{"id":100371,"date":"2016-05-04T07:53:25","date_gmt":"2016-05-04T10:53:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=100371"},"modified":"2016-05-04T11:58:05","modified_gmt":"2016-05-04T14:58:05","slug":"direita-cresce-com-crise-e-traz-riscos-da-volta-dos-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/direita-cresce-com-crise-e-traz-riscos-da-volta-dos-militares\/","title":{"rendered":"Direita cresce com crise pol\u00edtica e traz junto os riscos da volta dos militares"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vanessa Barbara<\/strong><\/p>\n<p>Por que alguns brasileiros anseiam pelos tempos em que uma junta repressora governava o pa\u00eds?<\/p>\n<p>&#8220;Perderam em 1964 e perderam de novo em 2016&#8221;, disse Jair Bolsonaro, um deputado conservador, durante a sess\u00e3o em 17 de abril em que a C\u00e2mara votou pelo prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Com essas palavras, ele se posicionou ao lado dos &#8220;vencedores&#8221; do golpe militar que derrubou um governo democraticamente eleito em 1964 e abriu caminho para 21 anos de ditadura militar brutal.<\/p>\n<p>Bolsonaro, um ex-paraquedista do Ex\u00e9rcito e um poss\u00edvel candidato \u00e0 presid\u00eancia, dedicou seu voto naquele dia \u00e0 mem\u00f3ria do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi, \u00f3rg\u00e3o de intelig\u00eancia respons\u00e1vel por reprimir os cr\u00edticos ao regime militar. O deputado enalteceu Ustra como &#8220;o pavor de Dilma Rousseff&#8221;.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 certo a respeito disso. Por tr\u00eas anos no in\u00edcio dos anos 70, a presidente, ex-guerrilheira marxista, foi submetida a choques el\u00e9tricos em diferentes partes de seu corpo e suspensa em um pau-de-arara (quando a pessoa fica de ponta-cabe\u00e7a, presa pelos pulsos e tornozelos). Ela sofreu sangramento interno e um de seus dentes foi arrancado por um soco de um interrogador.<\/p>\n<p>Dilma foi apenas uma das milhares de pessoas torturadas pelo regime militar brasileiro. A ditadura foi respons\u00e1vel por in\u00fameras viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, incluindo pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, viol\u00eancia sexual e oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres. Segundo um relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, pelo menos 434 pessoas foram mortas ou desapareceram durante aquele per\u00edodo: jornalistas, estudantes, professores, m\u00e9dicos, agricultores, sindicalistas, advogados, ex-pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo uma dona de casa, um diplomata e tr\u00eas padres cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Apesar de todas essas atrocidades bem-documentadas, mais de 30 anos ap\u00f3s o fim do regime militar, algumas pessoas no Brasil parecem confort\u00e1veis em falar bem daquela \u00e9poca. Durante os protestos contra o governo no ano passado, senhoras seguravam cartazes dizendo: &#8220;Por que n\u00e3o mataram todos em 1964?&#8221; e &#8220;Dilma, pena que n\u00e3o te enforcaram no DOI-Codi&#8221;. Em jantares de fam\u00edlia e em t\u00e1xis, \u00e9 poss\u00edvel ouvir conversas de como as coisas eram melhores quando os generais estavam no poder.<\/p>\n<p>A classe pol\u00edtica brasileira foi pega em um enorme esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o. O governo, liderado pelo Partido dos Trabalhadores de esquerda, \u00e9 impopular, e a remo\u00e7\u00e3o de Dilma parece iminente. Nessas condi\u00e7\u00f5es, tornou-se mais f\u00e1cil defender a extrema-direita, elogiar torturados condenados como se tivessem salvado o pa\u00eds de um horror muito pior.<\/p>\n<p>Bolsonaro, que representa o Estado do Rio de Janeiro, \u00e9 o rosto mais conhecido desse movimento. Ele defende o retorno ao regime militar h\u00e1 mais de 20 anos, mas ultimamente sua mensagem tem encontrado nova resson\u00e2ncia. Ele foi reeleito com margem ainda maior de votos em 2014 e atualmente \u00e9 o candidato presidencial preferido dos mais ricos para as elei\u00e7\u00f5es de 2018, obtendo entre 15% e 23% de suas inten\u00e7\u00f5es de voto em pesquisas recentes. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 sozinho.