desses espaços. Deve se atentar e saber quando os sinais de deterioração e abandono chegam a um estado crítico”, opina.

Deteriorados, esses investimentos não têm condições de serem aproveitados, a não ser que, ao ter o investimento desativado, o proprietário estipule uma manutenção, o que implica em investimentos de alto nível. No entanto, o retorno financeiro costuma vir a longo prazo.

“Quem é que vai colocar dinheiro em um prédio que não está dando lucro? Então, essa situação se transforma nos elefantes brancos. Num ciclo vicioso. Abandonado pela falta de dinheiro e o governo tem que estar de olho para que não aconteça aqui o que ocorreu em São Paulo, vários prédios desabando”, conclui o especialista se referindo ao caso do Hotel Torre Palace.

Outro problema causado pelas edificações abandonadas é o comprometimento da beleza visual da cidade. Em situações de abandono, os proprietários dificilmente fazem manutenção, seja interna ou externa. Os prédios seguem a premissa de estarem no fim da vida e caminhando para a morte: viram cadáveres no meio da cidade.

Torre Palace
Inaugurado em 1973, o primeiro hotel do Setor Hoteleiro Norte, está em um dos melhores espaços de Brasília. Com vista para a Torre de TV, Esplanada dos Ministérios e Eixo Monumental, o Hotel Torre Palace abrigava quartos de luxo, piscina e restaurante cinco estrelas.

Logo depois de sua inauguração, o empreendimento libanês Jibran El-Hadj, se tornou um dos mais procurados por grandes personalidades na capital. Permaneceu assim até os anos 2000, quando El-Hadj faleceu, deixando a gestão do hotel para aos herdeiros, Raif Jibran, Nuhed Jibran Hajj, Miguel Hajj, Lilean Jibran, Hsieh Neyla Jibran, El Hajj Silva e Reny Cury El Hajj, que tinham planos distintos para o futuro do prédio.

Em maio de 2013, o Torre Palace fechou as portas e uma briga judicial entre os sete irmãos tomou proporções maiores. No ano seguinte, a Brookfield Incorporações tentou comprar a construção, mas, devido aos desentendimentos familiares o negócio não foi fechado.

Ontem, um dos endereços mais nobres da capital ostentava requinte e luxo; hoje cercado por pichações, protagonizou polêmicas envolvendo usuários de drogas, moradores de rua e protestos do Movimento Resistência Popular Brasil (MRP). O prédio abrigou 120 famílias em 2015, até ser desocupado pela Polícia Militar do DF, em junho do ano seguinte.

Após a desocupação, todas as entradas do prédio foram seladas, mas ainda é alvo de vândalos. O mau cheiro não passa despercebido e incomoda quem passa perto do edifício abandonado.

Clube Primavera
O Clube Primavera de Taguatinga, um centro de lazer com piscinas, quadras, saunas e restaurante, durante os anos 1980, era o ponto de encontro das famílias da capital e da comunidade, principalmente, de Taguatinga. Abandonado nos anos 1990, o espaço enfrentou diversas ações judiciais a respeito do espaço onde era locado e qual seria o seu destino.

No final dos anos 90 uma determinação oficial declarou que o clube pertence ao patrimônio público e, segundo a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), seria reformulado e, possivelmente, transformado em um espaço de lazer público para a comunidade local.

As instalações do antigo clube ficam em uma Área de Relevante Interesse Ecológico JK, de acordo com a Lei nº 1.002, de janeiro de 1996. Com terreno de 2,3 mil hectares, em Taguatinga.

No entanto, a construção iniciada pela Novacap está parada e antigos frequentadores do lugar guardam na memória os bons momentos que passaram com a família e amigos. Adriana Gonçalves, 39 anos, conta que quando jovem passou seus melhores momentos no clube com os pais, que já faleceram.

“São muitas lembranças boas, que guardarei para sempre. É uma pena que foi abandonado e está nessa situação, sendo que outras famílias poderiam estar criando momentos bons aqui também”, lamenta. Procurada pela reportagem, a Novacap não se posicionou até o fechamento da matéria.

