{"id":105291,"date":"2016-06-18T12:45:57","date_gmt":"2016-06-18T15:45:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=105291"},"modified":"2016-06-20T09:17:16","modified_gmt":"2016-06-20T12:17:16","slug":"essas-incriveis-mulheres-e-o-macchismo-que-enche-o-saco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/essas-incriveis-mulheres-e-o-macchismo-que-enche-o-saco\/","title":{"rendered":"Essas incr\u00edveis mulheres brasileiras e o machismo doentio que enche o saco"},"content":{"rendered":"<p><strong>Thiago Guimar\u00e3es<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto o pa\u00eds tenta entender por que registra 50 mil estupros por ano, discute-se o impacto negativo do machismo e de pequenos gestos cotidianos que alimentam essa cultura. A jornalista Brenda Fucuta \u00e9 uma observadora atenta das quest\u00f5es femininas contempor\u00e2neas. Dirigiu algumas das principais revistas femininas do pa\u00eds e edita o site Mulheres Incr\u00edveis, que traz conversas com executivas de grandes empresas e jovens ativistas do feminismo brasileiro.<\/p>\n<p>De olho na nova agenda do empoderamento feminino, Brenda mostra como certos conceitos e express\u00f5es legitimam uma suposta superioridade natural dos homens. Nesse sentido, defende a necessidade de todos (e todas) reaprenderem a olhar e se relacionar com as mulheres. Baseada em suas conversas com mulheres inspiradoras e na pr\u00f3pria experi\u00eancia no mundo corporativo, a jornalista selecionou e classificou frases, do ass\u00e9dio de rua ao machismo inconsciente, que mulheres n\u00e3o aceitam e n\u00e3o deveriam mais ouvir.<\/p>\n<p><strong>Cantadas de rua<\/strong> &#8211; Assobios, buzinadas, olhares, coment\u00e1rios: diariamente, mulheres se veem obrigadas a enfrentar o ass\u00e9dio sexual em espa\u00e7os p\u00fablicos. Intera\u00e7\u00f5es de teor obsceno, sem consentimento, que se imp\u00f5em como naturais, mas est\u00e3o longe disso. Exemplos: &#8220;Por que uma menina bonita como voc\u00ea est\u00e1 sem namorado?&#8221; &#8220;Eu levaria voc\u00ea para casa.&#8221;<\/p>\n<p>Para Brenda, a abordagem pode \u00e0s vezes nem ser agressiva, mas nem por isso \u00e9 menos desrespeitosa. &#8220;H\u00e1 homens que n\u00e3o entendem que as meninas querem andar sem ser perturbadas, como os homens tamb\u00e9m querem. \u00c9 um desrespeito a uma situa\u00e7\u00e3o: estou andando, pensando, falando ao celular, n\u00e3o quero ser incomodada.&#8221;<\/p>\n<p>No caso das cantadas agressivas, avalia Brenda, s\u00e3o &#8220;abusos sexuais falados&#8221; que buscam demonstrar poder e intimidar a mulher. &#8220;Fazem parte de uma cultura, essa tal cultura do estupro, porque \u00e9 como se fosse autorizado aos homens falar, tocar e se apropriar do corpo das mulheres de uma forma que as mulheres n\u00e3o fazem com os homens.&#8221; A jornalista destaca como a campanha &#8220;Chega de Fiu-Fiu&#8221;, lan\u00e7ada em 2013 pela ONG feminista Think Olga, ajudou a &#8220;despertar a sociedade para um assunto que estava velado&#8221;. &#8220;Foi uma grande conquista para a percep\u00e7\u00e3o do lugar da mulher na sociedade, porque d\u00e1vamos pouca aten\u00e7\u00e3o a isso.