{"id":102806,"date":"2016-05-28T19:12:50","date_gmt":"2016-05-28T22:12:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=102806"},"modified":"2016-05-28T19:12:50","modified_gmt":"2016-05-28T22:12:50","slug":"caminhando-e-cantando-fomos-levando-a-cancao-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/caminhando-e-cantando-fomos-levando-a-cancao-da-vida\/","title":{"rendered":"Caminhando e cantando, fomos levando a can\u00e7\u00e3o da vida"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Escarlate<\/strong><\/p>\n<p>Eu levava a vida como o diabo gosta. Praia todos os dias, futebol na areia \u00e0 tarde e, \u00e0 noite, encontro com os amigos, jogando conversa fora at\u00e9 alta madrugada. Os pontos favoritos eram a esquina da Constante Ramos com a Atl\u00e2ntica, antigo Posto 4 e meio, o antigo Mercadinho Azul, na avenida Copacabana, em frente \u00e0 Dias da Rocha, e o Bar Kic\u00ea, na esquina da Miguel Lemos.<\/p>\n<p>No Kic\u00ea pintavam o Jo\u00e3o Saldanha, o Ronaldo Xavier de Lima, os irm\u00e3os Geraldo \u201cGalinha\u201d \u2013 porque ciscava muito -, Gilberto Moniz Viana, o \u201cS\u00f4gil\u201d e o cr\u00edtico de cinema, Moniz Viana. \u00c0s vezes pintava por l\u00e1 o H\u00e9lio \u201cPapinha\u201d, o H\u00e9lio Souto, muito parecido com o ator americano Cornell Wilde, e que mais tarde trabalhou no cinema e nas novelas. \u201cPapinha\u201d mais tarde casou-se com uma milion\u00e1ria, Maria Helena Morganti, cujo pai foi o maior produtor de caf\u00e9 do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A noitada inocente, em meio a \u201cbarbadas\u201d imperd\u00edveis, terminava no bar Bonfim, em frente \u00e0 pra\u00e7a Sezerdelo Corr\u00eaa, junto \u00e0 antiga e bel\u00edssima Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, derrubada para dar lugar a um supermercado. Por conta desse sacril\u00e9gio ningu\u00e9m foi preso, apesar de a igreja estar a menos de 100 metros do distrito policial. \u00c0s vezes, a caminhada se estendia at\u00e9 o Beco da Fome, na avenida Prado J\u00fanior, onde curt\u00edamos o caldo verde da negra Lindaura.<\/p>\n<p>Na rua Constante Ramos, o grande \u201cmust\u201d da \u00e9poca era o cinema Rian, que veio abaixo para a constru\u00e7\u00e3o de um hotel lusitano. Na sa\u00edda dos fundos do cinema, na rua Domingos Ferreira, faz\u00edamos a primeira parada. Era a boate \u201cTudo Azul\u201d. Al\u00ed tocava o meu amigo pianista Paulo Burgos, um artista de grande sensibilidade e alta qualidade. O cantor, iniciante, era o Geraldo Vandr\u00e9, quando ainda n\u00e3o era Vandr\u00e9, procurando crescer na vida. Musicalmente. Eles eram amigos desde quando a boate Tudo Azul funcionava em cima do Hotel Vogue, na avenida Princesa Isabel.<\/p>\n<p>Paulo Burgos foi um amigo querido. O Geraldo, um ano mais novo, estudava Direito e era cantor e compositor. Eu, apenas o peru de fora para dar palpite.<\/p>\n<p>Geraldo era da Para\u00edba, e veio para se apresentar no Programa C\u00e9sar de Alencar. Geraldo Pedrosa de Ara\u00fajo Dias, seu nome verdadeiro, apresentou-se imitando seus \u00eddolos, Carlos Galhardo e Carlos Jos\u00e9, o seresteiro. Depois, conseguiu defender, num festival da TV Rio, a m\u00fasica \u201cMenina\u201d, do Carlinhos Lyra, que era garoto como n\u00f3s. Bancado pela m\u00e3e, gravou um disco imitando Orlando Silva e Francisco Alves. Percorria esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e pagava cafezinho para discotec\u00e1rios. Naquele tempo, era s\u00f3 cafezinho.<\/p>\n<p>Conheceu o Valdemar Henrique, que comandava um programa na Radio Roquete Pinto e a coisa melhorou. Fez amizade com o Ed Lincoln, com o Luisinho E\u00e7a e com o Baden Powell. Precisava arranjar um nome art\u00edstico. Valdemar, que era numer\u00f3logo, matou a charada. Optou pelo prenome Geraldo, e abreviou o segundo prenome do pai, que se chamava Jos\u00e9 Vandreg\u00edsilo Dias.<\/p>\n<p>Cursando o Cl\u00e1ssico, conheceu o Jo\u00e3o Gilberto. A partir da\u00ed, a fila andou. \u00a0Depois de um monte de sucessos, Geraldo Vandr\u00e9 participou, em 1968, do Festival Internacional da Rede Globo, com \u201cCaminhando\u201d ou \u201cPra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei das Flores\u201d, no Maracanazinho. Ficou em segundo lugar, perdendo para \u201cSabi\u00e1\u201d, de Tom Jobim. Mas foi consagrado pelo p\u00fablico, que s\u00f3 cantava a sua m\u00fasica.<\/p>\n<p>\u201cCaminhando\u201d tornou-se um hino de protesto contra a ditadura instalada no pa\u00eds. O sucesso foi t\u00e3o grande que ap\u00f3s lan\u00e7ado, o disco foi proibido. Perseguido pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, Geraldo se auto-exilou no Chile. Com a volta para Bras\u00edlia, quando me entreguei totalmente ao jornalismo, perdi contato com o Geraldo.<\/p>\n<p>Paulinho Burgos, tamb\u00e9m veio para Bras\u00edlia, onde reatamos a velha amizade. Casou-se e reconstruiu a sua vida art\u00edstica, montando inclusive uma gravadora na Zona Franca de Manaus. Era feliz em Bras\u00edlia e permaneceu aqui at\u00e9 ser vitimado por um infarto fulminante, em 2002. Sua m\u00fasica, com um repert\u00f3rio da melhor qualidade, sua sensibilidade e seu brilho como pianista, al\u00e9m de um amigo da melhor linhagem, deixaram saudades. Uma saudade ao ouvir os discos que ganhei dele. A relembran\u00e7a atrav\u00e9s da m\u00fasica \u00e9 eterna.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"PV\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate Eu levava a vida como o diabo gosta. Praia todos os dias, futebol na areia \u00e0 tarde e, \u00e0 noite, encontro com os amigos, jogando conversa fora at\u00e9 alta madrugada. 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