{"id":102239,"date":"2016-05-22T17:00:57","date_gmt":"2016-05-22T20:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=102239"},"modified":"2016-05-22T22:50:47","modified_gmt":"2016-05-23T01:50:47","slug":"hora-de-arrumar-a-casa-maos-a-obra-mortadelas-e-coxinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/hora-de-arrumar-a-casa-maos-a-obra-mortadelas-e-coxinhas\/","title":{"rendered":"Hora de acabar o disse-me-disse e arrumar a casa; m\u00e3os \u00e0 obra, mortadelas e coxinhas"},"content":{"rendered":"<p>Garrafas quebradas no ch\u00e3o. Ta\u00e7as de champanhe abandonadas ap\u00f3s um ou outro gole numa conversa distra\u00edda. O ambiente, outrora requintado e cheio, agora exibe a decad\u00eancia do ocaso, a sujeira acumulada e aquilo que \u00e9 pior que a solid\u00e3o: a aus\u00eancia, o espa\u00e7o vazio, ocupado at\u00e9 h\u00e1 pouco. A alegria fugaz cobra o seu pre\u00e7o, pois a noite sempre termina, dando lugar a um novo dia. Os primeiros raios de sol derretem qualquer cren\u00e7a v\u00e3.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios sentidos, vivemos o Brasil de um fim de festa. Ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada no poder, o PT sente os efeitos da noitada. Mais do que olheiras e um gosto amargo na boca, sente uma na\u00e7\u00e3o dividida com a eclos\u00e3o de um neorradicalismo pol\u00edtico, a vergonha do petrol\u00e3o, a ressaca das contas p\u00fablicas em frangalhos e, por fim, a derrocada de um governo que se desfez em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>Foi-se o PMDB, aquele amigo baladeiro que s\u00f3 est\u00e1 ao seu lado enquanto o cart\u00e3o de cr\u00e9dito n\u00e3o estoura e ainda resta alguma cerveja gelada no freezer. Sobraram alguns aliados que, embora estridentes no discurso, foram incapazes de impedir o desmoronamento da administra\u00e7\u00e3o petista. Tal ocaso levou tamb\u00e9m para o fundo do po\u00e7o a ideia do presidencialismo de coaliz\u00e3o, t\u00e3o escabrosa quanto insustent\u00e1vel. Afinal, todos sabem que amigos interesseiros n\u00e3o t\u00eam limites e que deixar\u00e3o sua festa t\u00e3o logo ela se torne desinteressante.<\/p>\n<p>Alguns se iludiram e, j\u00e1 no final, tentaram em v\u00e3o aumentar o som, insistindo na continuidade da balada, mas a maioria dos convidados se foi, porque acabou a livre distribui\u00e7\u00e3o de comida e de bebida. Bem sabemos que alguns grupos \u2013sejam eles sociais, pol\u00edticos ou midi\u00e1ticos\u2013 negaram, e ainda negam, desesperadamente a realidade do fim de uma era, do esgotamento de um ciclo.<\/p>\n<p>A fei\u00e7\u00e3o de Lula, no discurso da agora presidente afastada, se sobressai dos demais rostos que ali estavam por emblem\u00e1tica. O anfitri\u00e3o, enfim, capitulou. Por\u00e9m, engana-se quem imaginar que Dilma e o PT amargam sozinhos o &#8220;day after&#8221; da farra \u2013a sociedade comprou uma hist\u00f3ria e paga o pre\u00e7o por isso.<\/p>\n<p>Em dias de muros que cortam a Esplanada de fora a fora, \u00e9 engra\u00e7ado notar que o PT chegou \u00e0 Presid\u00eancia justamente pela confian\u00e7a que foi nele depositada pela maioria da popula\u00e7\u00e3o \u2013isto \u00e9, pela jun\u00e7\u00e3o dos votos dos grupos que agora se hostilizam.<\/p>\n<p>O radicalismo ut\u00f3pico, embora lindo em seu discurso, n\u00e3o ganha uma elei\u00e7\u00e3o sozinho. Faz-se necess\u00e1rio o convencimento da grande massa, do Brasil real \u2013por vezes, apol\u00edtico\u2013, daqueles que acordam cedo para chegar ao trabalho no hor\u00e1rio, das pessoas que lutam para dar uma sobreviv\u00eancia minimamente digna aos seus dependentes ou que ambicionam uma simples melhoria em sua qualidade de vida.