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Frases de orgulho machista<\/strong> &#8211; Ditas por homens e tamb\u00e9m por mulheres, s\u00e3o frases que pressup\u00f5em um lugar inferior para a mulher na sociedade. Incluem desde brincadeiras aparentemente inofensivas sobre o desempenho feminino no tr\u00e2nsito at\u00e9 coment\u00e1rios a respeito da menina que se veste de modo &#8220;a n\u00e3o se dar o devido respeito&#8221;: &#8220;Por que mulheres s\u00e3o contra as cantadas? N\u00e3o gostam de um elogio?&#8221; &#8220;Muito bem, j\u00e1 pode casar.&#8221; &#8220;Se sai assim (na rua ou na balada) \u00e9 porque quer. Mulher que se respeita n\u00e3o \u00e9 estuprada.&#8221;<\/p>\n<p>Outra categoria de frase que n\u00e3o cabe mais na nova etiqueta de g\u00eanero, afirma Brenda, \u00e9 aquela que definiu como &#8220;machista em nega\u00e7\u00e3o&#8221;: sugere compreens\u00e3o mas logo revela preconceito. &#8220;S\u00e3o aqueles ou aquelas que sempre come\u00e7am, ao debater o tema das conquistas femininas, com a seguinte frase: &#8216;n\u00e3o sou machista, mas&#8230;&#8217; ou &#8216;n\u00e3o tenho nada contra o feminismo, mas&#8230;&#8217;, e depois j\u00e1 emendam uma ideia preconceituosa disfar\u00e7ada&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>S\u00e3o express\u00f5es como: &#8220;Mas voc\u00eas n\u00e3o acham que est\u00e3o exagerando agora? O que mais voc\u00eas t\u00eam para conquistar?&#8221; (a resposta, diz Brenda, \u00e9 m\u00faltipla: direito a n\u00e3o apanhar do marido, a ganhar os mesmos sal\u00e1rios dos homens, a dividir o trabalho de casa com homens, a n\u00e3o ser interrompida ao falar, a andar como quiser nas ruas). &#8220;Mas voc\u00eas falam em viol\u00eancia contra a mulher, mas e a viol\u00eancia contra os homens?&#8221; Sobre isso, Brenda lembra que homens s\u00e3o, de fato, as maiores v\u00edtimas de homic\u00eddio no Brasil, mas o agressor \u00e9 quase sempre homem nos casos contra homens e mulheres.<\/p>\n<p><strong>Machismo inconsciente<\/strong> &#8211; Uma pesquisa do Instituto Ethos mostrou que em 2010 mulheres ocupavam apenas 13% dos cargos de n\u00edvel executivo e s\u00eanior nas 500 maiores empresas do Brasil. Em 2014, revelou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), as mulheres receberam, em m\u00e9dia, 74% da renda dos homens. Neste sentido, Brenda questiona o uso de frases que aponta como comuns no mundo corporativo e que denotam uma esp\u00e9cie de machismo inconsciente. Coloca\u00e7\u00f5es como:<br \/>\n&#8220;Acredito na meritocracia. Se a mulher \u00e9 competente, ela chega l\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 machismo nessa empresa. Voc\u00ea, por exemplo, tem um sal\u00e1rio maior do que muitos colegas homens.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Sou muito a favor das mulheres e do feminismo. Em casa, por exemplo, s\u00e3o minhas filhas e esposa que mandam em mim.&#8221;<\/p>\n<p>Para a jornalista, s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem sentido quando s\u00e3o confrontadas com dados de disparidade de g\u00eanero em cargos de chefia e sal\u00e1rios: &#8220;As mesmas pesquisas que apontam a falta de mulheres em cargos de dire\u00e7\u00e3o apontam que no n\u00edvel inicial do trabalho a propor\u00e7\u00e3o de mulheres \u00e9 at\u00e9 ligeiramente maior. Por esse racioc\u00ednio, ent\u00e3o, as mulheres n\u00e3o ocupam o alto da hierarquia porque s\u00e3o incompetentes ou n\u00e3o merecem, o que n\u00e3o faz sentido, porque hoje no Brasil as mulheres t\u00eam at\u00e9 mais escolaridade do que os homens&#8221;.