<\/p>\n<p>Junto com outros pol\u00edticos conservadores, ele pertence \u00e0 poderosa bancada BBB (abrevia\u00e7\u00e3o de B\u00edblia, Boi e Bala), que representa os interesses das for\u00e7as de seguran\u00e7a, do agroneg\u00f3cio e das igrejas evang\u00e9licas. Nem todos os membros da bancada s\u00e3o saudosos dos tempos do regime militar (ao menos n\u00e3o abertamente), mas parecem preferir uma ditadura de direita a um governo democr\u00e1tico liderado pela esquerda. Um deputado at\u00e9 mesmo veste uniforme militar para ir trabalhar e se refere ao golpe de 1964 como uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<p>A nostalgia do autoritarismo parece ter virado uma tend\u00eancia. Bolsonaro diz que o povo brasileiro sente falta dos valores morais dos militares: &#8220;Tinha vergonha na cara, respeito \u00e0 fam\u00edlia. Hoje \u00e9 essa baixaria&#8221;, ele disse em uma entrevista a um site de not\u00edcias, mencionando especificamente a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha como um dos muitos fracassos morais do Brasil atual.<\/p>\n<p>De acordo com uma pesquisa de 2014, 51% dos brasileiros acham que as ruas eram mais seguras durante o regime militar. &#8220;Foi uma \u00e9poca maravilhosa, em que se podia caminhar nas ruas com seguran\u00e7a e sua fam\u00edlia era respeitada&#8221;, disse Bolsonaro em uma entrevista para a TV. (Eu acrescentaria que s\u00f3 era verdade se voc\u00ea ou sua fam\u00edlia n\u00e3o fossem rotulados pelo governo como &#8220;subversivos&#8221;, &#8220;terroristas&#8221; ou &#8220;inimigos do Estado&#8221;, que podia ser qualquer um que ousasse falar contra o regime ou mesmo uma m\u00e3e perguntando sobre sua filha assassinada.)<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma impress\u00e3o geral de que a corrup\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 destruindo o atual governo, n\u00e3o existia naquele tempo. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade, \u00e9 claro. Sabe-se hoje que durante o regime militar houve casos de policiais trabalhando com traficantes de drogas, e de governadores recebendo propina, entre outros exemplos de corrup\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o existia naquela \u00e9poca era liberdade de express\u00e3o e liberdade de imprensa para denunciar os desmandos do governo.<\/p>\n<p>Para Bolsonaro, abrir m\u00e3o da liberdade dos brasileiros \u00e9 um pequeno pre\u00e7o a pagar para &#8220;ter professores respeitados na sala de aula&#8221; e poder comprar um rev\u00f3lver &#8220;inclusive na Mesbla&#8221;.<\/p>\n<p>Mas talvez quando Bolsonaro e seus simpatizantes enaltecem os tempos de valores familiares, direitos de porte de armas e respeito aos professores, eles realmente sentem falta de outra coisa: o tempo em que as elites conservadoras eram pouco contestadas, quando os menos privilegiados (as minorias e os pobres) n\u00e3o podiam fazer nada al\u00e9m de seguir ordens.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, especialmente desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder h\u00e1 13 anos, essa realidade mudou, ainda que de forma incompleta. Agora a democracia significa que todos os cidad\u00e3os t\u00eam o mesmo status e que todos merecem uma voz. Talvez toda essa nostalgia pela ditadura militar trate-se realmente de manter as pessoas em seus lugares.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-100372\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tnyt.gif\" alt=\"tnyt\" width=\"104\" height=\"19\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tnyt.gif 104w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/tnyt-100x19.gif 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 104px) 100vw, 104px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vanessa Barbara Por que alguns brasileiros anseiam pelos tempos em que uma junta repressora governava o pa\u00eds? &#8220;Perderam em 1964 e perderam de novo em 2016&#8221;, disse Jair Bolsonaro, um deputado conservador, durante a sess\u00e3o em 17 de abril em que a C\u00e2mara votou pelo prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. 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