<\/p>\n<p>Nesse ponto, o reducionismo brega &#8220;coxinhas&#8221; versus &#8220;mortadelas&#8221; perde o sentido. Todos devemos lembrar que, em 2002, Lula obteve a vit\u00f3ria ap\u00f3s um forte trabalho de marketing em cima de sua imagem, amenizando seu radicalismo pol\u00edtico de outrora e cooptando a classe m\u00e9dia, agora desprezada pelos arautos do lulopetismo.<\/p>\n<p>Iludem-se aqueles que acreditam no movimento das massas fundado em raz\u00f5es filos\u00f3ficas ou ideol\u00f3gicas. O sujeito, muitas vezes, n\u00e3o quer saber se o governo segue a linha de Marx, de Keynes ou do palha\u00e7o Bozo. O que ele quer \u00e9 saber se h\u00e1 lisura no trato da coisa p\u00fablica, se existem condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento social e para o exerc\u00edcio da livre iniciativa, se a sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 de qualidade, se a seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 eficiente etc.<\/p>\n<p>Sinto desapontar alguns, mas, ao que parece, os milh\u00f5es de brasileiros que invadiram as ruas pedindo n\u00e3o somente o impeachment como tamb\u00e9m uma transforma\u00e7\u00e3o mais profunda na maneira de se fazer pol\u00edtica nestas terras n\u00e3o s\u00e3o, em sua maioria, ricos filhos de classes abastadas que adoram o Olavo de Carvalho ou o Jair Bolsonaro. Talvez muitos sequer saibam exatamente quem s\u00e3o eles.<\/p>\n<p>Embora a &#8220;intelligentsia&#8221; pol\u00edtica nacional frequentemente se negue a enxergar, o grande contingente de descontentes, em verdade, \u00e9 feito de figuras como: o Jo\u00e3o, que fez um financiamento imobili\u00e1rio, em 2014, acreditando que manteria o emprego; a Maria, que precisou vender o autom\u00f3vel rec\u00e9m-adquirido para sair do vermelho; o Jos\u00e9, que, por raz\u00f5es financeiras, precisou retirar os filhos de uma escola particular e encontra, como alternativa, um ensino p\u00fablico em frangalhos e; o Ant\u00f4nio, motoboy desempregado que n\u00e3o tem mais como sustentar sua fam\u00edlia e fica revoltado ao ser chamado de &#8220;pequeno burgu\u00eas&#8221;, &#8220;golpista&#8221; ou demais adjetivos semelhantes.<\/p>\n<p>\u00c9 um contingente grande e inominado de rostos que se perdem na multid\u00e3o e que, portanto, n\u00e3o cabem mais em dicotomias tolas. Nesse ponto, conv\u00e9m lembrar que n\u00e3o existem tributa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para petistas ou n\u00e3o petistas. Os hospitais do SUS n\u00e3o possuem alas espec\u00edficas para &#8220;comunas&#8221; ou &#8220;rea\u00e7as&#8221;, nem o empres\u00e1rio, ao falir, deixar\u00e1 de demitir o trabalhador somente porque ele usa uma camisa com o retrato de Ernesto Guevara.<\/p>\n<p>O que temos, em suma, \u00e9 a desordem de um sal\u00e3o abandonado, a consequ\u00eancia de um incont\u00e1vel n\u00famero de excessos numa noite surreal e um grande evento que se tornou ultrapassado e sem gra\u00e7a, ao encontrar um fim.<\/p>\n<p>Certamente, n\u00e3o faltar\u00e1 tempo para discutir quem comeu toda a comida da dispensa, deixando pacotes de salgadinho entreabertos e um rombo de mais de R$ 100 bilh\u00f5es. Contudo, numa perspectiva otimista, urge seguir com a vida e colocar as coisas no lugar. Socialista, conservador, liberal, anarquista, &#8220;mortadela&#8221;, &#8220;coxinha&#8221; etc., seja l\u00e1 como voc\u00ea se define, sugiro deixar a divaga\u00e7\u00e3o temporariamente de lado, escolher um balde e um esfreg\u00e3o e come\u00e7ar j\u00e1, pois h\u00e1 muito que fazer e o dia s\u00f3 est\u00e1 come\u00e7ando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Garrafas quebradas no ch\u00e3o. Ta\u00e7as de champanhe abandonadas ap\u00f3s um ou outro gole numa conversa distra\u00edda. O ambiente, outrora requintado e cheio, agora exibe a decad\u00eancia do ocaso, a sujeira acumulada e aquilo que \u00e9 pior que a solid\u00e3o: a aus\u00eancia, o espa\u00e7o vazio, ocupado at\u00e9 h\u00e1 pouco. 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