Estação de trem
Inaugurada durante o aniversário de oito anos da capital, a estação de trem Bernardo Sayão era cheia de expectativa. . Chico Buarque embalou o evento ao som de “A Banda”. Localizada entre o Núcleo do Bandeirante e o Guará, a estação costumava receber passageiros que vinham do Rio de Janeiro e de São Paulo. As viagens duravam cerca de 15 horas.

No seu melhor momento, cerca de 10 trens com capacidade para 500 pessoas passavam pela plataforma diariamente. Hoje, poucas máquinas passam pelo local transportando apenas cargas, é possível encontrar o trem passando pela estação pela manhã, entre 6h e 7h, e durante a noite, por volta das 18h. A estação encontra-se deteriorada, com paredes pichadas. Os poucos bancos que ainda estão na no espaço estão quebrados.

Com a estrutura comprometida, a estação, que antes era frequentada por civis de todo o Brasil, abriga pessoas em situação de rua e usuários de drogas do lado de fora. Nas instalações internas, a Secretaria de Patrimônio da União (SPU), atual responsável pela estação afirma que os ocupantes do local são funcionários da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA). No local, os moradores da estação não quiseram conversar com a reportagem.

A secretaria informou, ainda, que o local é imóvel oriundo da RFFSA, extinta por ocasião da Lei nº 11.483/2007, que aponta que imóveis considerados operacionais, ou seja, que tinham contrato de arrendamento com concessionárias, seriam transferidos para o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) e os não operacionais passariam para a gestão da SPU.

“Ocorre que algumas benfeitorias consideradas não operacionais estavam erigidas sobre áreas consideradas operacionais por se tratarem de faixas de domínio de ferrovias. Nesses casos, a Consultoria Jurídica do Ministério do Planejamento firmou entendimento de que o acessório segue o principal, ou seja, a benfeitoria, ainda que não operacional, é transferida para a gestão do DNIT, por ser o dono do terreno. Sendo este o caso da Estação Ferroviária Bernardo Sayão”, apontou a pasta por meio de nota.

Diante disso, a SPU alegou que está providenciando a transferência de toda a área da estação para o Dnit, que após o trâmite ficará responsável por todo o espaço.

Hospital São Braz
Lotado até 2011 em um edifício na EQS 713/913, um dos bairros tradicionais da capital, o Hospital São Braz encontra-se abandonado, com vitrais quebrados e paredes pichadas. Nos quartos que abrigavam pacientes é possível encontrar muito lixo, com dejetos de moradores de rua que passam a noite no local. O mal cheiro da urina e até a presença de animais mortos pioram a insalubridade do local.

Uma parte do primeiro andar foi selada e fechada com um cadeado, impedindo o acesso central ao prédio, onde um segurança fica durante a noite. Abandonado há pelo menos cinco anos, o São Braz funcionou até meados de 2011. Período em que já vinha diminuindo suas atividades até receber uma determinação judicial ordenando que o empreendimento fosse fechado. A antiga unidade de saúde tem muitos processos por dívidas, tanto com fornecedores e ex-funcionários, quanto com o Estado.

Pessoas que passam pelo local diariamente se preocupam com a segurança da região. Natanael Marcos, de 21 anos, conta que é frequente presenciar o tráfico de drogas no prédio e se preocupa com a segurança das crianças que estudam nas redondezas. “Assim como meu irmão, que tem apenas 14 anos, muitos adolescentes precisam passar por aqui. Já aconteceu de serem perseguidos por figuras estranhas que aproveitam o espaço vazio para fazer todo tipo de coisa.”

A Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) informou que não tem legitimidade para impedir ações dentro das instalações, por ser uma área particular, apenas em exceções como flagrante. No entanto, a PMDF acrescentou que vem trabalhando de forma sistemática e intensificando policiamento na região para impedir ações de criminosos contra civis.

A reportagem não localizou os proprietários para saber o futuro da edificação.

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