<\/p>\n<p>Brenda diz ver esse tipo de express\u00e3o como &#8220;campe\u00e3 do machismo&#8221;, por revelar desconhecimento do que seja feminismo e do papel da mulher na sociedade no s\u00e9culo 21. &#8220;Essas frases de machismo inconsciente podem ser at\u00e9 mais perigosas, porque as pessoas acreditam nelas&#8221;. &#8220;Uma vez ouvi o presidente de uma grande empresa, em um evento de empoderamento de mulheres, dizendo que era super comprometido com a causa at\u00e9 porque quem mandava nele em casa eram mulheres. Quando diz isso, volta a colocar a mulher em um lugar ltrapassado, de submiss\u00e3o, em casa novamente&#8221;, conclui.<\/p>\n<p><strong>Feminismo e desinforma\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211; A editora do site Mulheres Incr\u00edveis acredita que ainda exista muita incompreens\u00e3o, inclusive entre mulheres, sobre o que seja o feminismo. Como no caso de mulheres que dizem n\u00e3o ser feministas porque &#8220;defendem a diferen\u00e7a entre homens e mulheres&#8221; ou porque &#8220;acreditam na conviv\u00eancia pac\u00edfica entre homens e mulheres&#8221;. Segundo ela, nenhuma corrente do chamado novo feminismo defende a anula\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre homem e mulher. &#8220;O que esses movimentos pretendem \u00e9 a busca de direitos sociais iguais&#8221;, pontua.<\/p>\n<p>Brenda identifica a persist\u00eancia de &#8220;mal-entendidos&#8221; em torno do conceito de feminismo &#8211; &#8220;palavra forte e ainda carregada de preconceito&#8221;. Cita o exemplo de executivas de sucesso que, embora tenham postura feminista, rejeitam o &#8220;selo&#8221; de feminista: &#8220;Vivemos um momento de transi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a direitos humanos, diversidade, inclus\u00e3o de minorias. Ainda bem, sen\u00e3o ningu\u00e9m falava sobre isso. A\u00ed, quando a gente fala, parte da popula\u00e7\u00e3o se sente amea\u00e7ada e nem mesmo sabe por qu\u00ea. Sente-se acuada, com medo de perder coisas. E a\u00ed come\u00e7a a criar uma rea\u00e7\u00e3o em cima de mal-entendidos e, em geral, por falta de conhecimento&#8221;.<\/p>\n<p>Brenda afirma conceber e praticar o feminismo como um &#8220;exerc\u00edcio de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade para um jeito mais libertador de conviv\u00eancia, n\u00e3o julgador&#8221;. Nesse sentido, afirma que o debate motivado pelos casos recentes de estupro coletivo no Brasil \u00e9 positivo por &#8220;jogar luz numa ferida social que n\u00e3o gostamos de comentar&#8221;.<\/p>\n<p>Para ela, sem minimizar os epis\u00f3dios de estupro coletivo, \u00e9 preciso avan\u00e7ar a discuss\u00e3o para o abuso sexual que ocorre dentro das casas e no entorno das v\u00edtimas, que comp\u00f5e a maioria dos registros. &#8220;Isso \u00e9 muito s\u00e9rio e deve ser combatido, mesmo que seja ativismo de sof\u00e1, pegar a moldura do Facebook (contra a cultura do estupro) e reproduzir. Essa \u00e9 a grande pr\u00f3xima etapa, encarar essa quest\u00e3o delicada sobre a qual ningu\u00e9m quer falar, mas precisa ser iluminada&#8221;, finaliza.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Thiago Guimar\u00e3es Enquanto o pa\u00eds tenta entender por que registra 50 mil estupros por ano, discute-se o impacto negativo do machismo e de pequenos gestos cotidianos que alimentam essa cultura. A jornalista Brenda Fucuta \u00e9 uma observadora atenta das quest\u00f5es femininas contempor\u00e2neas. 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